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Cristovam Buarque – Sigmaringa: a morte de um tempo

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Apesar de acompanharmos o estado de saúde do Sigmaringa e sabermos das dificuldades para sua recuperação, todos ficamos abalados ao saber de sua morte. Não porque fosse inesperada, mas pelo significado que ela teve. Sigmaringa, como poucas pessoas e raríssimos políticos, representava um tempo, um estilo, uma maneira de fazer política cada vez mais rara no cenário nacional. Sua falta será sentida não apenas porque perdemos um amigo e um líder, mas porque tomamos consciência de um tempo que está deixando de existir. Ele é um dos últimos de um tipo de político e de amigo. Não foram apenas seus familiares e amigos, a política do diálogo também ficou órfã.

Era capaz de manter a amizade por meio do choque de ideias e dos votos divergentes. No tempo em que está difícil reunir até familiares quando os parentes escolhem candidatos e lados diferentes na política, Sig mantinha as amizades até mesmo com adversários. Ele queria saber apenas se o outro votava pensando no Brasil, nos valores morais, com sua própria consciência, não importando o voto ou a opção política. Era capaz de pensar se o outro tinha razão, e se achasse que não tinha, enfrentava, mas não rompia, não agredia, não ofendia.

Sigmaringa representava a capacidade para o diálogo, o respeito às opiniões, até com adversários. Nos últimos anos, esse estilo foi desaparecendo, ele era um sobrevivente. É como se ele existisse em um mundo que começava a não existir, desaparecendo. Não perdemos apenas um indivíduo, mas uma espécie que está em extinção. Era capaz de se sentar com pessoas de todos os credos, todas as ideologias, todos os partidos e, de todos os lados, receber respeito e amizade. Conseguiu atravessar a radicalização sectária dos últimos anos sem cair na tentação do simplismo que caracteriza a prática política de hoje, em que os grupos se fecham sem pontes, sem diálogo entre segmentos, como se cada grupo político fosse uma ilha habitada por seguidores de seita religiosa.

Esse trânsito entre pessoas e grupos só foi possível pela coerência que o Sigmaringa manteve ao longo de sua vida. Foi capaz de mudar de siglas, passando por três delas, além de seu tempo de simpatia pelo velho “partidão”, sem perder sua identidade, sem abrir mão de seu caráter. É como se ele fosse um partido em si, podendo transitar entre siglas, levando consigo suas posições, seu comportamento, sua coerência, suas bandeiras. Sua morte é a morte desse tempo e desse estilo em que o militante preferia abandonar seu partido para não trair seus princípios. O contrário de hoje em que, ao chegar ao poder ou ao passar para a oposição, o militante se transforma em filiado, desnuda-se de suas posições para continuar servindo à sigla. Sigmaringa morreu levando consigo o tempo da política com coerência e com fidelidade a princípios e a compromissos acima das amarras de siglas. E com a cabeça aberta ao diálogo, com respeito ao opositor, ao contraditório, ao discordante.

Além de sua intensa atividade profissional e política, Sigmaringa foi sempre um amigo. Ele colocou a amizade acima das alianças e, por isso, deixou um rastro de afeto tão importante quanto sua marca política na luta pela democracia. Dele vamos poder dizer que foi um democrata coerente, mas, sobretudo, vamos poder dizer que ele sabia fazer amigos e sabia não perder amigos. Ele era amigo de todos os amigos dos amigos e dos não amigos dos amigos.

Sigmaringa foi um dos que lutou enfrentando a repressão ainda na ditadura, pela recuperação do Estado de Direito Democrático, além de, para nós do DF, ter sido um dos líderes para a conquista de nossa autonomia. Resta cada vez menos políticos daqueles tempos heroicos. Por isso, com ele morre um tempo, um estilo. E continuou até o final para tentar fortalecer a democracia ainda não consolidada, por causa das desigualdades regionais e sociais, da violência urbana, da persistência da pobreza, da concentração da renda, da força do corporativismo, da instabilidade jurídica, da inconsistência das instituições políticas.

E morre em um momento em que nós precisamos desesperadamente de políticos e líderes como ele, com características do diálogo, da coerência, da democracia, da solidariedade, da firmeza. Por isso, sua morte nos provoca o choro emocionado da saudade do amigo, mas também o choro preocupado com a história do país daqui para frente. Esta semana, morreu um tempo, mas ficou o exemplo para inspirar nós brasilienses e todos nós brasileiros. (Correio Braziliense – 31/12/2018)

Cristovam Buarque, senador pelo PPS-DF e professor emérito da UnB (Universidade de Brasília)

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