O QUE PENSA A MÍDIA
    
5/6/2009 - EDITORIAIS
O NOME DA CRISE
EDITORIAL
O GLOBO
5/6/2009

Não importa o destino do ministro Carlos Minc. Importa é como o Brasil conseguirá manejar com um tema fundamental para a Humanidade, o meio ambiente. Até hoje, o assunto tem sido malbaratado em Brasília, terra dos maniqueísmos, em que a preservação da natureza é colocada em oposição ao desenvolvimento e vice-versa. Trata-se de uma miopia que cobrará alto preço às gerações futuras: seja pela degradação em si do meio ambiente ou pela inexistência de obras importantes de infraestrutura, como as de geração de energia, barradas pelo radicalismo de um dos lados na disputa, os ecomilitantes.

A experiência de Minc no ministério, fique ou não no governo, resume o impasse que existe no Brasil oficial diante do tema. Deputado estadual do PT, secretário de Meio Ambiente de Sérgio Cabral, animal político, acostumado a negociações, ele foi convocado por Lula para dar flexibilidade ao ministério, convertido em trincheira por Marina Silva. E, como toda trincheira, imóvel. Na gestão Marina um aspecto da vida real foi desconsiderado: é imperioso o país explorar seu potencial hidráulico - fonte limpa de energia. Que os projetos sejam executados com os devidos cuidados com o ambiente, mas que sejam realizados. Afinal, não construir as usinas no Madeira e em outros rios amazônicos significa "sujar" a matriz energética brasileira com o uso de carvão e/ou óleo. Boicotar hidrelétricas, pois, atenta contra o meio ambiente, uma relação difícil de ser vislumbrada pela cegueira do ecorradicalismo. A abertura ao diálogo do ministro, entretanto, parece ter sido confundida com sinal verde ao desvario. Portanto, tem razão Minc de reclamar contra jogadas de bastidores e outros golpes que recebe dentro do próprio governo, e no Congresso, por quem considera preservação ambiental modernismo e "coisa de ONG". Não é. Pode-se discutir qual a real responsabilidade do Homem no aumento da temperatura da Terra, mas não se pode contestar que se deve reduzir as emissões de CO. E o Brasil, por causa do desmatamento e queimadas na Amazônia e no Centro-Oeste, é um dos dez que mais contribuem para essas emissões no mundo. Mais: sem uma ação coordenada dentro do poder público, pois o combate a causas do problema depende dele - da vigilância dos assentamentos do Incra ao controle do avanço da pecuária sobre a floresta -, a tragédia ambiental continuará.

Carlos Minc subiu a voz contra ministros e parlamentares talvez por ter percebido o isolamento político que vive em Brasília. O chefe, presidente Lula, parece executar nas conversas privadas de gabinete a mesma coreografia encenada nos palcos e auditórios, onde fala aquilo que plateias e interlocutores querem ouvir. Minc já deve ter achado que recebia apoio incondicional de Lula, e percebido depois que o mesmo é dito a todos. Inclusive a quem se lixa para o meio ambiente. Ontem, saiu animado de uma conversa com Lula. A ver. Como analisou um ex-ocupante da cadeira de Minc, Gustavo Krause, ministro de FH entre 1995 e 98: o meio ambiente é uma questão central para a Humanidade e periférica para os governos brasileiros. E assim o tema fica sobre os ombros de uma pessoa apenas, o ministro. Todos os demais não dão bola para o assunto, quando o desenvolvimento sustentado deveria ser responsabilidade de Estado. A crise em torno de Minc se refere a algo mais importante que o futuro de um ministro. Tem a ver se o Estado brasileiro entende mesmo o que significa meio ambiente. Tudo indica que até hoje não entendeu do que se trata.

TORCEDORES OU VÂNDALOS?
EDITORIAL
JORNAL DO BRASIL
5/6/2009

Um morto, oito feridos, quatro carros depredados e um ônibus incendiado. Este foi o triste e inadmissível saldo de mais uma briga entre torcidas organizadas. O palco da barbárie de quarta-feira à noite foi a rodovia Marginal Tietê, em São Paulo, onde torcedores do Vasco foram atacados com paus, pedras e rojões por um grupo de homens com camisas do Corinthians, horas antes da partida entre os dois times pela Copa do Brasil, no Estádio do Pacaembu. Sequer o contingente de 20 batedores em motocicletas e a escolta de duas viaturas da Polícia Militar conseguiram conter a sanha dos vândalos.
Além de expor a irracionalidade brutal dessas gangues que se escondem sob os escudos de times de futebol, a selvageria desmedida daquela noite evidencia a fragilidade do esquema de segurança de um país que pretende organizar uma Copa do Mundo de alto nível em 2104. A punição aos 27 torcedores detidos durante a baderna (caso sejam considerados culpados) deve ser exemplar, a fim de desestimular quaisquer atos semelhantes de agora em diante. E a adoção de leis específicas mais rígidas também deve ser considerada.
Responsável por combater a violência nos estádios de futebol de São Paulo, o promotor Paulo Castilho afirmou que os torcedores do Vasco sofreram uma emboscada dos corintianos. No confronto generalizado, em que até armas de fogo foram utilizadas, um torcedor do Corinthians, de 27 anos, foi assassinado. De acordo com o promotor, duas dezenas de batedores das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e dois carros da PM faziam a escolta de 13 ônibus do Vasco, com cerca de 700 torcedores no total. Eles seguiam da Via Dutra pela Marginal Tietê rumo ao estádio, quando, perto da Ponte das Bandeiras, encontraram um ônibus parado na pista. Foi então que torcedores do Corinthians (que estavam escondidos no ônibus) saíram com paus e pedras e começaram a atacar o comboio. Quatro carros também participaram da ação. Apesar da escolta policial, os torcedores vascaínos reagiram. As cenas de pancadaria e sangue à beira da pista duraram quase 10 minutos.
Uma ideia que começa a tomar corpo é a da "torcida única" nos jogos de maior risco. Embora soe antidesportiva num primeiro momento, a liberação do acesso ao estádio a torcedores de apenas um time conta com o apoio do ministro do Esporte, Orlando Silva, e pode vir a ser posta em prática brevemente em São Paulo. Segundo o promotor, além de evitar confrontos, a torcida única resulta em economia de aparato policial, o que evita que a população fique sem amparo. A adoção de um cadastro nacional para todas as pessoas que queiram frequentar os estádios também é defendida pelo promotor.
No Rio, o grau de violência das torcidas parece um tanto menor que o das congêneres paulistas. Mas brigas entre pequenos grupos de falsos torcedores – tramadas em redes sociais como o Orkut – tornaram-se tristemente corriqueiras. Seria interessante, portanto, que o serviço de inteligência policial se debruçasse sobre estas páginas da internet, onde os crimes são premeditados. A ação preventiva é sempre mais eficaz. De todas as maneiras, é preciso repudiar os atos de violência relacionados às torcidas e zelar pela segurança dos verdadeiros fãs do futebol.

UMA VITÓRIA DA OEA
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
5/6/2009

Em retrospecto, seria inconcebível a 39ª Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), reunida em San Pedro Sula, Honduras, terminar na quarta-feira sem revogar a decisão de 1962 que suspendeu Cuba da entidade por ter um governo marxista-leninista, receber ajuda militar da União Soviética e fomentar a subversão comunista nos países da região. A questão, desde a primeira hora, era como dar cabo desse anacronismo, duas décadas depois do ocaso da guerra fria que lhe deu origem, sem que isso representasse um contraproducente dissabor para os Estados Unidos, logo agora que o presidente Barack Obama começa a dar curso ao seu "novo diálogo" com a América Latina em geral e com Cuba em particular.

A Casa Branca não poderia aceitar que o levantamento da suspensão equivalesse automaticamente à reintegração da ilha ao colegiado, dispensando o regime castrista de dar qualquer passo nesse sentido, muito menos de promover as reformas políticas que o tornassem compatível com os requisitos absolutamente claros da cláusula democrática adotada pela OEA em 1991. A rigor, excetuado o bloco chavista que fantasia uma OEA sem os Estados Unidos e o Canadá, e naturalmente está se lixando para os valores da "democracia burguesa", nenhum dos países-membros relevantes na região teria como contemplar seriamente tal hipótese, a menos que desejasse enfim consumar o esvaimento da organização, de há muito previsto, mas nunca implementado.

Para o Brasil, que assumiu papel decisivo nas negociações sobre os termos da revogação do afastamento de Cuba - a cargo de um grupo de trabalho de diplomatas de 10 países, constituído por iniciativa do Itamaraty -, não havia dúvida de que uma coisa era revogar sem delongas a punição a Cuba e outra o que viria depois do que o chanceler Celso Amorim chamou, numa entrevista à imprensa, "período de transição". Quanto mais não fosse, essa separação seria indispensável para que o "enterro burocrático" da resolução de 1962 se desse por consenso, desfazendo o confronto de posições entre os Estados Unidos e o grupo de países caudatários da Venezuela de Hugo Chávez.

Os primeiros desejavam inicialmente que a revogação fosse o ponto de chegada de um diálogo em que Cuba se engajasse. Sem apoio para tanto, passaram a insistir em que a nova resolução reafirmasse os compromissos da OEA com os princípios democráticos. Os bolivarianos não só se opunham a isso, como ainda demandavam que a entidade pedisse desculpas a Cuba pelo ostracismo que lhe impôs. Em 1962, em Punta del Este, a suspensão foi decidida no voto depois de intermináveis acertos e pressões que deixaram "um gosto amargo na boca de todos", segundo o relato de um jornalista. Brasil, Argentina, México e Equador se abstiveram. Em Honduras, o processo foi muito menos traumático, embora trabalhoso.

Concessões de parte a parte asseguraram o consenso em torno de um texto que alude aos objetivos da OEA relacionados com "a segurança, a democracia, a autodeterminação, a não-intervenção, os direitos humanos e o desenvolvimento" e estipula que a reintegração de Havana dependerá de um diálogo a se iniciar "a pedido do governo de Cuba, em conformidade com as práticas, os propósitos e os princípios" do organismo. O desfecho, saudado como "histórico", é uma expressão do que o exercício da diplomacia tem de melhor. "Foi um ato de estadistas", comentou o secretário de Estado assistente dos EUA para a América Latina e futuro embaixador de seu país em Brasília, Thomas Shannon. Mas o grande vitorioso foi a própria OEA.

As anunciadas mudanças no relacionamento de Washington com os seus vizinhos ao Sul, a que a decisão de San Pedro Sula evidentemente não está alheia, conferem renovada importância à organização como foro multilateral por excelência para que esse aggiornamento se desenvolva - nisso incluído o seu capítulo cubano. Se é verdade que o potencial de toda entidade do gênero será sempre aquele que os seus países-membros desejarem que seja, é verdade também que o Hemisfério não dispõe de uma instituição que rivalize com a OEA, apesar de toda a sua alegada obsolescência, na solução de crises regionais. O espaço político que proporciona e o seu consolidado instrumental jurídico vêm a calhar nesses novos tempos - aos quais, por sinal, Cuba continua se recusando a se adaptar.

AS TORCIDAS BANDIDAS
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
5/6/2009

Mais uma vez uma partida de futebol - a disputada quarta-feira, no Estádio do Pacaembu, entre Corinthians e Vasco da Gama - foi pretexto para que as torcidas organizadas promovessem verdadeira batalha nas ruas da capital. Sua selvageria, estranha ao esporte e aos verdadeiros torcedores, deixou o saldo de um morto, sete feridos e um ônibus incendiado, sem falar no pânico que semeou entre os moradores do Pacaembu e os que passavam pelas proximidades dos locais dos incidentes.

O primeiro e mais violento confronto ocorreu antes do jogo, por volta das 21 horas, perto da Ponte das Bandeiras, na Marginal do Tietê, quando um comboio de 15 ônibus que transportava vascaínos para o Pacaembu cruzou com um ônibus e quatro carros ocupados por corintianos. Depois de troca de insultos, os dois grupos, armados com barras de ferro, facas e pedras, iniciaram uma batalha que os 30 policiais militares (PMs) que escoltavam o comboio dos vascaínos não conseguiram evitar.

Um homem morreu e seu corpo, com marcas de pauladas e facadas, foi encontrado pouco depois, nas proximidades, pelos policiais. Embora estivesse sem camisa e documentos, sendo portanto impossível identificá-lo de imediato e afirmar a que grupo pertencia, logo se espalhou a notícia de que era corintiano, o que bastou para acirrar ainda mais os ânimos dos integrantes da torcida organizada do time paulista - tanto os que foram dispersados pela PM, depois da prisão de cerca de 30 corintianos e vascaínos como outros que estavam a caminho do estádio.

A vingança não demorou. Durante o segundo tempo da partida, um ônibus pertencente aos corintianos, felizmente vazio, estacionado nas imediações do Pacaembu, foi incendiado por enfurecidos vascaínos que não tinham conseguido entrar no estádio. A pronta intervenção do Corpo de Bombeiros evitou que o fogo atingisse outros veículos.

O problema das torcidas organizadas vem de longe. Confrontos mais graves que esse já aconteceram. Em outubro de 2005, três jovens morreram em menos de 24 horas em brigas de torcidas na capital. Muitos outros casos, que deixaram mortos e feridos, poderiam ser citados. O confronto de quarta-feira não constitui, pois, nenhuma novidade. Daí a pergunta: até quando as autoridades insistirão em enfrentar esse problema com medidas que oscilam entre o paliativo e o extravagante?

De nada adianta, como se acaba de ver, colocar 30 policiais para escoltar comboio de ônibus de uma torcida. Eles podem fazer muito pouco, quase nada, para impedir o confronto de grupos numerosos e enfurecidos. De nada adianta, também, apelar para propostas estapafúrdias como a feita recentemente pelo governo, de exigir carteirinhas de identificação dos torcedores que vão a estádios. Uma medida de difícil aplicação e principalmente inútil, porque cada vez mais os confrontos entre as torcidas se dão fora dos estádios. Não foi por acaso que, há quase 20 anos, o governo britânico cogitou da adoção dessas carteirinhas e logo desistiu.

Quando os nossos governantes estiverem mesmo dispostos a enfrentar para valer esse problema, terão muito a aprender com experiência da Grã-Bretanha, que por muito tempo sofreu com as tragédias provocadas pelos seus violentos "hooligans". Os britânicos conseguiram diminuir bastante os conflitos nos estádios e fora deles, com providências como a de identificar os elementos mais violentos nas torcidas organizadas e proibir sua presença nos estádios. Nos dias de jogo, eles têm de comparecer a uma delegacia e lá permanecer pelo tempo de duração da partida e de dispersão das torcidas.

Eles recebem o tratamento que merecem - o de delinquentes que têm de ser segregados, ainda que só em determinados dias. É de uma ação policial eficiente e de medidas duras e objetivas como essas que precisamos. As torcidas organizadas - a esta altura, que dúvida ainda pode existir sobre isso? - possuem "células" de crime organizado que como tal têm de ser tratadas. Elas nada têm a ver com o esporte e tudo a ver com o crime. Só as autoridades ainda não se deram - ou fingem que não se deram - conta disso.

A PERIGOSA DÍVIDA DOS RICOS
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
5/6/2009

Mais um alerta contra a crescente dívida pública americana, hoje próxima de US$ 11,4 trilhões, cerca de 80% do produto interno bruto, foi lançado pelo presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke. Quanto maior o débito, maior o pagamento de juros e maior o déficit, advertiu o presidente do Fed. Isso levará, afirmou, a uma situação insustentável. Este adjetivo foi usado há pouco tempo pelo presidente Barack Obama, ao propor um programa de ajuste das contas públicas para os próximos anos. Essa não é uma questão de interesse interno, mas um tema relevante para todo o mundo. Se o governo americano tiver de pagar juros mais altos para rolar seus títulos, outros países, incluído o Brasil, serão afetados, porque o dinheiro ficará mais caro no mercado internacional.

A dívida federal americana tem aumentado à razão de US$ 3,8 bilhões por dia desde o fim de setembro de 2007. Isso é uma consequência do aumento do déficit público. O rombo nas contas federais, US$ 459 bilhões no ano fiscal de 2008, está estimado em US$ 1,75 trilhão neste exercício e deverá, segundo os planos do governo, diminuir para US$ 1,1 trilhão em 2010. Mas isso dependerá de freio no gasto público e, neste momento, a prioridade oficial é repor a economia em movimento. A grande expansão do déficit neste ano resulta principalmente das medidas anticrise adotadas a partir do terceiro trimestre de 2008, incluído o socorro ao setor automobilístico.

Também na Europa os governos vêm gastando muito para atenuar a recessão e limitar os efeitos da crise em alguns setores produtivos e no sistema financeiro. Também a política monetária tem sido afrouxada. Ontem, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter os juros básicos em 1%, os menores desde sua criação.

O Banco da Inglaterra também realizou a revisão periódica dos juros e conservou a taxa de 0,5% pelo quarto mês consecutivo. Com juros muito baixos e pouco espaço para continuar reduzindo o custo do dinheiro, os dois bancos centrais, assim como o americano, mantêm um programa de compra de títulos em circulação para injetar moeda no mercado.

Apesar da política monetária expansiva e do aumento do gasto público, a atividade econômica permanece retraída nos Estados Unidos e na Europa. Alguns sinais positivos têm aparecido, mas insuficientes para permitir previsões mais otimistas para este ano. Nos EUA, os pedidos de auxílio-desemprego diminuíram levemente nesta semana, mas o número de beneficiários continua acima de 6,7 milhões.

O Fed continua estimando alguma reanimação da economia a partir do fim do ano. Na zona do euro, as vendas do comércio varejista foram 0,2% maiores em abril do que em março. Foi o primeiro aumento mensal desde setembro.

Mas a nova projeção do BCE para 2009 é muito pior que a de março. Há três meses, calculava-se para este ano uma contração do produto entre 2,2% e 3,2%. Pela nova estimativa, a redução ficará entre 4,1% e 5,1%. Para 2010, a previsão fica entre uma contração de 0,7% e uma expansão de 1%.

O panorama europeu continua menos animador que o americano e as piores perspectivas ainda são as da Europa do Leste. Vários países dessa área recorreram ao FMI para enfrentar a crise e sua recuperação deverá ser lenta.

Embora a prioridade ainda seja o combate à recessão, também o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, está preocupado com a deterioração das contas públicas. O desequilíbrio fiscal na zona do euro poderá atrapalhar a recuperação, se minar a confiança dos empresários e das famílias, disse Trichet na quinta-feira. Seu comentário foi uma reação a declarações da ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, favorável a um afrouxamento dos critérios de estabilidade financeira para os países da zona do euro, fixados pelo Tratado de Maastricht.

Bernanke e Trichet estão certos. Embora a reativação da economia seja a tarefa mais urgente, é preciso pensar desde logo em políticas de estabilização fiscal para os próximos anos. Se isso não for feito, as pressões inflacionárias serão inevitáveis, a gestão da dívida pública será mais custosa e será mais difícil manter um crescimento econômico prolongado. Essa questão é de interesse fundamental também para os países em desenvolvimento.

A CNI MENOS OTIMISTA DO QUE O IBGE
EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO
5/6/2009

A análise do desempenho do setor industrial em abril, apresentada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), é menos otimista do que a do IBGE. Menos abrangente do que a do IBGE e, levando em conta o faturamento, não o volume da produção, ela traz, porém, dados complementares que a enriquecem. O IBGE destaca a continuidade do crescimento, enquanto a CNI relata uma interrupção dos sinais de recuperação.

Em abril, em relação ao mês anterior, a CNI registra uma redução de 1,9% do faturamento real, de 0,1% das horas trabalhadas e de 1,1% do nível de emprego no conceito dessazonalizado, enquanto a massa salarial real acusa queda de 2,9%.

O recuo do faturamento real pode ser atribuído à queda das exportações, mas também a uma melhora da produtividade, que aparece quando se compara a evolução das horas trabalhadas com a do emprego, ao mesmo tempo que há um crescimento dessazonalizado do índice de Utilização da Capacidade Instalada (UCI) de 0,4 ponto porcentual.

Houve, certamente, necessidade de reconstituir os estoques recorrendo a uma maior utilização dos equipamentos existentes, o que é um fator positivo.

As horas trabalhadas se reduziram muito menos do que o nível de emprego, uma situação que sempre acompanha um período de recessão. As empresas as reduzem mais do que a queda do faturamento justificaria e então constatam que, com menos mão de obra, podem continuar atendendo à demanda.

Isso naturalmente se reflete numa queda ainda maior da massa salarial - não sendo o período de desaceleração favorável a um aumento real de salários.

A avaliação da CNI é que os dados levantados não permitem concluir que o processo de recuperação da produção industrial, que se havia observado nos três meses anteriores, esteja se consolidando. Espera-se uma recuperação nos próximos meses, em razão das isenções tributárias outorgadas a alguns setores. A produção de veículos em maio parece confirmar essa expectativa.

Apenas no final do ano é que se poderá registrar crescimento em relação ao mesmo período de 2008, levando em conta que nos três primeiros trimestres do ano passado a produção atingiu um nível excepcionalmente bom.

Com a redução da massa salarial, que deverá continuar nos próximos meses, só as transferências públicas é que deverão permitir crescimento da demanda.

LUZ NO AMBIENTE
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
5/6/2009

Polarização ideológica impede debate técnico e sereno sobre a urgente atualização do Código Florestal brasileiro

O CÓDIGO Florestal data de 1965, quando os 4,2 milhões de km2 da floresta amazônica brasileira se encontravam quase intactos. A maior diversidade biológica do planeta ocupava nada menos que metade do país. Hoje o bioma já perdeu mais de 17% de sua cobertura vegetal.
Como toda legislação, o código precisa adaptar-se a novas realidades. Isso pode ocorrer por meio de alterações pontuais, como até agora, ou por uma revisão que corporifique um novo consenso nacional sobre esse patrimônio natural sem par.
Como demonstra o caderno especial publicado hoje pela Folha, a população brasileira atribui grande valor à preservação das matas. Identifica em madeireiros e fazendeiros seus inimigos, visão que não deixa de estar contaminada pelo maniqueísmo.
A dificuldade se soma ao fato de que prevalece hoje, no setor político e empresarial, o dissenso sobre o código. Representantes da agropecuária movem campanha contra seu mais controverso dispositivo, a exigência legal de preservar 80% da mata nativa nas propriedades localizadas na Amazônia, modificação introduzida em 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso -antes bastavam 50%.
Alguns defendem voltar ao patamar anterior, que já seria o mais alto do país (no cerrado a reserva é de 35% e nos demais biomas, 20%). Outros, que a recomposição da cobertura possa ser feita com espécies não nativas da Amazônia, caso do dendê, cultivo de alto valor comercial.
Muitos produtores se preocupam, com razão, com os critérios para definir as áreas de preservação permanente. As APPs são partes da propriedade rural em que a manutenção da cobertura nativa é exigida por lei, como margens de rios, encostas e topos de morro.
A definição do que seja topo de morro é das mais problemáticas. Dependendo de como o fiscal do Ibama ou o Ministério Público a interpretam, culturas inteiras podem parar na ilegalidade. Entre os casos mais citados estão cafezais, vinhedos e plantações de maçã em áreas montanhosas.
Essa insegurança jurídica decerto não favorece investimentos num setor de importância crescente para a economia nacional. Seria, contudo, fácil de eliminar. Bastaria legalizar áreas de cultivo tradicionais e consolidadas, pois seria um contrassenso colocá-las sob risco.
Esse espírito pragmático teve acolhida no próprio código, que admite redução da reserva legal em áreas da Amazônia, desde que indicada no zoneamento ecológico-econômico -um guia, elaborado em âmbito estadual, que disciplina os usos da terra. O ânimo para a cooperação e o enfrentamento técnico de desafios concretos também vigorava no grupo de trabalho formado pelas pastas da Agricultura, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário. Até desandar, no final de 2008, em polarização estéril.
Ou se retoma o caminho anterior, ou agricultores e ambientalistas continuarão travando uma batalha de panfletos. É do interesse do país que os dois lados cedam em parte de suas exigências.

OBAMA NO CAIRO
EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO
5/6/2009

BARACK Obama escolheu a dedo as palavras de seu aguardado discurso no Egito. Começou por invocar a paz, em árabe, falou de "humilhações diárias" e de "ocupação" nos territórios palestinos. A ovação na Universidade do Cairo confirma que a mudança de rumos na política dos EUA para a região foi bem recebida no mundo árabe.
A fala do presidente norte-americano reservou palavras duras para Israel. "Os israelenses têm de reconhecer que, assim como seu direito de existir não pode ser negado, tampouco pode o da Palestina." Obama disse também que é hora de interromper a construção de assentamentos na Cisjordânia.
Obama nada mais fez do que repetir o que já havia deixado claro em meados de maio ao premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Mas também usou seu discurso no Cairo para reafirmar que os laços com Israel são "inquebrantáveis" e para exortar o grupo fundamentalista Hamas a abandonar a violência.
Propor o recomeço em novas bases ao mundo islâmico é uma coisa; delinear um caminho para desarmar os diversos conflitos latentes ou explícitos na região, outra. O discurso de Obama explicita, com a eficácia habitual, a nova motivação americana, mas não indica quais serão as iniciativas daí decorrentes. Com a exceção do Irã e da Síria, vale lembrar, os EUA já não têm diferenças diplomáticas relevantes no chamado grande Oriente Médio.
O fulcro do problema diz respeito ao controle de atores não estatais -como a Irmandade Muçulmana, no Egito; o Hamas, em Gaza; o Hizbollah, no Líbano; o Taleban e a Al Qaeda no Afeganistão e no Paquistão- que dispõem de meios eficientes para sabotar qualquer tentativa de avanço em negociações de paz.
Enunciar um afastamento relativo de Israel é só um primeiro gesto para que a Casa Branca retome a capacidade de mediar esse conflito multifacetado.

A RENDIÇÃO DO PT AO PRESIDENTE LULA
EDITORIAL
VALOR ECONÔMICO
5/6/2009

A cinco meses do Processo de Eleição Direta (PED) em que os seus militantes escolherão dirigentes municipais, estaduais e nacionais, o Partido dos Trabalhadores (PT) emite cada vez mais sinais de dependência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo da sua história, que é paralela porém não necessariamente condicionada à carreira política de Lula, o PT manteve uma relação com o seu maior líder que foi conveniente para ambos: o partido tinha vida própria e sua dinâmica interna era a síntese dos conflitos entre as suas diversas facções; Lula tinha um capital político que era seu, construído no movimento sindical e movido a carisma. O líder carismático emprestava sua imagem ao partido sem ser obrigado a operar as intensas negociações demandadas pela coexistência de facções constantemente em conflito; o partido, que no processo de síntese de conflitos ganhava massa orgânica, movia-se nas eleições em sólido apoio ao líder.
Antes de ser presidente, Lula e o PT tinham o mesmo grau de importância junto ao militante e ao eleitor. Após 2003, todavia, quando conquistou a Presidência da República para o seu maior líder, o partido vem perdendo importância em relação a Lula. O grande saldo do escândalo do mensalão, que foi usado pela oposição com o objetivo claro de tirar Lula do cenário político, foi o de aumentar a popularidade do líder em relação à de sua legenda. A partir de 2005, e sempre mais, o PT passou a depender da popularidade do presidente. O partido foi coadjuvante na escolha da candidata que terá à Presidência - a candidatura da ministra Dilma Rousseff foi uma decisão pessoal do presidente Lula. Será também acessório na disputa eleitoral - o presidente Lula será, de fato, o grande eleitor de 2010. E corre o risco de ser também descartável na definição da nova direção do partido, que estará no comando no período eleitoral.
As eleições para a direção do PT, este ano, personificarão essa realidade. O nome preferido da disputa partidária é o do chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho. Embora Carvalho tenha qualidades pessoais e políticas que o definem como um bom nome para presidente do PT, independente de sua proximidade ou não com o presidente, foi exatamente esse detalhe o que o levou ao centro das articulações dos diferentes grupos partidários. Ele foi apontado por dirigentes atuais do partido como aquele com maior credibilidade junto aos partidos aliados para negociar as coligações de 2010 por ser "a voz do presidente Lula dentro do PT". Lula, ao tentar manter o seu auxiliar mais próximo no governo, assumiu para si a tarefa de indicar um nome "preferido" na disputa partidária, como se isso fosse o natural nas suas relações com o PT.
Pela primeira vez, Lula vai indicar oficialmente um candidato seu à presidência do PT. Na edição de ontem, a "Folha de S. Paulo" publica uma matéria em que afirma que o presidente indicará e apoiará oficialmente o presidente da BR Distribuidora, o ex-senador José Eduardo Dutra, como o "seu" candidato a presidente do PT.
Carvalho teria, sobre Dutra, a vantagem de reunir apoios internos no partido - isso equilibraria a sua posição, neutralizando o fato de ser uma pessoa da confiança estrita do presidente. Numa disputa do PED, não seria meramente o candidato de Lula, mas um postulante com o apoio formal do "Construindo um Novo Brasil", que é o antigo Campo Majoritário do qual Lula faz parte; com trânsito entre outras correntes, como a do ministro Tarso Genro, a "Mensagem ao Partido"; e ainda com a confiança da ministra Dilma Rousseff.
A opção de Lula de lançar um candidato "seu" à presidência do PT - por sua vez, assumido como o candidato de "seu" grupo, o "Construindo um Novo Brasil" - marca um novo momento dentro do PT, de rendição dos grupos partidários a uma liderança carismática. E de reconhecimento de suas próprias condições, mais limitadas hoje, de construir novos líderes. Esse papel acabou sendo desempenhado por Lula, quando investiu seu capital político tentando transferir votos para uma ministra até então desconhecida. Continuará sendo desempenhado em 2010, quando uma vitória dessa candidata dependerá muito mais do papel que será desempenhado pelo presidente petista do que pelo partido que a abriga.

À ESPERA DE RESGATE
EDITORIAL
A GAZETA (ES)
5/6/2009

Pela sua história, tradição e aspiração, o futebol profissional do Espírito Santo não merece o espetáculo lamentável protagonizado por São Mateus e Rio Branco no último sábado. A baderna representou violência ao sentimento do torcedor bem intencionado, em dimensão maior do que as agressões que trocaram integrantes dos dois times.

O jogo transformado em ringue e, por isso, encerrado antes do tempo regulamentar, deixou dúvida sobre a equipe que representará o Estado na Série D do Campeonato Brasileiro. Independentemente de qual seja, estar na quarta divisão, criada recentemente pela Confederação Brasileira de Futebol, já significa situação entristecedora para o torcedor capixaba. Este, no passado, vibrou com times locais presentes nos principais campeonatos do país. E fizeram boas campanhas. O brilho das equipes locais era motivo de orgulho.

Mas a quarta divisão ainda parece nível elevado para jogos que descambam para cenas deploráveis, como as que foram vistas na decisão do Capixabão. Aquele caos não tem lugar no futebol. Foi de tal forma inusitado que ganhou repercussão internacional. Jornais e sites em diversas partes do mundo relataram a confusão generalizada no estádio Senamby.

Veículos como o The New York Times, o Yahoo Sports e a agência Reuters deram ênfase à violência reinante e ao fato de a partida ter sido encerrada por falta de jogadores. É uma situação muito desgastante. Não se deve aceitar que seja essa a referência futebolística do Espírito Santo.

A confusão reinante no gramado se irradiou para fora dele. O clima de festa presente nas arquibancadas antes da bola rolar se transformou perigosamente. A tensão generalizou-se. Vidros de carros, mesas e cadeiras de estabelecimentos próximos ao estádio foram quebrados. O Batalhão de Missões Especiais da Polícia Militar interveio – utilizando até bomba de efeito moral – para evitar confronto de consequências imprevisíveis entre grupo de torcedores mais exaltados. Tal ocorrência demonstra pelo menos um aspecto positivo no triste episódio do Sernamby: a eficiência do policiamento.

A partida final do Capixabão era aguardada com a expectativa de um evento marcante. Não apenas porque definiria o campeão, mas como evento que marcaria o início de nova era no futebol local – qualquer que fosse o vencedor ao final dos 90 minutos. Para o São Mateus, o troféu representaria um fato sem precedente. O primeiro título de sua história por certo incentivaria novos investimentos no futebol da cidade e em todo o Norte do Estado, contribuindo para fortalecer esse esporte.

Já para o Rio Branco, clube de imensa popularidade, voltar a levantar a taça como campeão estadual significaria o reencontro com uma trajetória gloriosa no cenário capixaba. Consumaria um resgate esperado ao longo de 24 anos pela sua fiel torcida.

Pena que as duas agremiações demonstraram não estar devidamente preparadas para realizar uma festa à altura da expectativa geral. Ambos os times saíram derrotados. Decepcionaram. Agora cabe à Justiça desportiva decidir a forma de como se conhecerá o ganhador do Capixabão.

O tribunal definará esse caso – vexatório infelizmente, mas o futebol do Espírito Santo necessita de outras definições, na área administrativa e em termos de investimento, para que possa reencontrar a qualidade perdida. O numeroso público presente ao Sernamby no último sábado, e que se portou de forma entusiástica enquanto houve futebol, mostra o interesse capixaba por esse esporte. Há torcida à espera de espetáculos e campeonatos de alto nível.

AUTÓGRAFO NA PAREDE
EDITORIAL
ESTADO DE MINAS
5/6/2009

Força-tarefa de combate à pichação precisa de apoio total

Merece aplauso a iniciativa de se criar uma força-tarefa para combater um crime que, embora leve, envergonha e desrespeita a cidade: a pichação de paredes, portas, postes e monumentos. O Ministério Público do Estado (MPE), as polícias Militar e Civil e a Guarda Municipal criaram um comitê de combate e enfrentamento à pichação, um desafio do qual, até agora, Belo Horizonte tem saído derrotada. Já passava mesmo da hora de uma reação mais firme e ordenada por parte das autoridades. Gangues de pichadores têm conseguido emporcalhar com seus rabiscos atrevidos e de péssimo gosto boa parte do visual da capital. Há avenidas praticamente inteiras, como a Amazonas, marcadas por esse vandalismo burro, sujo e revestido de falsa rebeldia de grupos de jovens que se julgam heróis de uma causa tão pequena quanto suas mentes: a da agressão pela agressão. Suas manifestações estão por toda parte a expressar de forma rude a sua baixa instrução e sua tosca visão do mundo, com as quais obrigam as pessoas comuns a conviver com o chiqueiro de onde parece terem vindo.

Reportagem do Estado de Minas (3/6, Gerais) apurou que, mesmo não havendo estatística consolidada do número das pichações que ocorrem em BH, é possível se chegar a uma estimativa alarmante. A Guarda Municipal registrou, somente nos primeiros cinco meses deste ano, 195 intervenções em prédios e vias públicas, o que significa 1,3 pichação a cada 24 horas. Considerando que se trata de um universo reduzido às anotações de uma única força policial, pode-se concluir que são dezenas de espaços agredidos todos os dias por um desses vândalos do spray de tinta. Essa falta de informações é, aliás, um dos principais problemas no combate aos pichadores, e, por isso mesmo, está no foco do comitê. Hoje, cada uma dessas autoridades produz dados isolados e diferentes, que, se somados e combinados, poderão facilitar a identificação das gangues e localizar com mais rapidez em que áreas da cidade elas estão atuando.

O trabalho da força-tarefa de combate às pichações está apenas começando e, até agora, só ocorreu uma reunião inicial. Mas as chances de esse grupo conseguir bons resultados é grande. Reunindo esforços e dados, seus membros poderão formular estratégias comuns e ampliar os braços de ação uns dos outros, intervindo com mais eficácia. Na verdade, como revelou a reportagem, boa parte das gangues de pichadores e de outros tipos de vândalos já tem seus rastros na mira dos policiais. E os locais preferidos em que manifestam sua infeliz falta de amor pela cidade, também. Uma boa iniciativa seria a criação de um canal telefônico de três dígitos para receber aquilo que, infelizmente, mais falta: a participação efetiva e permanente da população adulta e responsável. Que as autoridades promovam um mutirão capaz de sensibilizar professores, líderes comunitários e religiosos, artistas e toda a sorte de liderança civil na propagação de uma reação coletiva contra os pichadores. A ideia é envolver milhões de olhos atentos e prontos a denunciar a prática da sujeira. Mais do que ser um alienado, um egoísta, o mau morador que não aderir estará aceitando, como sendo seu, o lamentável autógrafo pichado na parede.

PÁGINA VIRADA
EDITORIAL
CORREIO BRAZILIENSE
5/6/2009

Com a decisão de revogar a resolução de 1962 que suspendia Cuba de participar dos seus encontros, a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviou finalmente para o museu um dos últimos vestígios da Guerra Fria. Não porque faltem reparos a fazer ao regime que Fidel Castro comandou e personalizou por quase 50 anos, até passar a batuta para o irmão Raúl — um “mandato” e uma sucessão que falam por si mesmos sobre a natureza da vida política no país.

De fato, o que a organização continental fez foi livrar-se de uma espécie de fóssil vivo, bizarro na aparência e irrelevante no conteúdo. O texto, intacto ao longo dos 47 anos em que vigorou, não se remete à democracia ou aos direitos humanos, mesmo porque boa parte dos países latino-americanos que o sancionaram mergulhou nas trevas de ditaduras (militares ou civis) nos anos que se seguiram. A própria OEA deu anteparo político a soluções golpistas na Guatemala, em 1954, e na República Dominicana, em 1965. A razão invocada para afastar o regime cubano foi a adoção de um “regime marxista-leninista” apoiado por “potências extracontinentais”.

Virar essa página equivale a reconhecer que a dinastia comunista caribenha não pode mais ser percebida pelo resto do continente como “ameaça”, conforme afirma a resolução. No máximo, tornou-se um anacronismo. No mundo de hoje, passados 20 anos da queda do Muro de Berlim e quase o mesmo tanto da dissolução da União Soviética, os perigos são outros para as Américas. Atendem por nomes como narcotráfico, corrupção, terrorismo — sem falar em males endêmicos como desigualdades, pobreza e doenças propriamente ditas.

Quanto a Cuba, abre-se oportunidade inédita para enquadrar sua rixa de meio século com os Estados Unidos — este o cerne da decisão tomada anteontem em San Pedro Sula, em Honduras — nos parâmetros do diálogo civilizado e respeitoso. O texto aprovado pelos 35 países-membros da OEA tem, de saída, a virtude de ter sido fruto de um consenso, negociado com participação crucial do Brasil. Ademais, a nova resolução convida o regime de Havana a manifestar sua vontade de reintegrar-se ao sistema interamericano estabelecendo um diálogo sobre “os princípios e práticas” da organização. Entre eles está a Carta Democrática de 2001.

A história recente ensina, como exemplifica de maneira eloquente a implosão do bloco comunista soviético, que é pela força interior que se rompem os diques do autoritarismo. Pressões externas podem ser ajuda preciosa, mas jamais poderão plantar as bases de uma autêntica democracia — e aqui o exemplo incontornável é o paradoxo das intervenções militares promovidas pelos EUA no Iraque e Afeganistão. Foi o contágio com a liberdade de informação e outros “vírus” democráticos, e não uma quarentena, que fez caírem de podres o Muro de Berlim e a Cortina de Ferro.

TERMINAL DA DISCÓRDIA
EDITORIAL
DIÁRIO DE CUIABÁ (MT)
5/6/2009

Ao anunciar as primeiras ações do Estado, após a definição de Cuiabá como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014, no começo desta semana, em reunião com o seu secretariado, o governador Blairo Maggi (PR) chamou a atenção para o fato de que um dos grandes desafios para a maioria das cidades escolhidas para sediar os jogos são os aeroportos.

Obviamente, Cuiabá se insere nessa relação, até porque, a exemplo do que ocorre em algumas capitais, o Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, peca, sobretudo, pela falta de capacidade para atender à demanda, conforme estudos de entidades ligadas ao setor.

Muito embora, é bom que se registre, projeções da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) indiquem que o setor prevê investimento de cerca de R$ 6,2 bilhões entre 2009 e 2012, para compensar esse déficit de capacidade. Esse valor é quase três vezes superior ao aplicado entre 2005 a 2008.

No caderno de intenções que entregou, em fevereiro, por ocasião da visita de inspeção do comitê gestor da entidade, o Comitê Pró-Copa em Cuiabá entregou dois projetos visando adequar o Aeroporto Marechal Rondon às exigências da Fifa. Um prevê que as obras de reforma e ampliação sejam concluídas; o outro aponta para a construção de um novo terminal, com a frente voltada para Avenida 31 de março, no bairro Cristo Rei.

O governador Maggi já se manifestou a favor da construção de um novo terminal, a decisão final será da Infraero. A empresa, por sinal, já definiu que a primeira etapa do projeto compreenderá a reforma e a ampliação do setor A, destinado à localização de órgãos públicos, como Polícia Federal e administração aeroportuária. O setor B terá desembarque de vôos domésticos e internacionais. As obras já foram licitadas e estão na fase de contratação. A previsão de investimentos é de R$ 31 milhões.

Nas ações destinadas a preparar Cuiabá – e Mato Grosso, por extensão – para a Copa de 2010, vale salientar, não é conveniente meio-termo entre as entidades envolvidas no processo. No caso específico do aeroporto, é oportuno alertar que o terminal, entre todas as grandes obras de infraestrutura previstas para a Copa, simplesmente vai se constituir numa das principais portas de entrada da capital mato-grossense.

O novo aeroporto também será, doravante, um fator a mais para que se intensifiquem as campanhas para que Cuiabá volte a ser um mercado competitivo no setor de turismo, com opções variadas para viagens internacionais. Infelizmente – e isso vem de longa data -, de internacional mesmo o terminal aéreo da capital tem apenas a sua identificação.

A NORMA E A PRÁTICA
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
5/6/2009

Reunidos nesta semana em Curitiba, vereadores de todo o Paraná lançaram o Código de Ética do Vereador – um documento contendo seis capítulos e 30 artigos que pretende conscientizar os membros das câmaras municipais para a obrigação de comportarem-se com ética e respeito ao decoro parlamentar. Políticos que se desviarem das regras inscritas no Código estarão sujeitos a penas que vão da simples advertência pública até a cassação do mandato. Para que tenha efeito prático, contudo, cada Câmara terá de adotar a legislação proposta mediante à aprovação de um projeto de resolução próprio.
A iniciativa é elogiável, especialmente se for dada ampla publicidade ao seu conteúdo, de modo a que a fiscalização quanto ao seu cumprimento não fique restrita ao âmbito das Câmaras mas permita à população aferir diretamente, com mais rigor e embasamento, o comportamento de seus eleitos. Esta ampla publicidade, convenhamos, constitui-se realmente numa providência necessária, pois pode ser uma barreira ao corporativismo tão comum nas casas legislativas brasileiras.
Há de se observar, contudo, sem que com isso deixemos de louvar o lançamento do Código, que devamos ter grande esperança quanto aos efeitos depurativos a que ele se propõe. Porque comportamento ético não decorre da existência de leis, mas da consciência de cada um quanto ao respeito a valores morais e às responsabilidades, no caso específico dos políticos, com o interesse público. O Código, portanto, a nosso ver, tem mais papel coercitivo do que de formador real da consciência ética de cada qual que a ele será submetido.
A par da visão otimista que mantemos quanto ao seu lançamento coexiste o lado pessimista. E por razões mais do que conhecidas pela opinião pública. Todos sabemos que não é por falta de instrumentos direcionadores da conduta ética e definidores do que seja decoro parlamentar que continuam se multiplicando nos legislativos brasileiros – que, aliás, neste sentido, não são exceção entre os poderes – violações escandalosas aos preceitos mínimos de bom comportamento.
Dentre os mais recentes exemplos, protagonizados no Congresso Nacional, conta-se o caso da “farra das passagens” ao mesmo tempo em que se desenrolava o do “deputado do castelo”. Em ambos, estavam perfeitamente embutidas as transgressões éticas e de decoro. No caso das passagens, não havia dispositivo legal que proibisse objetivamente deputados e senadores a transferirem para terceiros as passagens aéreas de suas cotas. Por isso “pensavam” que podiam fazer delas o que quisessem como se de sua propriedade particular fossem – mas esqueciam-se do dever ético de fazer uso moralmente adequado do dinheiro público representado pelo custo das passagens ao erário.
E veja-se: nos dois casos citados, muito embora Câmara e Senado disponham de regimentos, códigos, corregedores e comissões de ética e decoro, conhecem-se os resultados flagrantemente insatisfatórios quanto à punição dos responsáveis e à restauração da boa ordem ética. Tornaram-se emblemas do corporativismo vigente e aprofundaram ainda desprestígio de que gozam perante a opinião pública.
Louve-se de novo o Código de Ética do Vereador. Ganhariam mais as câmaras e os vereadores se, mesmo sem ele, aderissem sem exceção às práticas sadias de fazer política e de trabalhar pelo bem público. Agindo assim, tornarão inútil o documento, na medida em que as punições que prevê não precisarão ser aplicadas. Mas se necessidade houver, pelo menos teremos instrumento para punir os infratores.

EDUCAÇÃO, O CAMINHO
EDITORIAL
GAZETA DO POVO (PR)
5/6/2009

“Com educação nossas crianças aprendem a escrever um novo presente, sem trabalho infantil”. Esse é o tema da campanha de 2009 de combate ao trabalho infantil, iniciativa encabeçada pelo Fórum Nacional de Proteção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI). O Dia Nacional e Mundial Contra o Trabalho Infantil (12 de junho) conta com o apoio de uma série de entidades, como a Agência de Notícia dos Direitos da Infância (Andi). O tema foi sugerido pelo segundo ano consecutivo, já que é consenso que a educação é uma das estratégias mais importantes e eficazes contra essa violação de direitos. É na faixa de 5 a 15 anos de idade que ocorre a maior concentração de meninos e meninas em situação de trabalho, período da vida em que, por lei, eles devem estar estudando.
As discussões, hoje, estão centradas na obrigatoriedade do ensino médio em todo o país, por meio de emenda constitucional. Alguns números dão a dimensão do problema: 10,8% dos meninos e meninas do Brasil estão em situação de trabalho; no Nordeste, 1,8 milhão de crianças e 98% delas em situação ilegal, não havendo vínculos nem com a lei de aprendizagem. E, porcentualmente, os estados do Sul têm uma média maior que a nacional: 13% de crianças e adolescentes são vítimas do trabalho infantil.

O PLANO CONTRA AS DROGAS
EDITORIAL
ZERO HORA (PR)
5/6/2009

O lançamento realizado ontem pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de um plano emergencial para o atendimento de usuários de álcool e drogas ilícitas, entre as quais o crack, constitui-se num reforço importante a iniciativas que, por todo o país, têm se empenhado em combater uma chaga de dimensões a cada dia mais preocupantes. Essa não é uma questão apenas da alçada de governo. Os esforços da sociedade organizada e de instituições com atuação em diferentes áreas têm se preocupado em aproveitar todas as brechas para combater os efeitos desse mal, que costuma prejudicar particularmente crianças e jovens, muitas vezes de forma irremediável. Ainda assim, o poder público tem a vantagem de dispor de uma estrutura ampla, com recursos e capacidade de atender simultaneamente um universo considerável de pessoas. Se a intenção for posta em prática com eficiência e por um período adequado, o país poderá registrar um avanço importante nesse combate, particularmente nas regiões contempladas diretamente.

Um dos aspectos importantes do plano lançado ontem é o seu caráter intersetorial, envolvendo ministérios como os da Justiça, Cultura, Direitos Humanos e Educação, entre outros. Outra particularidade do programa é a previsão de investimentos de R$ 117,3 milhões em mais de uma centena de cidades, incluindo todas as capitais e oito municípios de fronteira. Concebida dessa forma, a iniciativa poderá contemplar um universo amplo de crianças, adolescentes e jovens mais expostos às consequências do uso de drogas lícitas e ilícitas, permitindo que possam concluir os estudos e se encaminhar mais saudáveis para a vida adulta.

Como reconheceu o ministro da Saúde durante o lançamento ontem, em Brasília, uma preocupação central da campanha será o crack, droga definida como de “efeitos devastadores psicológicos e físicos” e que, num período muito curto, pode até matar. As dimensões atingidas pelo problema no país exigem portanto uma atuação massificada, complementar a iniciativas como a empreendida agora por veículos do Grupo RBS, que no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina decidiram enfrentá-lo com a campanha Crack, Nem Pensar. A mobilização suscitada pela iniciativa desde o início deu uma ideia precisa do quanto a droga aflige não apenas quem se tornou escravo dela, mas também familiares e pessoas próximas, que passaram a se encorajar a partir dos debates e dos relatos intensificados nos meios de comunicação nos últimos dias.

Flagelos como o crack precisam ser combatidos tanto com campanhas de conscientização quanto com estruturas adequadas de apoio de âmbito multidisciplinar como a que o governo federal se propõe a oferecer. Além de alertarem para o problema, as iniciativas da sociedade contribuem de alguma forma para pressionar o poder público a agir com mais eficiência tanto na prevenção quanto na repressão e na manutenção de uma estrutura adequada para o atendimento de dependentes e de familiares.
ESTRATÉGIA
Flagelos como o crack precisam ser combatidos tanto com campanhas de conscientização quanto com estruturas adequadas de apoio de âmbito multidisciplinar como a que o governo federal se propõe a oferecer.

RESPEITO À HISTÓRIA
EDITORIAL
GAZETA DE ALAGOAS
5/6/2009

Marechal Deodoro, a cidade, é um dos sítios históricos mais importantes do Brasil. Ali, na breve capital da província das Alagoas, aconteceram episódios de grande valor para a construção de nosso País, desde os episódios ligados à invasão holandesa até a gênese (casualmente) da República.
Como se não bastassem os arruados e logradouros repletos de história política, o patrimônio sacro é sobejamente valioso, contendo, mesmo desgastados pelo tempo e aviltados pelo descaso, importantes obras móveis e imóveis do barroco brasileiro.
Tão destacado é o patrimônio histórico na primeira capital alagoana que até a antiga cadeia tem lugar garantido na história brasileira, pois ali, ainda rapazote, foi encarcerado o futuro Visconde de Sinimbu. Ainda o menino João, ele acompanhava a mãe, a revolucionária Ana Lins, detida por seu apoio à revolução fracassada de 1817, pois a autoridade daquela senhora desaconselhava deixá-la sozinha na cela. Duas décadas depois, o meninote era um jovem político e, em 1839, assumia provisoriamente o governo alagoano e sacramentava a transferência da capital para Maceió. E por conta dessa transferência, toda a família Fonseca, derrotada na guerra contra a mudança da sede do governo, teve de migrar para o Rio de Janeiro, donde seguiu carreira Deodoro, mais tarde o Proclamador.
Muitas histórias tem endereço fixo, imutável, na velha Marechal Deodoro. Muitos imóveis já se perderam, deformados por reformas ou simplesmente demolidos. As igrejas, em sua imponência e esmero arquitetônico, e suas obras de arte sacra, são os principais sobreviventes que ainda poderm ser resgatados pela via das restaurações. E é isso que se tenta fazer.
Com razão, o arcebispo e o prefeito da cidade cobram respostas objetivas para a interrupção das obras e a imediata retomada dos trabalhos. É indesculpável a continuidade do descaso.

ASSÉDIO DAS DROGAS
EDITORIAL
JORNAL DO COMMERCIO (PE)
5/6/2009

Além de o consumo de pastéis e outros tipos de fritura, doces e mais itens de alto teor calórico, por crianças e adolescentes de nossas escolas públicas e privadas, prejudicar a saúde delas, há um agravante nesse mau hábito alimentar. Barracas e outros pontos de venda se estabelecem em suas imediações e, fora essas guloseimas, põem ao alcance dos menores bebidas alcoólicas e drogas proibidas. Já tivemos ocasião de tratar desse grave problema, mas, como nada foi feito por quem tem autoridade para fazê-lo, voltamos ao assunto. O Recife é, segundo dados do Ministério da Saúde, uma das capitais com maior percentagem de casos de obesidade no País, 40,5% da população com excesso de peso até o último dado disponível. O sobrepeso acarreta males como diabetes e doenças cardiovasculares.
A oferta de guloseimas calóricas não se restringe ao entorno das escolas. Na maioria delas, os dirigentes das cantinas não se preocupam com a saúde de seus jovens consumidores e lhes oferecem itens altamente calóricos, fora o que muitos levam de casa para comer na hora da merenda. O que traz outra observação importante: além de um assessoramento nutricional nas escolas, os pais são peça fundamental na educação alimentar dos filhos. Guloseimas certamente não podem ser consumidas o dia todo e todo dia. Acrescente-se ao descuido de pais e responsáveis por escolas o assédio das drogas e estará completo um cenário preocupante e altamente maléfico para os menores em formação.
A reportagem do Jornal do Commercio esteve, por exemplo, na Rua Barão de Souza Leão, em Boa Viagem, onde se situam dois grandes colégios estaduais, o Santos Dumont e o Brigadeiro Eduardo Gomes, e viu um flanelinha pitando um cigarro de maconha na calçada em frente aos estabelecimentos, diante dos estudantes. Situação que não é fato isolado. O consumo de drogas e a venda de produtos ilegais ou impróprios para os menores estão transformando os arredores próximos de nossas escolas em um ambiente nada educativo e nocivo à saúde e segurança dos estudantes. Moradores da vizinhança das referidas escolas contam que veem muitos menores por ali cheirando cola ou tomando bebida alcoólica. Quando passam policiais, os mandam sair dali. Daí a pouco, todo mundo volta.
Autoridades da área de educação reconhecem que 26 escolas convivem com desordens causadas por bares no seu entorno. O Ministério Público Estadual requereu aos governos do Estado e da cidade do Recife a retirada de tais estabelecimentos em 30 dias. Enquanto os poderes públicos não agem, compete aos pais e às escolas informar e esclarecer os menores, falando sobre o que é droga e seus malefícios físicos e psicológicos. Mas a sociedade precisa pressionar, cobrar. O que não pode continuar é esse cerco às escolas e o mau exemplo causado por essas invasões do entorno escolar
Há exemplos de ambientes saudáveis nas imediações de escolas, que devem ser seguidos e generalizados. A Escola Estadual Tabajara, em Olinda, tem uma quadra destinada a recreio e educação física dos estudantes. Até há pouco tempo, eles não podiam utilizá-la por ter sido apropriada por usuários e traficantes e drogas. Depois de uma reforma e da integração com a Patrulha Escolar da PMPE, a situação mudou completamente. Os patrulheiros formam alunos para multiplicar informações sobre drogas e comportamentos de risco, sendo essa escola uma das primeiras a desenvolver o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência, conduzido por aquela patrulha.
Há também escolas trabalhando no sentido de combater o sobrepeso de seus alunos. Essas constatações de melhoras são um bom indício do crescente interesse da sociedade, e dos próprios menores, em encontrar saídas para os problemas que afligem o nosso País. A população cobra soluções e elas vão aparecendo. Há um projeto de lei na Câmara Municipal, da vereadora Aline Mariano, que pretende por fim à farra de quitutes hipercalóricos determinando que a merenda escolar só tenha frutas, sucos e outros produtos saudáveis.

RISCO DO CALAZAR
EDITORIAL
DIÁRIO DO NORDESTE (CE)
5/6/2009

Criar animais domésticos tem sido uma das formas de terapia recomendada para pessoas idosas com famílias reduzidas. De outra forma, as crianças representam parte substancial do público-alvo de cães e gatos num mercado de animais domésticos cada dia mais intenso. O terceiro segmento é formado por pessoas de baixa renda, aderentes dessa prática, mas sem condições materiais para mantê-los em padrões aceitáveis.

Esses contrastes comprometem a vigilância sanitária animal, em Fortaleza, onde a população canina é de 200 mil animais, 40 mil dos quais criados soltos nas ruas. As estatísticas de enfermidades geradas a partir desses animais são preocupantes, pelo risco de transmissão e morte de humanos, como vem ocorrendo: 15 óbitos em 2008 e dois óbitos até abril.

Na década passada, a situação já intranquilizava as autoridades sanitárias, diante do elevado contingente de animais sem dono. Em 1993, o então secretário Municipal de Saúde, Raimundo Bezerra, conduziu um amplo estudo sobre as enfermidades dos animais e os riscos para a população, delineando, então, um plano preventivo feito em cima do diagnóstico elaborado. Sua morte prematura postergou as soluções preconizadas.

A presente situação da saúde animal é mais grave em relação àquele período, por conta do aumento da população canina e felina, não atendida pelas campanhas de vacinação em massa. O Ministério da Saúde patrocina, anualmente, dois eventos de vacinação coletiva, executados pelas Secretarias Municipais de Saúde. A adesão do público é expressiva. Os animais sem dono, porém, não são alcançados por essas medidas profiláticas.

A leishmaniose visceral (calazar), tanto no passado, como agora, representa risco maior para as populações expostas, humana e animal, sem que haja conscientização do público para ajudar a recolher os animais doentes. A leishmânia é um gênero de protozoário com ciclo vital dividido entre dois hospedeiros: um é um vertebrado; o outro é o inseto vetor que reúne parasitas dos animais domésticos e dos homens. O cão é o depositário preferencial do mosquito transmissor da doença.

O Centro de Controle de Zoonoses é a única unidade pública voltada para as doenças animais na Capital, limitado pela precariedade de recursos técnicos e de pessoal diante dos problemas exibidos pela população animal, especialmente os cães e os gatos. Resultado: em 2008, foram registrados, em Fortaleza, 510 casos de calazar em humanos, isso apenas englobando os notificados. Em 2007, haviam sido 181 confirmações. Em 2006, 233. Em 2007, o calazar provocou a eutanásia em 4.553 animais.

Agora, quando a enfermidade retoma o ciclo de vítimas entre os humanos, é tempo de se promover amplo movimento de sanidade animal, mobilizando os cursos superiores de veterinária, as clínicas particulares e os criadores de animais, especialmente aqueles pouco afeitos aos cuidados sanitários, em socorro do Centro de Zoonoses. Do contrário, o risco de morte permanecerá com probabilidade crescente.

ESTAMOS FAZENDO A NOSSA PARTE
EDITORIAL
A CRÍTICA (AM)

Hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente, vale a pena pararmos um instante para fazermos uma reflexão sobre como estamos cuidando de “nossa casa”. Recentemente, tivemos duas provas de que a natureza está sofrendo, e muito, as consequências de nossos atos. Em 2005, o mundo ficou perplexo com a seca que castigou o Amazonas. Imagens de verdadeiros desertos, onde antes havia “um mar de rio”, promoveram um intenso debate no meio científico. Alguns especialistas apontaram possíveis responsáveis pelo fenômeno, enquanto outros afirmaram que a forte estiagem é algo natural, cíclico em nosso planeta.

Este ano, estamos vivenciando uma das maiores cheias já registradas em nossa história. Novamente, o mundo fica perplexo com as imagens que mostram a imensidão de água que cobre povoados inteiros, devastando plantações e obrigando populações ribeirinhas a deixarem suas terras, até então, nunca antes alagadas.

Mais uma vez, a comunidade científica entra no conflito das idéias. Enquanto alguns falam da queima de gases poluentes, que causam o efeito estufa, que contribue para o aquecimento global, que provoca o degelo nas calotas polares, que aumenta o nível das águas oceânicas, etc, etc, etc, outros mantêm o discurso de que se trata, apenas, de um fenômeno cíclico em nosso planeta.

Diante do embate entre autoridades no assunto, vemos o trabalho pioneiro do Governo do Estado que apresenta uma “proposta verde” de desenvolvimento sustentável para a região. A conservação de 98% da floresta tropical, o projeto de captação dos créditos de carbono, a criação de Reservas de Desenvolvimento Sustentável, são algumas das iniciativas que vêm chamando a atenção da comunidade internacional.

São projetos de longo prazo, mas que já repercutem hoje, tanto que a preservação ambiental foi a principal bandeira levantada pelo Governo do Estado na batalha pelo direito de sediar jogos da Copa do Mundo de 2014 da Fifa.

No momento em que grandes potências negam-se a assinar o Tratado de Kioto, nosso Estado surge como exemplo de comprometimento com a preservação da vida na terra. Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, temos apenas uma certeza: o Amazonas está fazendo a sua parte.