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Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (14/03/2019)

MANCHETES

O Globo

O horror na escola
Imagem de Bolsonaro leva a troca de embaixadores
Suspeito faz buscas sobre Marielle e arma do crime
Estados Unidos retiram de operação Boeing 737 Max

O Estado de S. Paulo

15 minutos de terror na escola
Por Previdência, Guedes adia PEC do Orçamento
Bolsonaro trocará diplomatas para melhorar imagem
Governo trava projeto ambiental que tem ONG
Após prisões, delagado se afasta do caso Marielle

Folha de S. Paulo

Ex-alunos invadem escola e matam estudantes e funcionários em Suzano
Bolsonaro dorme com arma do lado da cama no Alvorada
Senadores aprovam adesão automática a cadastro positivo
Previdência deve ter transição mais suave para militar
Um ano após morte, Marielle inspira projetos de jovens
CBF realizou concorrência com vencedor já escolhido
Parlamento britânico veta qualquer brexit sem acordo com a UE

EDITORIAIS

O Globo

Criminalidade e política convivem no Rio de Janeiro

Ex-policiais bandidos são parte de longa história que passa pela leniência e pela falta de ética

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, de repercussão mundial, faz emergir um cenário de tragédia social e política, com ingredientes já conhecidos: ex-policiais, alguns adestrados em tropas de elite constituídas para melhor defender a sociedade, que lhes paga o soldo, se misturam a quadrilhas organizadas e eles mesmos passam a agir como sicários de aluguel. E no pano de fundo transcorre outro tipo de desagregação moral, a da representação política, já infiltrada por representantes deste mundo outrora obscuro, hoje bem claro. Não são enfermidades separadas.

Em tempos folclóricos, policiais achacavam motoristas relapsos. Os mais graduados em delinquências passaram a proteger banqueiros de bicho, a trabalhar na segurança pessoal deles e de seus pontos, modernizados pela jogatina eletrônica. Já houve esquadrão da morte, para “limpar a sociedade”. Mas hoje matar é negócio para mão de obra adestrada pelo Estado, com impostos da população.

Há tempos aponta-se para a “banda podre da polícia”, sem que governantes decidam enfrentá-la como é preciso. Alegam que uma legislação permissiva impede punições à altura dos crimes dos policiais bandidos. Mas a falta de empenho é visível. A esperança da vez está na legislação anti-crime organizado proposta pelo ministro Sergio Moro ao Congresso.

Mas o problema do Rio parece ser mais profundo. Os diversos ciclos de políticos populistas no poder (de Brizola aos Garotinho, passando por Benedita) em nada ajudaram no combate real ao crime, muito menos para conter a degradação urbana do Rio e de seu entorno. Ao contrário.

A partir da década de 80 do século passado, áreas começaram a ser convertidas em santuários de quadrilhas (traficantes etc.), e, nos últimos anos, ocupadas por uma outra séria ameaça ao estado democrático de direito, o miliciano. Bisneto do policial do achaque a motoristas, o miliciano, agora convertido em grileiro urbano, “empresário” imobiliário, tem ramificações nos diversos tráficos, inclusive no de armas, como indica a apreensão de 117 fuzis do ex-PM Ronnie Lessa, acusado de ser quem puxou o gatilho contra Marielle e Anderson, da janela de um carro dirigido por Élcio Vieira de Queiroz, também egresso da polícia.

No outro lado da cena, parte do que seria a elite política do estado está presa. O ex-governador Sérgio Cabral e a cúpula da Alerj (Picciani, em casa, e Paulo Melo e Albertassi, na cadeia). Operaram um esquema provavelmente bilionário de corrupção. Não iriam mesmo se preocupar seriamente com a degradação das instituições policiais e outras. Até contribuíram para isso.

Não há solução instantânea, por homens fortes e providenciais. A via principal é a conscientização de cariocas e fluminenses de que a saída é política, para encerrar o longo ciclo de decadência do estado. Sem prejuízo de ações específicas, com apoio da União para conter e reverter esta debacle, que na verdade ameaça todos os brasileiros. Serpentes já deixaram os ovos.

O Globo

Tragédia em Suzano põe em xeque flexibilização do acesso a armas

Massacre em escola estadual na Grande São Paulo deixa dez mortos e nove feridos

Além de chocar o país, o massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, que deixou dez mortos e nove feridos ontem de manhã, põe em xeque a facilitação do acesso a armas, num momento em que o governo Jair Bolsonaro desidrata o já anêmico Estatuto do Desarmamento.

Em janeiro, um dos primeiros decretos do novo governo flexibilizou a posse de armas, reiterando promessa de campanha de Bolsonaro e atendendo a uma reivindicação da bancada da bala. A intenção é afrouxar também o controle sobre o porte, matéria que, no entanto, tem de passar pelo Congresso. Hoje, para obtê-lo, é preciso demonstrar a efetiva necessidade pelo exercício profissional (como no caso das Forças Armadas, polícias e agentes de segurança) ou risco à integridade física.

Ainda há questões a serem respondidas na tragédia de Suzano. Por enquanto, sabe-se que dois ex-alunos, Luiz Henrique Castro, de 25 anos, e Guilherme Tauci Monteiro, de 17, invadiram a escola e mataram duas funcionárias e cinco estudantes. Com achegada da polícia, os dois se suicidaram. Antes, eles tinham passado numa locadora de automóveis, onde balearam o proprietário e roubaram um carro. A dupla portava um revólver 38 mm com numeração raspada, um machado e uma besta (arma antiga, em forma de arco).

O ataque na Raul Brasil repete um modelo recorrente nos Estados Unidos, onde, segundo reportagem da GloboNews, em média ocorrem dez incidentes a tiros em escolas a cada ano. Mas não chega a ser fato inédito no Brasil. Em 2011, Wellington Menezes invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio, matou a tiros 12 crianças e feriu dez. Em 2017, em Goiânia, um aluno matou dois colegas e feriu quatro no Colégio Goyases. Usou uma pistola .40 que pertencia à mãe, policial militar.

Em São Paulo, em novembro de 1999, um jovem atirou contra espectadores que assistiam ao filme “O clube da luta” num cinema do Shopping Morumbi. De posse de uma submetralhadora, matou três e feriu quatro. Em dezembro do ano passado, Euler Grandolpho invadiu a Catedral de Campinas e disparou contra as pessoas que assistiam à missa, matando cinco e ferindo três. O atirador se suicidou.

Esses crimes, em geral, têm motivações distintas, e a questão não passa só pela segurança, ela é multidisciplinar. Num mundo globalizado, não é raro que episódios externos sirvam de inspiração para esses atiradores. Porém, o que se pode dizer é que, sem armas de fogo, muitas dessas tragédias não seriam consumadas. Portanto, cabe ao Congresso se debruçar sobre o assunto, de modo a impedir o avanço da flexibilização. E, à sociedade, refletir se é esse modelo trágico que ela quer para o país

O Estado de S. Paulo

Diplomacia medíocre

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, acredita que o Brasil atrasou seu desenvolvimento ao procurar fazer negócios com a China, a Europa e a América Latina, e abandonando os Estados Unidos como principal parceiro comercial. A declaração, dada em aula magna no Instituto Rio Branco, onde estudam aspirantes à carreira diplomática, mostra a dimensão da pretendida guinada que o presidente Jair Bolsonaro pretende imprimir à política externa do País. “Houve apostas completamente equivocadas a partir dos anos 1950 e, mais ainda, nos anos 1970, com o terceiro- mundismo, o antiamericanismo e o antiocidentalismo, com uma aposta em parceiros que não foram capazes de nos ajudar no nosso desenvolvimento”, disse o chanceler Araújo.

Segundo o ministro, o Brasil teve o seu melhor período econômico “quando seu principal parceiro eram os Estados Unidos” – e, em sua visão, a atual estagnação do Brasil coincide com o fato de o grande parceiro comercial do País ser agora a China. É com base nesses argumentos que o chanceler Araújo pretende justificar a conhecida intenção do atual governo de se aproximar dos Estados Unidos. Não seria uma aproximação qualquer. A julgar pelo ânimo demonstrado até aqui pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu ministro das Relações Exteriores, haverá total simbiose entre o Brasil e os Estados Unidos nos próximos anos, em detrimento das relações com outros parceiros e seja qual for a pauta. Tudo isso sob a justificativa de uma suposta afinidade entre os povos brasileiro e norte-americano no que diz respeito a valores religiosos e morais. Como se vê, não é uma estratégia; é uma mensagem messiânica. A nova política externa brasileira, conforme relatado pelo chanceler Araújo, mistura interesses comerciais com motivações de caráter explicitamente religioso.

É como se o Brasil estivesse destinado pela “providência divina” a se vincular aos Estados Unidos, pois esta seria a condição indispensável para seu desenvolvimento. O ministro Araújo até admite que o Brasil continue a fazer negócios com a China, mas deixou claro que a política externa brasileira não será mais pautada exclusivamente por interesses comerciais. “Queremos vender soja e minério de ferro, mas não vamos vender nossa alma. Querem reduzir nossa política externa a uma política comercial, e isso não vai acontecer”, disse o chanceler. A abordagem do ministro Araújo tem diversos problemas. Fiquemos no mais óbvio: o Brasil, ao contrário do que disse o chanceler, deveria ampliar, e não reduzir, suas parcerias comerciais.

O País é reconhecidamente um dos mais fechados do mundo, com participação pífia no comércio internacional, considerando-se seu imenso potencial. Não fosse o dinamismo do setor agropecuário, a presença do Brasil na cadeia comercial global mal seria notada. Esse quadro é resultado da baixa competitividade dos produtos brasileiros e das barreiras à modernização do setor produtivo, que se sustenta em parte em inexplicáveis benefícios fiscais. Ademais, o Brasil passou os últimos tempos, especialmente durante o mandarinato lulopetista, desprezando acordos comerciais com os grandes mercados, preferindo, por razões ideológicas, aproximar-se de países periféricos.

Tem razão o chanceler Araújo quando denuncia o atraso que representou a diplomacia lulopetista, mas o atual governo erra completamente quando pretende substituir aquela ideologia por outra, de sentido oposto, mas com semelhante perniciosidade. Esquece, também, que entre o governo ideologizado de Dilma Rousseff e o governo ideologizado de Jair Bolsonaro passaram- se dois anos e meio do governo sensato de Michel Temer. A aula magna do chanceler Araújo foi, assim, muito didática a respeito da “visão de mundo” de Bolsonaro. Mas ninguém melhor do que o próprio presidente para externar suas preocupações acerca das relações exteriores do Brasil.

Ao anunciar que pretende trocar 15 embaixadores, ele se queixou de que sua imagem no exterior está “muito ruim” e deu a entender que é tarefa dos diplomatas melhorá-la. Nem mesmo os melhores quadros do Itamaraty serão capazes de tal façanha, a julgar pela incapacidade de Bolsonaro de se comportar como presidente da República e de seu chanceler de entender que diplomacia não pode se confundir com religião.

O Estado de S. Paulo

Indústria à espera de um sinal

Mais um forte sinal de alerta acaba de soar, com o primeiro e inquietante balanço oficial da atividade da indústria em janeiro. A produção industrial, a principal fonte de empregos decentes, foi 0,8% menor que a do mês anterior. Essa nova queda mais que anulou a tímida recuperação ensaiada em dezembro, quando o volume produzido cresceu 0,2%, na série com desconto dos efeitos sazonais. Nem a posse do governo, saudada com manifestações de otimismo pelo empresariado, foi suficiente, portanto, para impulsionar o setor e mudar sua trajetória.

A tendência de queda marcou a segunda metade de 2018, com taxas negativas em quatro dos seis meses. O volume produzido em janeiro foi 2,6% inferior ao de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os novos números, oficiais, contrastam com sinais positivos apresentados em recente relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo esse documento, em janeiro a indústria de transformação apresentou aumento nas horas de trabalho na produção, no emprego e no uso da capacidade instalada. Diferenças de cobertura e de metodologia podem explicar pelo menos parcialmente as divergências entre as duas pesquisas, uma levemente animadora, outra amplamente negativa.

De toda forma, o balanço do IBGE mostra de forma clara a fraqueza predominante nos dois grandes subconjuntos, a indústria de transformação e a extrativa (esta com recuo mensal de 1% em janeiro). O quadro é especialmente ruim quando se consideram as categorias definidas pela finalidade de seus produtos. Em janeiro a produção caiu em três dos quatro grandes grupos. Houve queda mensal de 3% no segmento de bens de capital, de 0,1% no de bens intermediários e de 0,4% no de bens de consumo semiduráveis e não duráveis. Só se anotou expansão no grupo de bens de consumo duráveis, mas o resultado (0,5%) ficou muito longe de reverter a perda de 5,2% acumulada no bimestre final de 2018. Nos quatro grandes segmentos a produção foi menor que a de janeiro de 2018.

Nesse confronto, houve redução de 7,7% no volume produzido de bens de capital, 1,3% no de bens intermediários, 5,5% no de bens de consumo duráveis e 2,9% no de bens de consumo semi e não duráveis. A produção total de bens de consumo de todos os tipos foi 3,4% inferior à de um ano antes, embora a variação acumulada em 12 meses tenha continuado levemente positiva (+0,8%). O financiamento explica em boa parte o desempenho ainda positivo do setor de bens de consumo duráveis, como automóveis. Ressalvado esse ponto, o comportamento dos consumidores continua geralmente muito cauteloso e muito restrito. Isso é facilmente atribuível ao desemprego ainda elevado (cerca de 12% da força de trabalho, taxa equivalente a mais de 12 milhões de trabalhadores) e à insegurança quanto à evolução da atividade.

Consumidores têm mostrado algum otimismo, em várias pesquisas, mas a expectativa de tempos melhores continuou insuficiente, em janeiro, para estimular maiores despesas. Além disso, o endividamento continua elevado e quem conseguiu reorganizar a vida financeira deve estar muito prudente. A piora do segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos) é especialmente preocupante. Em dez meses de 2018 esse grupo de empresas produziu mais do que um ano antes. A comparação foi negativa em maio (-6,4%) por causa da crise do transporte rodoviário, e novamente em dezembro (-4,1%). O número de janeiro (-7,7%) parece apontar uma disposição bem menor, no conjunto das empresas, de investir na capacidade produtiva.

A recuperação em 2018, embora modesta, ainda foi um importante sinal positivo, embora boa parte do investimento deva ter consistido na reposição ou substituição inadiável de máquinas e equipamentos. O quadro geral parece indicar uma insegurança ainda difusa entre os empresários, apesar de suas declarações mais otimistas, ou menos pessimistas, sobre o futuro da economia. Para passar à ação eles dependem de sinalização mais clara do governo – bem mais clara e estimulante que os tuítes habituais do presidente.

O Estado de S. Paulo

Educação à deriva

Está em curso no Ministério da E d u c a ç ã o (MEC) uma renhida disputa interna. Seria o caso de celebrar o embate se os contendores estivessem divididos em grupos genuinamente preocupados com os reais problemas educacionais brasileiros e divergissem em alto nível quanto às medidas mais acertadas para resolvê-los de uma vez por todas. Mas não é disso que se trata. Pela ação errática do MEC e por uma série de diagnósticos no mínimo esdrúxulos traçados pelo ministro Ricardo Vélez Rodríguez até aqui, é de suspeitar que os problemas de fundo da educação brasileira não sejam sequer conhecidos por quem tem a incumbência de dar-lhes soluções.

Três milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos estão fora da escola. Milhares de professores da rede pública de ensino têm formação inadequada para as disciplinas que lecionam. A taxa de analfabetismo no País é de 7% (11,5 milhões de pessoas com 15 anos ou mais), acima da meta estipulada no Plano Nacional de Educação para 2015 (6,5%). Jovens chegam à universidade incapazes de compreender textos simples. O Brasil ocupa a 59.ª posição em um ranking composto por 70 países no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da OCDE.

O País destina cerca de 6% do Produto Interno Bruto para a educação, mas não há eficiência nestes gastos que se traduza em uma melhora percebida da qualidade do ensino e na capacitação de nossa força de trabalho para dar conta dos desafios do mercado. São muitos os problemas crônicos na área de educação, mas eles têm passado ao largo dos grupos que hoje disputam poder no MEC. Os “ideólogos” ligados ao conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, o astrólogo Olavo de Carvalho, os militares nomeados para postos-chave na pasta e servidores de perfil mais técnico – estes, sim, defendendo a adoção de políticas educacionais de eficácia comprovada – travam uma batalha por protagonismo na qual, até o momento, tem prevalecido a astroideologia.

No fogo cruzado fica o resto. Recentemente, o ministro Vélez Rodríguez afastou auxiliares que seriam da ala “ideológica” do MEC. É o grupo ao qual se atribui a desastrada tentativa de obrigar as escolas de todo o País a perfilar seus alunos ao som do Hino Nacional, filmar a cena e enviar as imagens ao MEC, que faria dos vídeos dos alunos sabe-se lá qual uso. Em reunião com o presidente da República esta semana, o ministro relatou a existência de um motim contra ele envolvendo funcionários ditos “olavistas”. Jair Bolsonaro determinou, então, o afastamento de seis deles, e também do coronel Ricardo Wagner Roquetti, do grupo de militares que faz oposição à ala “ideológica” do MEC.

Os expurgos não bastaram para aplacar a ira do astrólogo, que age como uma espécie de eminência parda do governo. Olavo de Carvalho usou suas redes sociais para vociferar contra todos os que acredita serem obstáculos à sua influência no MEC. Luiz Antônio Tozi, secretário executivo da pasta, é um deles. Por ordem de Jair Bolsonaro, o ministro Vélez Rodríguez demitiu o “número dois” do Ministério na terça-feira passada. Se motim há, é porque faltam comando e direcionamento claros para as ações do MEC, hoje mais afeito a combater problemas inexistentes ou desimportantes do que a tratar de questões realmente sérias.

A briga revela também a tutela do presidente Bolsonaro sobre seus ministros, tolhendo-lhes a autonomia que prometera dar quando em campanha para o Palácio do Planalto. Enquanto durar este embate estéril entre “ideólogos” e técnicos no MEC, os problemas reais da educação permanecerão intratados. Paralisado por “não ter garantias” de que permanecerá no cargo, pois aquele a quem se atribui sua nomeação – Olavo de Carvalho – agora defende a sua destituição, o ministro Vélez Rodríguez tem deixado de tomar ações importantes na pasta, de acordo com relatos de alguns de seus auxiliares ouvidos pelo Estado. E assim a educação brasileira vai à deriva.

Folha de S. Paulo

Massacre em Suzano

Atiradores matam 8 em ataque a escola, repetindo ações registradas nos EUA; é inevitável que tragédia crie constrangimento para a agenda do governo

Suzano (SP) não chega a ser cidade pequena, com seus 295 mil moradores, mas se perdia num tipo de anonimato urbano em meio aos 21,6 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo. Até a manhã desta quarta-feira (13).

Com a tragédia na escola estadual Professor Raul Brasil, a localidade ingressa no pequeno rol brasileiro de matanças em estabelecimentos de ensino. Em número comparável de mortes, houve no país apenas o precedente do bairro carioca de Realengo, em 2011, para esse fenômeno tipicamente americano.

Luiz Henrique de Castro, 25, e Guilherme Taucci Monteiro, 17, invadiram o colégio depois de matarem um tio do segundo num lava-jato. Na instituição, tiraram a vida de ao menos cinco alunos e duas funcionárias, deixando ainda cerca de uma dezena de feridos.

Os assassinos — eles próprios, ex-alunos dali — foram encontrados mortos pela polícia. Um deles usava roupas pretas, como os atiradores da escola Columbine (EUA), que fizeram 13 mortos em 1999, e máscara com figura de caveira, como o assassino de 26 pessoas numa igreja do Texas, em 2017.

Tais eventos macabros parecem conter um componente de imitação. Jovens desajustados, não raro vítimas de bullying, recorrem a meios extremos, quando não à própria morte, para obter notoriedade e superioridade que não encontravam em vida.

Apenas iniciadas as investigações, mostra-se difícil cogitar que tipo de motivação conduziu os rapazes de Suzano ao ato desatinado.

Chama a atenção que tenham empregado dispositivo recarregador para aumentar a quantidade de tiros de revólver e uma arma medieval — a besta disparadora de setas — que hoje se vê apenas em filmes fantasiosos e videogames.

Os homicidas da Raul Brasil agiram para matar o maior número possível, não importando quem. Não se sabe com clareza se alguém — pais, parentes, colegas, professores — se dava conta do caminho escuro pelo qual enveredavam.

Claro está que não se deve responsabilizar outrem por seus atos bárbaros. Entretanto evitar que surjam novas cópias exigirá que escolas se aparelhem para detectar e prevenir de forma mais precoce os desvios mórbidos.

Basta um pouco de bom senso, por fim, para entender que aumentar a disponibilidade geral de armas de fogo no meio social pode contribuir para tornar esses massacres, entre outras modalidades de violência, mais frequentes.

Inevitável, pois, que a tragédia represente um constrangimento para a agenda armamentista do governo Jair Bolsonaro (PSL). O momento de comoção, porém, não é propício ao debate programático. Fiquemos, por ora, com o luto.

Folha de S. Paulo

Enfim, um passo

Numa aguardada resposta às dúvidas que se acumulavam em torno das investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), a Polícia Civil do Rio prendeu Ronnie Lessa, policial militar reformado, e Élcio Vieira de Queiroz, expulso da PM, sob acusação de terem executado o crime.

De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público, Lessa foi o responsável pelos disparos, que mataram também o motorista Anderson Pedro Gomes, enquanto Queiroz estaria ao volante do automóvel que interceptou o veículo da vereadora na noite de 14 de março de 2018.

Ao longo desses 12 meses, sinais pouco animadores sugeriram a possibilidade de as investigações caminharem para um desfecho inconclusivo e vexatório, sem a identificação dos responsáveis.

As diligências, realizadas com apoio da Polícia Federal e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), órgão ligado à Promotoria, apontaram agora que a empreitada foi planejada em detalhes nos três meses anteriores ao atentado.

Num esforço investigativo com o uso de tecnologia avançada, esquadrinharam-se dados de celulares e imagens de câmeras para fechar o cerco sobre os dois acusados.

Segundo a acusação, Lessa usou mecanismos de busca na internet para levantar informações sobre a vida e a rotina da vítima, o que seu advogado nega. Teria, ainda, demonstrado “obsessão” por pessoas ligadas ao universo ideológico da esquerda. Por isso acrescentou-se motivo torpe como agravante.

As prisões podem representar, sem dúvida, um passo importante na elucidação do caso, mas não encerram as investigações. Uma segunda fase do inquérito já foi deflagrada, com a expedição de 34 mandados de busca e apreensão com o objetivo de identificar conexões e apurar a existência de eventuais mandantes.

Ainda que se possa considerar a hipótese de o crime não ter sido encomendado, não soa provável que se trate de um ato isolado.

Os dois presos mantêm relações com milícias que atuam no estado. Lessa vivia num condomínio de alto padrão, onde também reside ninguém menos que o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Um amigo do policial reformado foi preso por guardar em sua casa peças para a montagem de 117 fuzis.

Lembre-se, ademais, que o ex-ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e o general Richard Nunes, secretário estadual da área durante a intervenção federal de 2018, mencionaram a ação de políticos e agentes públicos contrários ao esclarecimento do crime. É preciso que sejam identificados.

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