PARTIDO POPULAR SOCIALISTA

PORTAL NACIONAL

Centenário: Maestro e compositor Claudio Santoro será homenageado hoje em Brasília

Reprodução

Claudio Santoro na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, casa da orquestra fundada por ele

Claudio Santoro, além do tempo

Centenário do nascimento do maestro e compositor será lembrado em todo o País, com gravações de discos e concertos em diversas orquestras

Nahima Maciel – Correio Braziliense

Claudio Santoro escreveu 14 sinfonias. Dessas, duas nunca estrearam e apenas cinco foram registradas em disco. São gravações antigas, algumas feitas na ex-União Soviética pelo próprio maestro. Apenas duas, as Sinfonias nº 4 e 9, realizadas pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), estão em circulação. Por isso é de se comemorar a chegada do centenário do maestro, um dos fundadores da Universidade de Brasilia (UnB) e criador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional (Ostncs). As celebrações programadas para 2019 vão colocar o nome de Claudio Santoro na pauta e no programa de músicos, gravadoras, festivais e público.

O maestro e compositor é o homenageado de hoje em concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional programado para as 20h30 no Teatro Levino de Alcântara, da Escola de Música de Brasília. No repertório estão peças mais conhecidas, como a Sinfonia nº 6, o Canto de amor e paz e Ponteio. As duas últimas ganharam coreografias e serão apresentadas acompanhadas de um balé. Para Canto de amor e paz, a Foco Cia. de Dança criou passos contemporâneos. Em Ponteio, dançada pelo Balé de Brasília, quem assina a coreografia é Paula Sayão. “Mas não vai ter sapatilha de ponta. É uma obra mais popular, mais dançante, tem muita dança”, avisa Gisele Santoro, viúva do maestro.

Ainda este ano, a orquestra faz as sinfonias nº 4, 5, 7 e 9. “O grande diferencial de Santoro é que ele passou por todas as experiências musicais no campo da composição”, explica Claudio Cohen, regente da Ostncs. De fato, o compositor experimentou da música serial dodecafônica ao nacionalismo, passando pela música eletrônica. “A obra é bastante vasta no aspecto da experiência musical, mas o que estamos fazendo são obras bem nacionalistas”, avisa o maestro.

O centenário também ensejou a gravação de 39 prelúdios do compositor pelo pianista Pablo Marquine. Lançado pelo selo Tratore, o disco é um primeiro volume de uma série idealizada por Marquine. Os prelúdios, ele explica, são uma espécie de microcosmo da obra de Santoro. Estão lá as influências do impressionismo de Debussy e Ravel, do dodecafonismo de Arnold Schoenberg, das vanguardas cariocas dos anos 1940 e do retorno à tonalidade de Nadia Boulanger.

Estética

O nacionalismo, muito presente na obra do compositor, também encontra eco nos prelúdios para piano. “A escolha para iniciar o projeto de gravação com os prelúdios foi feita por mim. Em primeiro lugar, como um conjunto de obras, eles são o mais complexo do compositor para o instrumento. Isso se deve, em grande parte, à diversidade estética que os sublinham”, avisa Marquine. Ele encarou a gravação como um desafio e uma busca pessoal de um repertório que fosse além do cânone histórico, do qual estava cansado. “Eu tenho me apresentado em diversos países e é incrível a recepção das obras de Santoro— só esperamos que a sua terra e a sua cidade compreendam também a sua importância histórica na música brasileira e na música universal”, provoca.

No âmbito das gravações estão as melhores notícias relacionadas ao centenário. A convite do Ministério das Relações Exteriores, a Orquestra Filarmônica de Goiás deu início às gravações das 14 sinfonias do maestro. Até agora, foram registradas as de número 1, 5, 6, 7 e 8. A iniciativa faz parte do projeto Brasil em concerto, que contemplará compositores brasileiros e que conta com parceria da gravadora Naxos. “O projeto foi desenvolvido por nós para a difusão da música brasileira de concerto no exterior. É uma iniciativa importante, porque percebemos que não há material, do nosso ponto de vista. A gente quer fazer um trabalho de difusão e não há sequer material para divulgar. Não tem gravações, partituras nada. Então, a única maneira de conseguir fazer o trabalho é providenciando isso”, explica Gustavo Sá, diplomata do departamento cultural do MRE responsável pelo projeto. A decisão de uma única orquestra gravar todas as sinfonias se deve à vontade de imprimir uma unidade e uma sonoridade única ao conjunto.

Prelúdios

Gisele Santoro, viúva do maestro

Além das gravações, Santoro também estará nos programas das orquestras mais importantes do Brasil. O Osesp vai executar a Sinfonia nº7 e o Ponteio, além de gravar um disco com as Fantasias sul-américa, escritas para solistas de todos os naipes de uma sinfônica. Um recital com Paulo Szot, que ganhou o Tony Award pelo desempenho na Broadway no musical South Pacific, e com o pianista Nahim Marun vai trazer os prelúdios e canções do compositor para a Sala São Paulo e o coro da Osesp interpreta Gazela frêmito e Ave Maria. O Quarteto de Cordas nª3 também está no programa. O Festival de Campos de Jordão, no meio do ano, será palco para a orquestra paulista apresentar algumas obras.

Em março, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG) toca a Brasiliana e, em abril, o Concerto nº 1 para piano, com o pianista Aleyson Scopel. O Frevo também está na programação de agosto da filarmônica. O Festival de Ópera de Manaus trouxe para a programação a ópera Alma, encenada apenas uma vez, em 1998, cuja versão definitiva Alessandro Santoro, filho do compositor, encontrou recentemente. “Ela foi feita uma vez, mas eu encontrei muitos anos depois a última versão e há bastante tempo a gente tenta articular para editar isso, para recuperar esse material. Quando estava tentando articular, o pessoal de Manaus me contatou e disse que quer incluir a ópera no festival. Eu já tinha muita coisa digitalizada e eles vão pegar o que foi feito da outra apresentação e colocar as modificações”, conta Alessandro.

Dividida em quatro atos e escrita, Alma é protagonizada por uma moça que se apaixona e é explorada por um capitão. A história vem de um libreto de Oswald de Andrade e Gisele garante que a peça foi escrita para a filha do maestro, a bailarina e também Gisele.

Infância

Em julho, o Seminário de Dança terá espetáculos dedicados ao maestro. Gisele Santoro, diretora do evento, conta que já recebeu propostas de coreografias para músicas do compositor. Além disso, ela está em contato com alguns centros culturais para tentar fazer uma exposição das pinturas de Santoro. Nas paredes de casa, ela tem 17 quadros pintados pelo marido. “Mas tem mais guardados”, garante. O maestro começou a pintar ainda durante a infância. Filho de uma professora de pintura, aprendia com a mãe a técnica de tinta e pincel e, em vários momentos da vida, retomou a prática. “Ele parou quando veio para Brasília fundar a universidade e a orquestra”, conta Gisele.

Filho do compositor, Claudio Rafaello Santoro, o DJ Raffa, investe em dois projetos para celebrar o centenário do pai. Um deles é uma releitura de Canções de amor, em parceria com Renato Vasconcelos. Os versos de Vinicius de Moraes, que acompanham a música, vão ganhar roupagem mais popular e menos lírica. “Vamos fazer com cantores da cidade e o Renato vai colocar uma brasilidade a mais. Eu vou entrar de DJ e colocar os samplers. É uma versão mais moderna, com beats, meio jazz”, conta Raffa. “É para o público que não conhece papai. Essas peças são dos anos 1940, 1950 e até 1960. Esse público não conhece, mas se a gente colocar num formato de agora, a gente vai atrair outro público que vai, de repente, querer conhecer a obra dele.” Raffa acredita que a série Canções de amor é a mais adaptável da obra do pai ao formato popular.

Lançamento das celebrações do Centenário do Maestro e compositor Claudio Santoro
Hoje, às 20h30, no Teatro Levino de Alcântara (Escola de Música de Brasília SGA/Sul Quadra 602)

Deixe uma resposta