CIDADANIA23

PORTAL NACIONAL

Cora Rónai: Tão diferentes, e tão iguais

A posse de Lula, em 2003, foi uma festa. Havia uma multidão em Brasília, e eu me lembro de carros buzinando no Aterro, com bandeiras vermelhas desfraldadas. A música era ótima: a música sempre foi melhor na esquerda. A maioria dos meus amigos usava estrelinhas do PT na lapela, e todos estavam eufóricos.

Eu olhava para aquilo e lamentava não conseguir participar: eu me sentia à margem, como alguém que chega de uma outra cultura, ou de um outro planeta, e não conhece os ritos da tribo. Era o mesmo sentimento que eu tinha —e que ainda tenho —diante de manifestações religiosas em que percebo que as pessoas estão, genuína e sinceramente, tocadas pelo que está acontecendo.

Eu gostaria de ter fé, essa fé que move montanhas, que cega as pessoas e que elege os piores governos reiteradamente. Anteontem, acompanhando a posse de Bolsonaro pela televisão e pelas redes sociais, voltei no tempo. Não a 1964 ou à Idade Média, como lacram os memes, mas a 2003, àquela primeira posse de Lula, em que, para os seus seguidores, tudo era possível e o Brasil ia mudar num passe de mágica: nem corrupção, imaginem, existiria mais.

As duas posses foram muito diferentes na forma e no espírito e, no entanto, muito parecidas na ansiedade por mudanças e na credulidade e no fervor dos devotos. Lula no poder era uma novidade tão grande quanto Bolsonaro é.

Já não há as massas correndo para cá e para lá na Esplanada dos Ministérios, mas as redes sociais replicam a mesma empolgação e a mesma fé manifestadas há 16 anos: agora o Brasil endireita, agora tudo vai dar certo, dessa vez vamos. Vamos mesmo?

Novamente me sinto um ET, incapaz de compreender como é possível que, a essa altura, pessoas adultas, bem encaminhadas na vida, com acesso a leitura e a informação, acreditem em soluções milagrosas, ainda mais vindas de santo tão questionável. Os tempos são outros, o Brasil é outro.

O Lula que discursou para a multidão era uma figura radiante, um excelente orador, um homem carismático que enfim se encontrava com o destino que queria para si; o que aconteceu depois não anula ou modifica esse fato. Bolsonaro me parece não estar ainda convencido de que é presidente. Em muitos momentos da tarde, inclusive enquanto falava, dava a impressão de que preferia estar tuitando.

A época dos grandes discursos falados acabou. A tal ponto, aliás, que o melhor momento da tarde foi o inesperado discurso de Michelle Bolsonaro, que sequer precisou de microfone. Foi bonito vê-la discursar antes do marido, e foi reconfortante perceber nas suas palavras um tom de conciliação que, infelizmente, esteve ausente dos discursos do presidente: “Eu gostaria de modo muito especial de dirigir-me à comunidade surda, pessoas com deficiência e a todos aqueles que se sentem esquecidos. Vocês serão valorizados e terão seus direitos respeitados.” Tomara que o senhor Messias escute a sua esposa, desça do palanque e passe a valorizar todos os brasileiros, indistintamente, sem “nós e eles”, respeitando os seus direitos e a sua liberdade de expressão. (O Globo – 03/01/2019)

Deixe uma resposta