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Pedro Cafardo: A culpa é da janela ou da paisagem?

Na campanha eleitoral já se viam sinais dessa balbúrdia comunicativa exposta pelo novo governo em seus primeiros dias.

Durante semanas, por exemplo, o Valor tentou convidar Bolsonaro para participar de debates e entrevistas, mas não havia ninguém disponível no outro lado da linha. Quem era o assessor de comunicação do candidato? Ninguém sabia. A única linha de acesso era o próprio filho do candidato. Reinou durante a campanha a ideia de que não era preciso gastar com comunicação. Falava-se diretamente com o eleitor pelo Twitter.

Funcionou, não se pode negar. Ele foi eleito presidente. As contradições existentes entre as mensagens eram desfeitas pelo próprio candidato em tempo real, em outro tweet, ou em uma entrevista “quebra-queixo”. Depois de levar a facada em Juiz de Fora, hospitalizado, Bolsonaro recorreu ainda mais às redes sociais para mandar seus recados eleitorais.

Os primeiros dias do governo Bolsonaro começam a mostrar que talvez seja um equívoco o uso do mesmo sistema de comunicação da campanha, sem comando, sem organização nenhuma.

É inacreditável que uma fala do presidente, anunciando ter assinado um decreto, seja desmentida por um funcionário do segundo escalão. Só para lembrar: Bolsonaro anunciou na sexta-feira ter assinado um decreto que aumentava o IOF para compensar os subsídios que continuarão sendo dados a empresas no Norte e no Nordeste e, horas depois, foi desmentido pelo secretário da Receita Federal, Marcos Cintra. “Ele foi desmentido pelo frentista do Posto Ipiranga “, ironizou Marina Silva. Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, também desmentiu a informação. “Não haverá aumento de impostos”, disse de forma categórica.

Cada um fala o que quer sobre o que bem entender e a qualquer hora. É assim que caminha a comunicação do início do governo. Há um Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País, lembrou Marcos Augusto Gonçalves ao citar o livro de Stanislaw Ponte Preta, escrito durante o regime militar.

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, criticou a regra do Sistema de Seleção Unificada do Ministério da Educação (Sisu) que permite ao estudante se candidatar a vaga em universidade longe de onde ele mora. Ela conseguiu tornar polêmico um dos programas de maior sucesso do MEC. Damares acha que o afastamento da família é prejudicial ao jovem universitário. Muitos educadores sustentam que isso, além de garantir maior possibilidade de ingresso no ensino superior, e em regiões muitas vezes carentes de profissionais, permite ao jovem um amadurecimento pessoal e uma visão mais ampla do país e da sociedade em que vive. Ocorre que a ministra opinou sobre programa de pasta que não lhe pertence, a Educação, o que colocou o MEC numa saia justa, a ponto de optar por divulgar uma nota diplomática, dizendo que “não cabe ao MEC comentar falas de ministros de outras pastas do governo”.

No ranking do Febeapá, a declaração mais estridente foi, sem dúvida, a da própria ministra Damares, ao dizer que estava inaugurada “uma nova era” em que “menino veste azul” e “menina veste rosa”. Ela tentou se emendar depois, mas não teve argumento à altura – e foi massacrada nas mídias e até usada por duas empresas no marketing de seus produtos.

É muito bem-vinda a transparência do governo. Reconheça-se que ministros, secretários e assessores estão falando livremente, um ótimo sinal, porque permite ao país entender o que pensa o governo em seu conjunto. Quando se fala em medidas, porém, seria recomendável que houvesse alguma coordenação nas informações. Ou seja, a definição de quem fala sobre o quê e quando.

Informações valem dinheiro no mercado financeiro. Uma notícia enviesada pode dar grandes lucros – ou prejuízos. Na sexta-feira, Bolsonaro deu declarações que levantaram dúvida sobre a continuidade do processo de aquisição da Embraer pela Boeing. Isso provocou uma queda de 5% nas cotações das ações da empresa brasileira. O governo tem uma “golden share” na Embraer que lhe permite vetar a operação. O que, afinal, pensa o governo Bolsonaro sobre a operação? Quem é autoridade nesse assunto?

Existe uma máxima em comunicação: “Não se pode culpar a janela por mostrar a paisagem”. Aplica-se bem ao atual momento. É difícil saber se a comunicação desastrada é que agrava um problema de divergência interna ou se as divergências internas é que levam a uma comunicação desastrada.

Provavelmente os fatos coexistem. No caso do IOF, por exemplo, ficou claro o choque entre o grupo de Onyx Lorenzoni e o do ministro Paulo Guedes.

O que teria feito uma boa orientação de comunicação? Uma reunião prévia, um alinhamento de discurso entre os envolvidos e uma decisão sobre quem falaria e o quê, e o outro lado silenciaria – procedimento banal de comunicação utilizado em empresas e em governos minimamente organizados (em que Trump, obviamente não se encaixa). No caso real, coube ao presidente Bolsonaro não apenas falar sem avisar ninguém, mas a respeito de um tema sobre o qual não tinha todas as informações – ou se as tinha, não as entendeu.

O fato é que a comunicação, já incorporada como parte estratégica de um governo, é ainda mais importante no início das gestões e especialmente quando há divergências internas. Os alinhamentos são cruciais para que ninguém lave roupa suja em praça pública ou bata boca com o ministro vizinho. E tanto faz a plataforma: a última palavra, seja pelas redes sociais, seja pela imprensa, deve ser sempre a do presidente ou de alguém por ele indicado. Se não for assim, o governo virará uma torre de Babel.

A consequência mais relevante dessa balbúrdia é o enfraquecimento precoce de um governo que tem uma semana de vida. São enormes os desgastes causados por sucessivas declarações ora desinformadas ora pueris ora desvairadas – como a de que o Brasil vai extinguir um socialismo que nunca existiu no país. Haja Power Point! (Valor Econômico – 08/01/2019)

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor – E-mail: pedro.cafardo@valor.com.br

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