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Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (27/01/2019)

MANCHETES

O Globo

Tragédia mais letal
Justiça bloqueia R$ 5 bi da Vale, e Ibama aplica multa
Mourão, o vice com atitude que diverge do chefe

O Estado de S. Paulo

Mortos chegam a 34 em MG; outra barragem preocupa
Tribunais de Contas discutem ‘maquiagem’ de dados de Estados
Licenciamento pode mudar

Folha de S. Paulo

Número de mortes chega a 34 em desastre de Brumadinho
Nove estados querem Previdência sem carência
Presidente vai ser internado hoje para cirurgia de 3 horas

EDITORIAIS

O Globo

Crise de estados também se deve à Previdência

Além de descaso com o crescimento autônomo dos gastos com pessoal, também existe incompetência

Tema mantido na agenda do país no mínimo há mais de duas décadas, a reforma da Previdência voltará à apreciação do Congresso, e os parlamentares brasileiros têm mais uma chance de adequar a seguridade aos novos padrões demográficos, que continuam a se alterar à medida que a população envelhece.

Os políticos têm se recusado a fazer o ajuste necessário durante todo este tempo —não atacam para valer causas estruturais do déficit previdenciário —, preocupados apenas com os votos em cada eleição.

Pois criam, com o passar do tempo, situações de extrema gravidade que prejudicam os mesmos eleitores que alegam defender. Não só no plano federal, mas em toda a Federação.

Deveriam prestar atenção à crise fiscal nos estados, cada vez mais visível. E, por trás dela, está em boa medida a elevação das despesas previdenciárias (aposentadorias e pensões), que aumentam de maneira autônoma, em um momento de arrecadação tributária anêmica, devido à lenta recuperação da economia. E como a inflação está baixa, governantes não podem usá-la para reduzir as despesas em termos reais. Quando a moeda perde poder aquisitivo em alta velocidade, qualquer atraso em pagamentos embute um desconto. Daí a inflação funcionar contra a população, principalmente a mais pobre, e em favor do Estado.

Há de tudo nesta crise, inclusive má administração, além da leniência diante do crescimento das despesas com pessoal, em que se incluem aposentadorias e pensões, tanto que há estados em melhor situação que outros. Não se pode, também, tirar responsabilidade de Casas legislativas (assembleias estaduais e câmaras de vereadores), e não se deve esquecer os tribunais de contas, instituições vitais para manter a saúde fiscal da Federação, mas que costumam ser cooptados pelo Executivo e Legislativo, a fim de fazerem vista grossa diante de graves infrações à Lei de Responsabilidade. Sem punição, a delinquência fiscal continua.

Goiás acaba de decretar “falência financeira” por 180 dias, aprovada pela Assembleia. Com uma dívida de R$ 3 bilhões, o estado passou para a administração do governador Ronaldo Caiado com apenas R$ 11 milhões no caixa. Goiás vive a dura situação de ainda não atingir índices de dificuldades que o permitam se candidatar ao Regime de Recuperação Fiscal, como fez o Rio de Janeiro, mas não consegue se reerguer sem ajuda. E mesmo com auxílio do Tesouro, se não houver comprometimento do governo, de pouco adiantará.

Na fila da UTI fiscal estão ainda Minas, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Roraima e Mato Grosso. Para todos, é essencial que venha uma reforma da Previdência que os permita executar o ajuste que não têm condições políticas de fazer sozinhos. Precisam mobilizar suas bancadas no Congresso.

Bolsonaro em busca de um discurso responsável sobre o meio ambiente

À medida que desce do palanque, presidente procura ponto de equilíbrio acerca do assunto

Na noite de terça-feira passada, em Davos, quando fez seu pronunciamento no Fórum Mundial, o presidente Jair Bolsonaro, à saída do jantar oferecido pelo presidente do encontro, Klaus Schwab, foi perguntado pelo jornal “Valor Econômico” se o Brasil ficará no Acordo de Paris. “Por ora”, foi a resposta. No seu discurso, mais cedo, o presidente defendera a compatibilização entre atividades produtivas e a preservação do meio ambiente, algo desejável e possível.

Neste contexto, a resposta meio evasiva do presidente significou um avanço em relação à campanha, quando dissera que retiraria o país do pacto multilateral. Outra mudança de postura para melhor ocorreu em relação ao destino do Ministério do Meio Ambiente, que se tornaria um apêndice da Agricultura, mas foi mantido independente.

O fato é que o Brasil só tem a ganhar na preservação ambiental. Pois assim evitará sanções no comércio exterior a suas commodities agropecuárias, em que tem poucos concorrentes. Conquistou posições de liderança na soja e em carnes, e precisa proteger essas exportações de barreiras criadas como retaliação ao desmatamento. O próprio presidente, ao mostrar no discurso que o país usa, em termos relativos, pequena extensão de terras na sua agropecuária, e que cresce mais em função dos avanços de produtividade, deu a entender que reconhece não ser necessário desmatar a Amazônia para elevar a produção. E é fato.

O Brasil tem vantagens na busca por uma economia de baixo carbono. Apesar do aumento do uso de termelétricas a óleo, mantém uma matriz energética das mais limpas do mundo. Enquanto amplia o parque eólico no Nordeste. Não faz sentido, até por estratégia de política externa, jogar fora esta vantagem.

Há, ainda, o aspecto científico. A contaminação ideológica dos debates sobre o aquecimento global transforma o assunto em fonte de inspiração de grandes conspirações ilusórias. Mas não é mais possível negar provas científicas das mudanças no clima. Com o da interferência da Humanidade no atual ciclo de aquecimento, por meio de atividades que geram perigosas emissões de carbono.

Sair do Acordo de Paris, como os EUA de Trump, seria isolar-se na comunidade mundial. O poder dos americanos os torna atores de peso no jogo diplomático, em qualquer circunstância. Não é o caso do Brasil, parece entender Bolsonaro.

O Estado de S. Paulo

O IR das empresas foi um dos líderes da arrecadação

O Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) – cujas alíquotas o ministro Paulo Guedes quer reduzir, como disse a investidores em Davos, na semana passada – assegurou uma entrada de recursos de R$ 144,15 bilhões para os cofres da União em 2018, correspondente a 9,75% do total arrecadado no ano, segundo a Receita Federal.

Em valores corrigidos pelo IPCA, houve um aumento de 13,81% do IRPJ em relação a 2017. Somada à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), que incide sobre a mesma base de tributação, a arrecadação sobre o resultado das empresas somou R$ 224,3 bilhões (cerca de 15% da arrecadação total), influenciada pela elevação dos lucros das companhias não financeiras.

A redução de tributos sobre o lucro das empresas, se e quando ocorrer, tem por objetivo aumentar a atratividade dos investimentos no País, que disputa recursos de capital com os demais países. Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a alíquota média do IRPJ é de 23,8%, segundo reportagem recente do Estado. Nos Estados Unidos, a gestão Trump reduziu o tributo para 20%.

A arrecadação administrada pela Receita Federal subiu 3,41% reais entre 2017 e 2018, mas o ritmo de alta declinou ao longo do ano, após ter atingido 9,66% em fevereiro. A queda foi ininterrupta nos últimos seis meses, desde julho, quando atingiu 6,38%. Quando se inclui a arrecadação não administrada pela Receita Federal, a elevação em termos reais atinge 4,74% no período.

Tanto a arrecadação de dezembro como a do ano passado ficaram ligeiramente abaixo das expectativas dos agentes econômicos. A retomada da atividade foi menos intensa do que se previa, afetando, por exemplo, a arrecadação de tributos sobre a importação de bens. O Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)-Automóveis chegou a cair entre 2017 e 2018.

O crescimento real da arrecadação em 2018 superou a alta do Produto Interno Bruto (PIB) e, por isso, não pode ser considerado “um resultado ruim”, avaliou o economista Fabio Klein, da Tendências Consultoria. Ele prevê expansão mais forte da receita em 2019, estimulada pela indústria, pelos serviços e pelo emprego formal, que ajudará a arrecadação do INSS.

Em meio às dificuldades de arrecadar, um corte do IRPJ parece ser tarefa desafiadora.

Muito a explicar

O presidente Jair Bolsonaro, numa demonstração de bom senso, disse em entrevista à agência Bloomberg que, “se ficar provado” que seu filho Flávio “errou”, ele “terá que pagar por essas ações, que não podemos aceitar”. Afinal, proteger o filho, encalacrado em um escândalo cada vez mais esquisito, acarretaria ainda mais desgaste político a seu governo, justamente no momento em que precisa demonstrar firmeza para enfrentar a dura negociação com o Congresso com vistas a aprovar as medidas que considera essenciais para o País.

É pena, no entanto, que o bom senso tenha durado apenas algumas horas. Em entrevista à TV Record, Bolsonaro afirmou que “não é justo atingir um garoto, fazer o que estão fazendo com ele, para tentar me atingir”. Desse modo, o presidente imprudentemente se ligou às desventuras do filho, o que tem o potencial de comprometer o próprio governo.

O maior interessado nessa vinculação, claro, é Flávio Bolsonaro. Incapaz de dar explicações plausíveis para as muitas suspeitas que pairam sobre ele, o senador eleito sugere que o escândalo está sendo alimentado por gente cujo objetivo é desestabilizar a Presidência do pai.

É evidente que, em se tratando de um filho do presidente, e considerando- se que esse filho é muito próximo de Bolsonaro e se mete em tudo que se refere ao governo do qual não faz parte – filho não é cargo nem tem autoridade como tal –, tudo o que envolve o escândalo tem potencial de causar danos ao governo. Esse certamente é o maior motivo pelo qual é de grande interesse do País que Flávio Bolsonaro dê os necessários esclarecimentos a respeito de tão rumorosas suspeitas.

E essas suspeitas não param de se multiplicar, acrescentando ao caso tonalidades bem mais graves do que até aqui se imaginava. Já não se trata mais somente de indícios de que no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual no Rio de Janeiro, praticava-se o chamado “rachid” – nome do esquema em que os funcionários a serviço de parlamentares lhes devolvem parte do salário que recebem.

Tampouco se trata apenas de uma estranhíssima movimentação na conta de Flávio Bolsonaro – depósitos fracionados, com diferença de minutos entre um e outro, totalizando pouco menos de R$ 100 mil. O que surgiu agora coloca a crise em outro patamar, muito mais perigoso. Segundo as novas informações, o gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio contratou a mulher e a mãe de Adriano da Nóbrega, que vem a ser chefe do chamado “Escritório do Crime”, uma das principais milícias do Rio. As duas estavam na folha de pagamento do gabinete de Flávio Bolsonaro até novembro passado.

Em nota, o agora senador eleito, depois de se dizer “vítima de uma campanha difamatória com o objetivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro”, afirmou que as duas funcionárias foram contratadas “por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz”. Ou seja, Queiroz, que até aqui se apresentou como um modesto motorista, tinha poder para indicar funcionários no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Mais do que isso: apesar de seu salário de motorista, esse mesmo Queiroz movimentou pelo menos R$ 1,2 milhão em sua conta, constatação que chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e que deflagrou todo o escândalo. Um dos depósitos em sua conta – de onde, aliás, saiu um cheque para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro – foi feito pela mãe do miliciano Adriano da Nóbrega, ora foragido.

Como se vê, trata-se de um novelo que mal começou a ser desfiado. O escândalo do clã Bolsonaro envolve agora as terríveis milícias do Rio, grupos de extermínio formados por ex-policiais travestidos de justiceiros – que foram seguidamente homenageados por Flávio e Jair Bolsonaro. Quando deputado estadual, Flávio disse que as milícias se dedicam a “expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos” e que “há uma série de benefícios nisso”. Uma fronteira bastante delicada parece ter sido cruzada, e espera-se que o presidente Bolsonaro e seu filho Flávio afinal deem as explicações que a sociedade, apreensiva, aguarda.

‘É o que temos para hoje’

Mais de três semanas depois de assumirem seus cargos, integrantes do governo do presidente Jair Bolsonaro empenharam-se, na quarta-feira passada, na tentativa de demonstrar que têm noção da importância de sua tarefa e sabem o que pretendem fazer. Num evento nitidamente organizado às pressas – e talvez não por mera coincidência realizado logo depois do inusitado cancelamento de uma entrevista coletiva que o presidente da República e três ministros de Estado deveriam conceder no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça –, o governo apresentou um conjunto de ações consideradas prioritárias para os primeiros 100 dias de gestão.

Numa lista de 35 itens, há iniciativas de grande relevância para equilibrar as contas do governo, dar mais eficiência às política públicas e estimular os investimentos privados. Outras foram apenas citadas, pois estão em fase embrionária de discussão e é incerto seu impacto sobre a administração pública, o desenvolvimento do País e a vida dos cidadãos.

Curiosamente, uma lista tão ampla não inclui – nem mesmo como uma citação – a mais urgente e mais discutida das medidas que se esperam de um governo comprometido com a estabilidade econômica: a reforma da Previdência. Razão deve ter havido para a exclusão desse tema vital para a redução dos gastos do governo e para o equilíbrio a longo prazo das contas públicas e que foi enfaticamente exposto para diferentes plateias em Davos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Ao anunciar a lista de metas para os primeiros 100 dias de governo, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, evitou falar da reforma da Previdência tão entusiasticamente defendida por seu colega de Ministério na Suíça. Lorenzoni não quis confirmar nenhum ponto do que vem sendo discutido. “Se eu descer aos detalhes da proposta, eu obviamente entregaria aqui a estratégia, a tática e a lógica”, justificou-se para nada comentar sobre o projeto, que deve ser concluído “nas próximas semanas”. Isso ocorrerá após a nova cirurgia a que o presidente Jair Bolsonaro terá de se submeter e que já estava programada.

Visto de fora do governo, não é fácil imaginar que alguém esteja em condições de “descer aos detalhes da proposta”, pois os sinais da área oficial são confusos, quando não conflitantes, sobre pontos essenciais, como idades mínimas de contribuição e de obtenção do benefício previdenciário e abrangência da reforma.

Entre as metas está a independência do Banco Central, tema há muito discutido e que já constava da lista de 15 prioridades que o governo Michel Temer definiu no início do ano passado, depois da inviabilização da aprovação da proposta de reforma da Previdência como consequência do episódio envolvendo gravações de conversas dos donos do Grupo J&S. A medida assegurará ao Banco Central a liberdade necessária para definir a política monetária de acordo com critérios exclusivamente técnicos, sem pressões da Presidência da República e de outras esferas políticas.

Igualmente relevante entre os itens que constam das metas do governo Bolsonaro é a viabilização do leilão dos excedentes da cessão onerosa do pré-sal, que pode render até R$ 100 bilhões. Outras medidas já foram adotadas na prática, como a medida provisória para combate a fraudes nos benefícios do INSS e o decreto de facilitação da posse de armas.

Outras ainda apenas reforçam funções ou deveres do governo, como a imunização para evitar o ressurgimento de doenças atualmente controladas. E há outras sobre as quais pouco se sabe, como a implantação de um centro de testes para dessalinização no semiárido.

É um conjunto que, como definiu Lorenzoni, não contém todas as medidas que a retomada do crescimento demanda. E as relacionadas “não são necessariamente as mais importantes, mas são aquelas que estamos divulgando agora”. É como dizem certos comerciantes quando o cliente reclama da falta de alguns itens: “É o que temos para hoje”.

Acredite quem quiser

A presidência do Senado já não seduz mais Renan Calheiros (MDBAL). No início desta semana, o senador alagoano veio a público para dizer que não almeja o cargo que já ocupou por três mandatos: 2005- 2007, 2013- 2015 e 2015-2017. “Olha, não quero ser presidente do Senado. Os alagoanos me reelegeram para ser bom senador, não presidente. Já o fui várias vezes, em momentos também difíceis. A decisão (de indicar o candidato do partido) caberá à bancada, e temos outros nomes”, escreveu Renan no Twitter. Acredite quem quiser.

A manifestação do senador seria um refrigério para o espírito dos brasileiros crédulos e genuinamente preocupados com o resgate moral do Senado. No rol de infortúnios que podem se abater sobre o Brasil, a volta de Renan Calheiros à presidência da Casa – e, portanto, do Congresso Nacional – figura entre as opções mais nefastas. Que ele cumpra a própria escrita e não se candidate. Mas acreditar, quem há de?

O MDB, de fato, tem outros nomes que podem postular o comando do Senado na próxima legislatura sem que isso represente um compromisso do partido com o atraso e a velha política, perniciosa não porque “velha”, mas porque traz em si um conjunto de práticas intoleráveis no exercício do múnus público que foi rejeitado pelos eleitores no pleito de outubro do ano passado. Há outros partidos com quadros igualmente qualificados para o maior cargo da Câmara Alta.

A desejada renovação na política não está restrita ao repúdio a velhos sobrenomes que há décadas mandam e desmandam no Poder Legislativo. Também diz respeito a um novo olhar sobre o exercício da política sob inspiração de um conjunto de valores e práticas altivas e decentes que se opõem diametralmente a tudo o que o senador Renan Calheiros, que responde a mais de uma dezena de processos e inquéritos policiais, personifica.

No ano passado, cada Estado elegeu dois senadores. Das 54 cadeiras que estavam em disputa, 46 serão ocupadas por novos parlamentares a partir do mês que vem, o que representa uma impressionante taxa de 85% de renovação. Poucos sinais emitidos pelas urnas são mais eloquentes do que este. O triunfo de alguém como Renan Calheiros na eleição interna da Câmara Alta iria frontalmente contra o estado de ânimo da Nação e representaria a total desmoralização do Senado.

Logo o Congresso Nacional estará às voltas com a discussão de uma série de projetos de lei e emendas constitucionais que tratarão de reformas imprescindíveis para o reequilíbrio das contas públicas – a reforma da Previdência é apenas a mais vital delas –, para a retomada do crescimento econômico e a consequente geração de emprego e renda para os brasileiros. Diante de tamanho desafio, é absolutamente temerário que a presidência de uma das Casas Legislativas e a do próprio Congresso estejam a reboque dos humores e dos interesses políticos de Renan Calheiros, um oligarca que já mostrou por seguidas vezes que cuida antes de seus interesses do que dos interesses do País.

Renan Calheiros tem história – adere a qualquer governo, ao qual serve até que lhe seja conveniente trocar de bandeira. Num tipo assim só confia quem não tem juízo. Vejamos. Ele, que se aliou ao PT na eleição passada, já fez seus acenos ao governo de Jair Bolsonaro. Recentemente, pôs-se em defesa do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), às voltas com as explicações sobre a movimentação financeira atípica de seu ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz.

Mesmo antes da posse de Jair Bolsonaro, o senador alagoano, que apoiou Fernando Haddad, disse que “não poderia antecipar” se faria oposição ao então presidente eleito. “Você não pode se colocar indefinidamente num campo político. Dá para se fazer muita coisa sem rótulos”, disse ele após a sessão do Congresso que celebrou os 30 anos da Constituição, em novembro. O tempo da maleabilidade moral e política do senador Renan Calheiros não tem cabimento num Congresso que fez o possível para demonstrar que a política é assunto sério para homens e mulheres de bem.

Folha de S. Paulo

Estelionato à vista

Ao mudar regras da Lei de Acesso à Informação, decreto da gestão Bolsonaro contribui para diminuir transparência da administração federal

No que pode ser descrito como um estelionato eleitoral, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) baixou um decreto para alterar algumas regras de aplicação da Lei de Acesso à Informação. Na prática, as mudanças têm o poder de diminuir a transparência da administração pública federal.

Bolsonaro, como se sabe, baseou boa parte da campanha presidencial num discurso inflamado contra a corrupção. Derrotar práticas políticas tradicionais e abrir a caixa-preta das gestões petistas estavam entre os objetivos alardeados.

Depois de receber a faixa, o mandatário reforçou a mensagem. No dia 7, em cerimônia com os novos comandantes do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES, afirmou: “Transparência acima de tudo. Todos os nossos atos terão que ser abertos para o público”.

Entretanto o decreto publicado na quinta-feira (24) rasga essas bandeiras. Assinado pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, permite que ocupantes de cargos comissionados classifiquem dados do governo federal como ultrassecretos e secretos, o que os torna sigilosos por 25 e 15 anos, respectivamente.

Pelo texto anterior, a classificação mais restritiva só poderia ser feita por 251 autoridades: presidente e vice, ministros de Estado, comandantes das Forças Armadas e chefes de missões diplomáticas ou consulares permanentes no exterior.

Com a nova norma, assessores comissionados que estão entre os de nível mais elevado no Executivo detêm o mesmo poder. Assim, agora são 449 pessoas com capacidade de tornar sigiloso por 25 anos qualquer documento federal.

Além disso, as autoridades podem emprestar o carimbo para dirigentes máximos de autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista.

Talvez imaginando que suas palavras têm o dom mágico de alterar a realidade, Mourão procurou negar o óbvio. Afirmou que a transparência está mantida e disse que raríssimas informações são classificadas como ultrassecretas.

Parece não lhe ter ocorrido que essa raridade provavelmente decorre do rol exíguo de autoridades aptas a lançar véu sobre documentos.

O decreto ainda embute uma irresponsabilidade. Ao aumentar o número de pessoas habilitadas a usar o carimbo de ultrassecreto, o governo aumenta o número de pessoas que poderão tomar contato com segredos de Estado. Numa gestão repleta de militares, é curioso que ninguém tenha notado essa ameaça à segurança nacional.

Se já não fosse suficiente, o mau exemplo federal pode estimular estados a seguir o mesmo caminho. Seria um retrocesso lastimável.

Para um governo conhecido pela alta quantidade de recuos em poucos dias, voltar atrás em mais esse caso seria a melhor saída. Do contrário, ficará a percepção de que a gestão Bolsonaro apenas quer diluir o desgaste político de decretar sigilo sobre informações que a população deveria conhecer.

As boas intenções

O WhatsApp anunciou nesta semana uma mudança significativa no funcionamento de seu popular aplicativo de mensagens, restringindo a capacidade de usá-lo para disseminar textos, arquivos de áudio, fotos e vídeos.

O número de vezes que alguém pode reenviar a mesma mensagem foi reduzido de 20 para 5. Até recentemente, não havia nenhum limite, o que permitia que muitos se comunicassem simultaneamente com milhares de pessoas.

A nova regra integra a lista de esforços que a empresa tem feito, timidamente, com o objetivo de conterá divulgação de mentiras e campanhas de desinformação como as que tumultuaram as eleições brasileiras no ano passado.

Na índia, o mau uso do serviço teve conseqüências trágicas. Boatos sobre raptos de crianças provocaram uma onda de linchamentos, levando o WhatsApp a adotar em caráter experimental as restrições que agora valem no mundo inteiro.

É bem-vinda a atitude, mas a empresa poderia fazer muito mais para combater o uso mal-intencionado de sua tecnologia. Algumas facilidades oferecidas a seus usuários permitem a difusão de informação em massa mesmo com os novos limites postos em prática.

Um grupo de WhatsApp pode ter 256 participantes, e listas de transmissão permitem que uma mesma mensagem seja enviada de forma simultânea a 256 contatos na primeira vez. Isso aumenta de forma exponencial o alcance de ações maliciosas como as que se multiplicaram no pleito brasileiro.

Com 1,5 bilhão de usuários no mundo, dos quais 120 milhões no Brasil, o WhatsApp ganhou confiança ao garantir a privacidade de suas comunicações com um sofisticado sistema de criptografia. A empresa teme que mudanças drásticas possam arranhar sua imagem e reduzir seu apelo comercial para o Facebook, dono do aplicativo.

Estudos acadêmicos sugerem que a maioria dos grupos do WhatsApp reúne menos de dez pessoas, em geral amigos e familiares. Essa característica ajudou a tornar a ferramenta útil para difundir desinformação, porque a confiança entre seus membros é muito grande.

Mas isso também indica que há espaço para limites mais rigorosos do que os adotados pela empresa. Se o tamanho dos grupos fosse reduzido à metade, aqueles dedicados a fomentar conspirações e notícias falsas estariam entre os mais afetados. A maioria dos usuários talvez não sentisse sua falta.

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