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Cora Rónai: Catástrofe em nome de Deus

“Uma educação baseada em princípios é “uma educação baseada na palavra de Deus”, explica a senhora no vídeo. “Onde a geografia, onde a história, a matemática vai ser vista sobre a ótica de Deus, numa cosmo visão cristã. Então o aluno vai aprender que o autor da história é Deus. O realizador da geografia é Deus. Deus fez as planícies, Deus fez os relevos, Deus fez o clima. O maior matemático foi Deus. Ele começa a palavra lá em Gênesis, no primeiro dia, no segundo dia, no terceiro dia… Então para os alunos, por exemplo os menores, de primeiro ano, todo o contato que eles têm com a matemática já é no Livro de Gênesis. Então é toda a disciplina do currículo escolar organizada sobre a ótica das escrituras”.

A senhora que diz essas coisas, com esse português, com essas preposições e com essa concordância, é uma certa Iolene Lima, de quem, até outro dia, e por todos os motivos, ninguém tinha ouvido falar. Há seis dias, porém, Iolene foi indicada à Secretaria Executiva do Ministério da Educação por Ricardo Vélez Rodriguez, e desde então muita gente perdeu o sono —a começar pelo próprio ministro, que com certeza já não dorme bem há umas duas semanas, e que, segundo o noticiário, corre agora o risco adicional devera sua nomeada rejeitada pela Casa Civil.

Não encontro palavras publicáveis para descrever minha reação ao vídeo da senhora Iolene. Talvez porque eu venha de um tempo em que o Ministério da Educação era tido como um ente superlativo, habitado por pessoas que tinham intimidade com o idioma e com a educação; ou talvez porque venha de um tempo em que o estado pelo menos se pretendia laico.

Também pode ser que o meu assombro venha do fato de estarmos em 2019, e de eu ainda acreditar que 2019 vem depois de 2018, 2017, 2016… ou 1950, 1837 ou 1340. As declarações de Iolene seriam pitorescas se não fossem catastróficas, e se não representassem tão vivamente o fundamentalismo religioso e a abissal ignorância que se vê em tantos setores e níveis do governo. A confirmação ou não da sua nomeação é indiferente, até porque as eventuais objeções feitas ao seu nome não foram motivadas pelo seu discurso, mas sim por ser protegida do já defenestrado Ricardo Roquetti.

O verdadeiro escândalo não é que Iolene seja guindada à Secretaria Executiva do Ministério da Educação. O verdadeiro escândalo é que trabalhe lá, e isso ela já faz desde janeiro, como diretora de capacitação técnica, pedagógica e de gestão de profissionais na Secretaria de Educação Básica. O verdadeiro escândalo é ter um ministro que comunga das suas ideias, e que a considera apta a orientar educadores.

A essa altura, e há quantos anos, quantas Iolenes já não ocupam cargos por toda a parte, por todos os ministérios, voando nas asas da bancada evangélica? Quantas Iolenes já não estão espalhadas pelo país, a começar pelo Rio de Marcello Crivella?

Pessoas não acontecem ao lado das outras por acaso, não aparecem do nada em cargos importantes. Iolenes se cercam de outras Iolenes (ou de Damares, ou de Ernestos Araújos).

Vélez é Iolene: essa é a desgraça do nosso futuro. (O Globo – 21/03/2019)

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