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1.
Desde sua criação o PCB desenvolveu diretrizes
para um trabalho feminino, dirigido à luta contra a
carestia, pela democracia, pela paz e pela cidadania feminina.
No entanto, com a aprovação da Resolução
"A Condição da Mulher e a Luta para transformá-la:
Visão e Política do PCB", em maio de 1979,
instaura-se uma nova fase no PCB/PPS. A resolução,
aprovada pelo Comitê Central no exílio, abre
a discussão, em novas bases, sobre a situação
das mulheres, as relações entre homens e mulheres
e as representações do feminino na sociedade.
Sintonizada com os movimentos feministas dos países
mais avançados afirma uma perspectiva global, abordando
e conectando os espaços público, privado e íntimo.
Em abril de 1982, esta resolução é atualizada
pelo Coletivo Nacional dos Dirigentes Comunistas, aprofundando
a perspectiva feminista e democrática, e realizando
uma autocrítica partidária sobre uma visão
instrumentalista da mulher e de suas organizações.
Com a iniciativa, o partido se coloca como pioneiro nestas
reflexões e diretrizes, destacando-se, em todo o processo,
Zuleika Alambert, única companheira no então
Comitê Central.
2. Após a legalização do PCB, é
criada uma Comissão Nacional de Mulheres, em 1987,
para organizar e articular o trabalho das militantes em defesa
da cidadania das mulheres uma vez que inúmeras companheiras
estavam se engajando em organizações feministas
autônomas, nos Conselhos dos Direitos da Mulher (nacional,
estadual e municipal), em departamentos femininos de sindicados
e de associações comunitárias. Em 1989,
esta comissão organizou um importante Seminário
Nacional de Políticas Públicas para as Mulheres,
em Brasília, que deu origem à proposta "Política
para a Mulher" da Plataforma de Governo das candidaturas
de Roberto Freire e Sérgio Arouca, à Presidência
e Vice-presidência da República, no mesmo ano.
Destaca-se o caráter atual e avançado desta
política, sintonizada com as reivindicações
do movimento feminista e de mulheres do país e do mundo.
3. Com a criação do PPS, no X Congresso, em
1992, e a partir do trabalho acumulado, algumas companheiras
tomam a iniciativa de organizar uma articulação/rede
feminista na 1a Conferência Nacional do PPS, realizada
em 1993. Em maio de 1996, é apresentada para a discussão
congressual (XI Congresso Nacional do PPS), a tese "Quotas
para as mulheres na política: a busca da eqüidade",
publicada no Jornal do Partido "Porta Voz", edição
extra n. 3. Com este texto, abre-se a discussão sobre
medidas afirmativas para as mulheres em âmbito partidário,
que terá uma longa trajetória até a sua
validação. Em 1997, o Diretório Nacional
aprova a Resolução Política apoiando
a legislação federal sobre indicação
de, no mínimo, 30% das vagas para preenchimento com
candidaturas de ambos os sexos nas eleições
proporcionais e assumindo essa meta para a composição
das instâncias de direção partidária.
Em 1998, no XII Congresso, os novos Estatutos do PPS contemplaram
a proposição de preenchimento de uma cota mínima
de trinta por cento de cada sexo, na composição
de suas instâncias de direção, para vigorar
a partir do próximo Congresso.
4. Em janeiro de 2000, em Reunião do Diretório
Nacional, é constituída uma Assessoria Feminista
do PPS, de âmbito nacional, visando basicamente a articulação
e o empoderamento das mulheres, e a difusão da perspectiva
feminista, dentro e fora do partido. Desta articulação
política consolida-se um grupo de trabalho, Grupo de
Assessoria Feminista - GAF, que vem assumindo algumas atividades:
o fornecimento de subsídios para a editoração
da Página "Mulheres" no Jornal 23; a organização
da Rede Feminista no partido; o mapeamento das lideranças
femininas no partido e na sociedade (dirigentes, parlamentares,
prefeitas, ativistas militantes do PPS); o incentivo à
organização de grupos de mulheres e a busca
de comunicação com grupos e iniciativas constituídas
existentes em vários Estados, a exemplo do Distrito
Federal, Goiás, Minas Gerais, Pará, Rio Grande
do Sul, Paraná, Pernambuco, Mato Grosso, Amazonas.
Tais iniciativas vêm se estruturando a partir de suas
próprias discussões e decisões, em secretarias,
núcleos e coordenações de mulheres. Em
reunião nacional d@s eleit@s, no mesmo ano, o Grupo
de Assessoria Feminista e inúmeras companheiras presentes
apresentaram resolução, acolhida, de indicação
para que @s prefeit@s compusessem suas equipes com, no mínimo,
30% de mulheres.
5. Em reunião do Diretório Nacional em 2001
foi aprovada resolução dispondo que todas as
mesas de discussão preparatórias e as do próprio
XIII Congresso fossem formadas por, pelo menos, uma companheira
ou convidada. Em novembro do mesmo ano, o Grupo de Assessoria
Feminista promove uma Reunião Nacional de Mulheres
e Lideranças Feministas do PPS, em Brasília,
visando desencadear a discussão da Pauta sobre Igualdade
de Gênero e Cidadania das Mulheres como subsídio
para as candidaturas do PPS às Eleições
de 2002. A pauta abarca propostas sobre poder, direitos civis
e integridade pessoal, educação, saúde/sexualidade,
violência de gênero, e trabalho/geração
de renda, dando continuidade aos avanços acumulados
no Partido, com a Resolução sobre a Condição
da Mulher de 79/82, a Política para a Mulher da Plataforma
de Governo para as Eleições Presidenciais de
89 e o apoio à Política de Ação
Afirmativa para as mulheres na política, a partir de
97. Esta pauta vem sendo divulgada e discutida pelas companheiras
e foi encaminhada como contribuição para o Programa
de Governo de Ciro Gomes à Presidência da República.
Além desta, recomenda-se a tod@s @s candidat@s que
considerem em suas campanhas a Plataforma Política
Feminista, aprovada na Conferência Nacional de Mulheres
Brasileiras, realizada em junho de 2002, em Brasília.
6. Em abril de 2002, no XIII Congresso, o PPS cumpre o dispositivo
estatutário de composição do Diretório
Nacional com no mínimo 30% para homens e para mulheres.
Este encaminhamento, no entanto, sofreu tentativa de retrocesso,
sendo apresentado um projeto de revisão dos estatutos
para discussão com alteração deste dispositivo,
o que exigiu, particularmente das mulheres sensíveis
à causa, uma mobilização e um desgaste
para fazer valer a conquista de quatro anos atrás.
Essas companheiras tiveram o apoio de inúmeros companheiros
para a proposta de manutenção das cotas por
sexo, tanto no Grupo de Discussão dos Estatutos, como
na Plenária Final. A implementação das
cotas por sexo na política, enquanto uma das medidas
afirmativas para promover a inclusão das mulheres e
a democratização da vida política e partidária
é fundamental. O seu acolhimento pelo PPS é
motivo de grande orgulho e nos coloca em sintonia com os poucos
partidos que têm semelhantes dispositivos no Brasil
(PT, PDT e PV), com alguns partidos de esquerda na Europa,
com a Internacional Socialista (que exige para filiação
a observância das cotas para mulheres), e com organizações
da sociedade civil, de representação de trabalhadores
e de estudantes (CUT, CGT, Força Sindical, SDS, CONTAG,
UNE, UBES). Em maio de 2002, quando da primeira reunião
do novo Diretório Nacional, responsável pela
eleição da nova Executiva Nacional, a questão
se repete demandando gestões para a observação
dos compromissos assumidos em relação à
visibilidade e promoção da participação
política das companheiras. Todas as companheiras eleitas
para integrar o Diretório Nacional bem como a Executiva
são lideranças políticas íntegras,
representativas e qualificadas para assumirem suas funções.
7. Consideramos as cotas por sexo na política uma
medida afirmativa que merece ser articulada com outras, a
exemplo, de cursos de capacitação política
para mulheres, de apoio a candidaturas femininas e de valorização
e prestígio das mulheres eleitas. Paralelamente, fundamental
é a realização de capacitação
em gênero para militantes, visando a compreensão
da necessidade de superação das opressões
e discriminações de gênero e o entendimento
de que esta é uma questão de cidadania, de direitos
humanos, de democracia e que retorna para toda a sociedade
à medida que se constrói uma humanidade justa
e democrática.
8. Entendemos que as militantes feministas do PPS não
pretendem representar todas as mulheres do partido, e sim
um ideário. Assumimos a defesa de um projeto político
feminista - que propõe a mudança da situação
de exclusão e de desigualdade vivenciada pelas mulheres
na sociedade; a mudança das relações
de dominação entre homens e mulheres; e a mudança
das representações opressoras do feminino e
do masculino. Estas bandeiras se articulam com a luta pelo
fim de todas as desigualdades, exclusões e discriminações
sociais. Atuamos no sentido de que o nosso partido acolha
e aprofunde este projeto. Sabemos que as possibilidades de
ação política são plurais e que
o gosto e a livre escolha levam as companheiras a trabalhos
políticos de diferentes tipos: comunitário,
sindical, ecológico, feminista, de combate ao racismo,
pela paz e solidariedade entre os povos, entre outros. Por
outro lado, sabemos que resistências e preconceitos,
de homens e de mulheres, contra os feminismos e as feministas
não se acabam por decreto ou imposições.
Assim, cabe promover o diálogo e uma convivência
respeitosa. De resto, o PPS também é um pequeno
partido e nem por isso se torna "menor". Pelo contrário,
tem contribuído substantivamente para o aprofundamento
da democracia e a superação das desigualdades
em nosso país. É neste rumo que nós,
feministas, estamos trabalhando.
Brasília, junho/2002
Grupo de Assessoria Feminista
Almira Rodrigues
Elizabete Barreiros
Iáris Ramalho Cortez
Márgara Cunha
Raquel Colaço
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