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Merval Pereira: Crianças e política

A maneira como você cria seus filhos é indicativa de sua tendência política. Essa foi a conclusão de dois grupos de pesquisadores que estudam o crescimento do populismo de direita no mundo, reunidos para analisar os resultados de pesquisas nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Tudo a ver com a discussão atual entre nós sobre escola sem partido e a influência de esquerda nos currículos escolares. O estudo foi publicado no site de notícias americano Vox, identificado como de tendência liberal, o que nos Estados Unidos quer dizer de esquerda.

Coordenados por Marc J. Hetherington, professor de Ciência Política na Universidade de Carolina do Norte em Chapel Hill; Jonathan Weiler, professor de Estudos Globais na mesma universidade; e Amy Erica Smith, professora adjunta de Ciência Política na Universidade do Estado de Iowa, que lançou um livro sobre a influência da religião nas eleições no Brasil, chegaram à mesma conclusão: as qualidades que cidadãos consideram mais importantes nas crianças explicam por que eles votaram ou não nos populistas de direita.

Aqueles que favorecem características tradicionais, como respeito aos mais velhos, obediência e boas maneiras, os apoiam. Os que são a favor da independência, autoconfiança e curiosidade os rejeitam. Porque essas preferências ajudam a revelar a maneira com que esses cidadãos veem o mundo, se o consideram um lugar seguro para explorar, ou perigoso.

Ao longo dos últimos anos, os pesquisadores ouviram milhares de pessoas na idade de votar, perguntando sobre um amplo espectro de assuntos ligados à política. Entre esses, havia perguntas que, aparentemente, não tinham nada com política, mas com os cuidados que se deve ter quando criamos nossas crianças.

As perguntas foram feitas da mesma maneira em todos os países e, quando questionados a definir as características que valorizam, apenas 10% dos brasileiros que preferem a independência, autoconfiança e curiosidade votaram em Bolsonaro no primeiro turno.

Entre os brasileiros que priorizam respeito, obediência e boas maneiras, cerca de quatro vezes mais escolheram Bolsonaro. Pela América Latina, as pessoas que valorizam esses comportamentos votaram em candidatos da direita, como Porfirio Lobo, em Honduras, e Otto Pérez Molina, na Guatemala.

Na Alemanha, na França, na Inglaterra, os pesquisadores encontraram o mesmo padrão. Aqueles que valorizam as qualidades tradicionais nas crianças tendem mais a votar em candidatos de direita numa proporção de 30 pontos percentuais.

A diferença é similar entre os que querem permanecer na União Europeia e os a favor do Brexit na Inglaterra. Nos Estados Unidos, a diferença é ainda maior. Cerca de 50 pontos percentuais quando a escolha foi entre Donald Trump e Hillary Clinton.

A visão dos que valorizam as qualidades tradicionais é de que o mundo é um lugar perigoso e, portanto, é melhor manter as crianças, e por extensão a sociedade, em segurança. Para eles, as rápidas mudanças políticas e sociais que ocorrem em seu redor, inclusive o aumento da diversidade demográfica e de expressões sexuais, são uma ameaça.

Eles anseiam por uma época mais simples, talvez imaginando o passado, quando a vida era mais segura. A resposta é tentar manter a ordem em seus sistemas políticos, assim como pais que querem manter a ordem em casa valorizando comportamentos tradicionais. Esses tendem a ser menos preocupados sobre cláusulas pétreas da democracia, como liberdade de expressão e liberdade de imprensa, que podem produzir desentendimentos.

São mais abertos a líderes poderosos que podem não respeitar o Legislativo ou o Judiciário, mas prometem uma sociedade mais ordeira. Não é à toa, dizem os pesquisadores, que líderes populistas de direita usam estratégias que apelam a uma visão de ordem e previsibilidade.

Menosprezam temas como mulheres, minorias étnicas e raciais, e a comunidade LGBT. Os movimentos sociais que podem colocar em risco o status quo são vistos como casos de polícia, e a imigração como potencialmente perigosa. (O Globo – 11/01/2019)

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