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Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (27/12/2018)

MANCHETES

O Globo

‘Sou um cara de negócios’, diz ex-assessor de Flávio Bolsonaro
Intervenção derruba roubos e assassinatos
Premiê de Israel virá à posse, afirma embaixador
Marco Aurélio: indulto de fim de ano é ‘tradição’

O Estado de S. Paulo

‘Sou um cara de negócios, faço dinheiro’, diz Queiroz
SP aprova nova Previdência e servidores ameaçam parar
Ex-governador do ES Gerson Camata é assassinado
Corrupção fica fora de indulto

Folha de S. Paulo

Previdência muda em SP; servidores anunciam greve
‘Eu sou um cara de negócios, eu faço dinheiro’, diz Queiroz
Gerson Camata, ex-governador do ES, é assassinado

EDITORIAIS

O Globo

Chuvas de verão aumentam preocupação com deslizamentos

Estudo mostra que 8,2 milhões de pessoas em 872 municípios brasileiros vivem em áreas de risco

O verão mal começou, e as chuvas fortes, típicas da estação, já causam estragos. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um idoso foi levado pela enxurrada de segunda-feira e está desaparecido. No Rio, ruas ficaram alagadas, causando transtornos aos cariocas que faziam compras na véspera de Natal. Em Petrópolis, quedas de barreiras deixaram 15 pessoas desalojadas. Esse fenômeno nada tem de excepcional. Mas não significa que as cidades brasileiras estejam preparadas para enfrentá-lo. De fato, não estão. A preocupação cresce à medida que 8,27 milhões de pessoas em todo o país moram em áreas sujeitas a inundações e deslizamentos, segundo constatou uma pesquisa realizada pelo IBGE em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Não é problema simples de ser equacionado, já que essa população ocupa 2,4 milhões de moradias — erguidas em encostas e fundos de vales — distribuídas por 872 municípios. De acordo com o levantamento, Salvador é a cidade com maior número de moradores em áreas de risco (1,3 milhão, ou quase 50% da população). No estado de São Paulo, estima-se que 1,5 milhão vivam em condições semelhantes; em Minas, 1,3 milhão e, no Rio de Janeiro, 865 mil.

Quase 20% das pessoas expostas são crianças de até 5 anos e idosos. A pesquisa foi feita com base em dados do Censo 2010 e de áreas mapeadas pelo Cemaden. Os números são um alerta importante numa época em que fenômenos extremos estão cada vez mais frequentes — e um dos obstáculos enfrentados para implantação de políticas públicas é justamente a falta de diagnósticos. No Estado do Rio, que tem um histórico de mortes causadas por deslizamentos de terra, o último mapeamento sobre áreas de risco feito pelo Departamento de Recursos Minerais (DRM) tem seis anos.

E, como mostrou reportagem do GLOBO, não faz referência ao Morro da Boa Esperança, em Piratininga, Niterói, onde, no dia 10 de novembro, 15 pessoas morreram em consequência do deslizamento de uma pedra. Mas, para além dos diagnósticos, as prefeituras, a quem cabe ordenar a ocupação do solo, precisam agir. O caminho que leva a tragédias como a de Piratininga é sedimentado por um misto de negligência e populismo. É notório que prefeituras costumam fazer vista grossa às construções em área de risco geológico. Não fosse isso, elas não se expandiriam tanto, como atestam pesquisas. Fingem estar beneficiando moradores. Em muitos casos, estão condenando essas pessoas à morte.

Legislativo critica Judiciário, mas transfere decisões

Avanço da judicialização e do ativismo dos juízes decorre da omissão dos outros Poderes

São recorrentes as críticas dos políticos à judicialização e ao ativismo judicial. Há razões objetivas, mas, primeiro, é preciso ponderar que o arranjo institucional contempla amplas possibilidades para socorro em juízo, como também permite um modo expansivo, proativo, dos juízes interpretarem a Constituição. São fenômenos recentes, no debate político nacional, as conotações negativas da judicialização e do ativismo, ou a falta de exercício de autocontenção do Judiciário. A censura tem permeado dois em cada três discursos feitos na Câmara e no Senado. É salutar a crítica parlamentar a iniciativas como a do Supremo Tribunal Federal quando legitimou a multiplicação de partidos — hoje são 35 com registro oficial, embora não se conheçam 35 ideologias. Da mesma forma, há coerência nos protestos contra a judicialização da saúde.

O óbvio, ululante, evita-se reconhecer: o avanço da judicialização e do ativismo dos juízes decorre da omissão dos outros Poderes. Caso exemplar é o da controvérsia sobre a prisão em segunda instância. O Judiciário por muito tempo adotou o princípio como válido. Na década passada, mudou o entendimento. Em outubro de 2016, voltou a legitimar a prisão de réus condenados após julgamento em colegiados. Desde o início deste ano há uma pressão relevante para que o Supremo julgue a questão pela quarta vez.

Agora a motivação é o nome na capa do processo: Luiz Inácio Lula da Silva, líder do PT, condenado a 12 anos e um mês de prisão por corrupção. Na semana passada, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, anunciou uma intervenção do novo Congresso, via emenda constitucional, para resolver a questão da prisão em segunda instância. Cabe perguntar: por que o Legislativo já não o fez? Cabe, ainda, arguir as razões pelas quais os partidos se tornaram plantonistas nos protocolos do Judiciário, usando-os em conflitos de toda natureza, inclusive em temas naturais, peculiares, regimentais e da prerrogativa da Câmara e do Senado. Como não existe vácuo em política, o espaço aberto pelo Legislativo acaba sendo ocupado pelos demais Poderes. Veja-se o caso do Orçamento da União.

Elaborá-lo e fiscalizá-lo é razão da existência, o que define o papel republicano do Legislativo — como exemplifica, com extremo zelo, o Congresso dos Estados Unidos. No caso brasileiro, os parlamentares se restringem ao carimbo na proposta do governo ou do Judiciário, com inserções episódicas, em geral patrimonialistas. Há pelo menos vinte anos debate-se o tópico dos supersalários na Justiça e no Ministério Público. Até hoje não houve uma decisão legislativa. Em boa medida, as críticas dos políticos à judicialização e ao ativismo judicial servem de biombo aos interesses de políticos e de partidos, que transferem o ônus das decisões a juízes dispostos ao protagonismo.

O Estado de S. Paulo

O que explica o otimismo da indústria

Consolidou-se, em dezembro, a expectativa favorável das empresas industriais observada em novembro, permitindo que 2019 comece com bons augúrios para o setor secundário da economia. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), apurado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), atingiu 63,8 pontos, bem acima da média histórica de 54,2 pontos e dos 58,3 pontos alcançados em dezembro de 2017. O levantamento da CNI revelou que melhoraram expressivamente as condições presentes da indústria, confirmando outras informações positivas divulgadas nos últimos dias, relativas aos serviços e ao comportamento do Produto Interno Bruto (PIB), avaliado pelo IBC-Br do Banco Central. O índice de condições atuais do Icei atingiu 53,5 pontos em dezembro, superior à marca de 50 pontos que separam os campos positivo e negativo.

Em outubro, esse índice acusava apenas 45,8 pontos, o que mostra a intensidade da recuperação em apenas dois meses. É possível que as perspectivas de maior liberalização da economia esperadas para 2019 estejam contribuindo para aumentar a confiança dos empresários industriais. A possibilidade de uma retomada mais forte da economia também parece estar presente nos indicadores da CNI. O comportamento mais positivo do Icei foi registrado no indicador de expectativas, que atingiu 68,9 pontos e é o maior desde abril de 2010. Em dezembro de 2017, esse índice registrava 61 pontos. A confiança cresceu em empresas de todos os portes, mas a evolução foi mais expressiva, em dezembro, nas pequenas e médias companhias. Nas grandes empresas, com maior grau de informação, o crescimento da confiança já era registrado.

Segundo nota da CNI, “a confiança aumentou sobretudo entre os empresários da indústria extrativa e da construção”. Esse é outro sinal positivo, pois a construção civil é forte geradora de emprego e responsável por parcela significativa da formação bruta de capital fixo (FBCF ou taxa de investimento). A confiança dos empresários cresceu em todo o País, liderada pela Região Sul (66,1 pontos). A menor pontuação (61,3 pontos) foi registrada no Nordeste. Se inflação e juros em queda já ajudavam a retomada da economia em geral e da indústria em particular, o aumento da confiança poderá confirmar um cenário mais promissor.

Distorções do Fundo Partidário

Desde 1996, o valor do dinheiro público destinado aos partidos políticos por meio do Fundo Partidário cresceu 460%, mostrou levantamento do Estado. Em 1996, o fundo distribuiu R$ 200 milhões, em valores corrigidos pelo IPCA. Em 2019, R$ 927,7 milhões serão destinados aos partidos políticos. Além de onerar os cofres públicos – consumindo recursos que deveriam ser usados em áreas realmente prioritárias –, o sistema de financiamento dos partidos com dinheiro público produz graves distorções na representação política. Os partidos são entidades privadas e devem ser sustentados com dinheiro privado, por meio de doações de pessoas físicas. O Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, conhecido como Fundo Partidário, foi criado pela Lei 4.740/1965, durante a ditadura militar, para financiar os custos administrativos das legendas.

Ele é abastecido principalmente com dotações orçamentárias, aprovadas pelo Congresso. Assim, quem determina os valores do Fundo Partidário são os próprios beneficiários desses valores, o que ajuda a explicar por que o volume de recursos tem crescido de forma tão acintosa desde a reforma eleitoral de 1995, quando se aprovou a Lei dos Partidos Políticos (Lei 9.096/1995). A existência do Fundo Partidário é um grande equívoco. São os cidadãos que devem voluntariamente financiar a atividade política. O Estado não deve ter esse papel e, quando ele o assume, causa muitos desequilíbrios. Se as atividades partidárias são sustentadas com recursos públicos, a representação política fica distorcida e o eleitor perde o seu necessário protagonismo no processo partidário.

Com dinheiro público alimentando seus caixas, as legendas não têm necessidade de estarem próximas do cidadão, seja para convencê-lo de suas propostas, seja para estimulá-lo a financiar suas causas. O que assegura a continuidade dos partidos deixa de ser a força das suas propostas ou a sua capacidade de entusiasmar pessoas com seus ideais. O decisivo para as legendas passa a ser a provisão de mais verbas no Orçamento do Estado. O financiamento público dos partidos também alimenta um dos mais graves problemas do sistema político brasileiro: o alto número de legendas. Além de produzir problemas sérios de governabilidade, a grande quantidade de siglas dificulta a representação política. Basta ver que, em 2019, a Câmara terá parlamentares de 30 legendas diferentes.

A maioria dos partidos não tem um conteúdo ideológico definido e tampouco propostas concretas de políticas públicas. Há um expressivo número de legendas amorfas, dedicadas exclusivamente a atuar como um balcão de negócios. E essa realidade tão nefasta é estimulada pelo próprio sistema eleitoral, com o Fundo Partidário distribuindo recursos públicos aos partidos e seus dirigentes. Em 1996, os cinco partidos com maior porcentual do Fundo representavam 82,7% do montante. Hoje, equivalem a 41%, num claro sintoma da pulverização partidária. Outro problema relacionado ao Fundo Partidário é o frágil controle dos recursos públicos destinados aos partidos. Responsável pela fiscalização de gastos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é lento em avaliar as prestações de contas, que frequentemente não cumprem os requisitos legais.

Em 2018, a Justiça eleitoral determinou que os partidos devolvessem aos cofres públicos R$ 13,3 milhões por força de irregularidades no uso dos recursos do Fundo Partidário em 2012. As irregularidades mais comuns encontradas pelo TSE foram a falta de documentos para comprovar gastos com hospedagem, passagens aéreas, assessoria e marketing e repasses a diretórios estaduais que estavam impedidos de receber cotas do Fundo Partidário. Eram problemas simples e a Justiça tardou seis anos em determinar a devolução. É um disparate continuar mantendo esse sistema, cada vez mais caro e com tantas distorções. Que a atividade política seja financiada pelo cidadão e que os recursos públicos sejam destinados às funções do Estado, não ao bolso dos dirigentes partidários.

Um novo ensino médio

O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, com 18 votos favoráveis e 2 abstenções, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio, que orienta a elaboração dos currículos das redes municipais, estaduais e federal de ensino, bem como das escolas particulares. Trata-se de mais um passo dado na implantação da reforma do ensino médio que o governo de Michel Temer propôs com a Medida Provisória (MP) 746/2016, depois convertida na Lei 13.415/17. Agora, a BNCC do ensino médio será encaminhada ao MEC para homologação. As bases do ensino infantil (zero a 5 anos) e do fundamental (6 a 14 anos) foram aprovadas no ano passado. Com cerca de 8 milhões de alunos, o ciclo do ensino médio é o mais problemático do sistema educacional brasileiro. Nos últimos 15 anos, os gastos públicos por aluno multiplicaram- se por quatro, mas as dificuldades persistem.

São altas as taxas de evasão escolar e baixos os índices de aprendizagem. De acordo com o Censo Escolar de 2016, um em cada quatro alunos do ensino médio tem mais de dois anos de atraso escolar. Esse ciclo de ensino é obrigatório por lei, mas 40% dos jovens brasileiros não conseguem completar as três séries. E, dos que as completam, dois terços terminam sem estarem preparados para a vida profissional. Apenas um terço dos estudantes que completam o ensino médio ingressa numa faculdade. Em vigor desde 1996, o formato atual do ensino médio está organizado com base num currículo único de preparação para o Enem e prevê 13 disciplinas obrigatórias, a maioria desconectada do cotidiano dos estudantes. Para superar essa limitação, o novo formato oferece aos estudantes a possibilidade de escolher uma área de concentração, entre cinco opções: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e formação técnica.

A oferta de alternativas de estudo adequadas aos diferentes interesses pessoais e condições sociais dos alunos representa importante inovação trazida pela reforma. Além disso, o novo formato centra forças em um núcleo comum de competências e conhecimentos. Com 1,8 mil horas, corresponde a 60% da carga horária do ciclo. A BNCC do ensino médio trata precisamente dessas disciplinas obrigatórias a todos os estudantes. Uma das críticas feitas à reforma do ensino médio é que Português e Matemática são as únicas disciplinas obrigatórias em todos os três anos do ciclo.

Outras matérias, como, por exemplo, História, Geografia e Química, não necessariamente estarão presentes ao longo dos três anos. Em relação à parte flexível, distribuída nas cinco áreas de concentração, a BNCC do ensino médio estabelece as aprendizagens essenciais, mas não os currículos, que deverão ser definidos por cada Estado, que terá a liberdade de decidir se adotará um modelo de ensino separado por disciplinas ou estruturado de modo interdisciplinar. Diante de realidades regionais tão díspares, essa descentralização faz sentido, ainda que também traga preocupações sobre a qualidade desse ensino nas diferentes regiões. A reforma prevê que cada município oferte ao menos duas das cinco áreas eletivas. Vale lembrar que 53% das cidades brasileiras têm apenas uma única escola de ensino médio.

Ao deixar de ter um currículo único, o novo formato de ensino médio exige mudanças na sistemática do Enem. O governo anunciou que, a partir de 2021, o segundo dia de prova deverá ser destinado a avaliar conhecimentos específicos da parte flexível do currículo. O texto aprovado pelo CNE incorporou melhorias em relação ao que foi proposto pelo MEC em abril. Por exemplo, a descrição das habilidades nas áreas de conhecimento ficou mais clara. O documento também prevê futuras revisões e aperfeiçoamentos. O desafio agora é a sua efetiva implantação. Com urgência, o Brasil precisa de um ensino médio revigorado. Os atuais índices de aprendizado e de evasão escolar desse ciclo de ensino estão entre os principais entraves ao desenvolvimento econômico e social do País.

Justiça que tarda falha

A ideia de uma Justiça lenta, arrastada, procrastinada está consolidada no imaginário da sociedade brasileira. Não sem razão. Longe de ser uma percepção infundada, fruto de má vontade prévia dos cidadãos em relação ao Poder Judiciário, trata- se de um sentimento popular instalado a partir de uma sucessão de fatos que vêm de muitos anos. As causas desse mal são muitas. Vão desde o emaranhado de possibilidades recursais previstas no ordenamento jurídico, que podem fazer um processo tramitar por gerações, até a carência e a ineficiência de servidores da Justiça. A experiência pessoal dos cidadãos que se veem às voltas com os tribunais, em qualquer dos polos da ação, e casos emblemáticos, sem explicações plausíveis para a demora no julgamento, minam a confiança que deve emanar do Poder Judiciário como guardião dos direitos e garantias individuais e coletivos.

Um desses casos inexplicáveis que sedimentam no inconsciente coletivo da Nação a ideia de um Judiciário paquidérmico acaba de ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Para ter uma ideia do absurdo, uma das autoras do processo em questão chamava- se Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon d’Orléans, a princesa que no dia 13 de maio de 1888 assinou a lei que pôs um ponto final na indignidade da escravidão no Brasil. No dia 6/12, a Quarta Turma do STJ decidiu, por unanimidade, que a sede do governo do Rio de Janeiro, o Palácio Guanabara, pertence à União. O imóvel era um dos objetos de disputa tratados nesta que é uma das mais antigas ações em tramitação no País. Em 1895, a família Orléans e Bragança entrou com ação na Justiça para obter a devolução do Palácio Guanabara ou ser indenizada pela tomada do imóvel após a Proclamação da República.

Na discussão de fundo, estava a dúvida se o palácio estava incluído entre os bens privados da família imperial ou se era um bem público destinado apenas à moradia, finalidade que teria perdido após a queda da monarquia. Os herdeiros da família imperial argumentam na ação que a princesa Isabel e seu marido, o conde d’Eu, detinham “direito de propriedade plena” do palácio, que fora adquirido com o dote do casamento da princesa, depois incorporado ao Tesouro Nacional. Márcia Dantas, advogada da União, sustentou que a família imperial gozava apenas do direito de habitar o imóvel, direito que, em sua visão, foi extinto com a mudança do regime. “Com a República, o soberano da Nação, dono de tudo, deixou de existir. Não há que se falar em direitos próprios de uma forma de governo.

Cessada a monarquia, cessam os seus direitos”, disse. A tese da advogada da União foi acolhida pelos ministros Antônio Carlos Ferreira, Raul Araújo, Isabel Gallotti e Marco Buzzi. O Decreto n.º 447 de 18 de julho de 1891, assinado pelo então presidente da República Manoel Deodoro da Fonseca, incorporou ao patrimônio da União “todos os bens que constituiam o dote ou patrimonio concedido por actos do extincto regimen á ex-princeza imperial D. Isabel, Condessa d’Eu”. Custa crer que um processo precisou levar 123 anos para que se chegasse à conclusão de que valia o que estava escrito – em português antigo, porém inteligível – em um decreto editado no alvor da República.

No decorrer de todos esses anos de tramitação – o processo chegou a ser declarado extinto na década de 1960, decisão que foi revista posteriormente –, a ação movida pela família imperial passou por diversas instâncias, com reviravoltas processuais que serviriam como ótimo entretenimento no campo da literatura ou do cinema, mas na realidade só serviram para alimentar o desalento diante da kafkiana confusão para dar fim, em 2018, a um processo do final do século 19. E que não se animem os apressados. Este fim ainda pode demorar um tanto mais. Cabem recursos.

Folha de S. Paulo

A versão de Queiroz

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro rompe o silêncio depois de 20 dias, mas as explicações para sua movimentação financeira ainda são insatisfatórias

No final da década de 1980, o ilustrador britânico Martin Handford deu início a uma série de livros que se tornou sucesso em diversos países. Nos volumes, voltados para o público infanto-juvenil e intitulados “Onde está Wally?”, o leitor é desafiado a localizar o personagem em ilustrações que reúnem um emaranhado de situações e tipos.

A brincadeira ganhou nas últimas semanas uma versão brasileira. A diferença é que a pergunta se referia ao desaparecimento de uma pessoa real, envolvida num episódio com implicações relevantes para a política nacional.

Trata-se do policial militar Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do deputado estadual e futuro senador Flávio Bolsonaro (PSURJ), filho do presidente eleito.

Na sexta-feira (21), pela segunda vez, ele deixou de se apresentar para depoimento agendado pelo Ministério Público, com vistas a colher explicações para o fato de ter movimentado em sua conta bancária, ao longo de um ano, R$ 1,2 milhão — quantia aparentemente incompatível com sua renda.

As operações foram identificadas em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) vinculado a um desdobramento da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. Entre saques e depósitos em dinheiro, transferências e cheques, Queiroz destinou R$ 24 mil para a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Desde que o caso veio à tona, assistiu-se a um espetáculo de evasivas e explicações pouco convincentes por parte dos Bolsonaros. O presidente eleito disse ter emprestado R$ 40 mil ao ex-assessor, seu amigo e companheiro de pescaria. O filho garante que ouviu do policial uma versão convincente, mas prefere deixar que ele a exponha.

Levantou-se a hipótese de que Queiroz fosse o responsável por recolher parcelas dos salários dos funcionários do gabinete — expediente nada incomum no Legislativo.

Para justificar o sumiço do policial militar, os advogados de defesa afirmaram que ele foi acometido por um grave problema de saúde e precisou ser submetido a um procedimento invasivo, mas não apresentaram provas documentais.

Nesta quarta-feira (26), 20 dias depois de o caso ter sido revelado, foi ao ar na rede de televisão SBT uma entrevista na qual Queiroz declara que suas movimentações devem-se a negócios que sempre costumou fazer, em particular a compra e venda de automóveis. Não se sabe exatamente onde e quando a conversa foi gravada.

Sobre seu estado de saúde, ele disse que foi diagnosticado com um câncer, mas que ainda será submetido em breve a uma cirurgia.

O ex-assessor assegurou na entrevista que pretende contar sua versão ao Ministério Público e explicar todas as transações que foram detectadas pelo Coaf. É de se perguntar por que não o fez até agora.

Espera-se que as autoridades localizem o suspeito e elucidem o quanto antes esse caso.

Saída inglória

Passada a zero hora do dia 1°, uma outra contagem regressiva começará para os britânicos, com pouco ou nenhum motivo para festejo quando esta chegar ao fim. Faltarão menos de três meses para a data-limite em que o Reino Unido deixará de fazer parte da União Européia, e as incertezas sobre o que virá depois disso se avolumam.

Não são pequenas as chances de que, em 29 de março de 2019 — o dia do “brexit”, como é chamada a saída do bloco —, o país não tenha aprovado um plano com os termos da retirada, condição básica para reger a relação futura com os demais integrantes da UE.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, assumiu o cargo justamente para cumprir essa tarefa. Era julho de 2016, menos de um mês após um plebiscito selar a separação britânica, com o surpreendente voto de 52% dos eleitores.

Ao longo desses quase dois anos e meio, a governante decerto esforçou-se diante de tal incumbência. Inevitável reconhecer, porém, que ela está muito próxima de um fracasso, isto é, de haver um “brexit” sem nenhum acordo firmado com os negociadores europeus.

Estes, diga-se, tentaram ao máximo contribuir com May. Chegou-se até a um acerto entre as partes,anunciado em novembro. Entretanto a governante não se provou capaz, ao menos por ora, de convencer os próprios correligionários do Partido Conservador de que se tratava da melhor proposta para os interesses do país.

Ciente de que não dispunha do apoio necessário de sua base para aprovar o texto no Parlamento, May se viu obrigada a adiar uma votação que ocorreria no último dia 11. A sessão deve ter lugar na segunda quinzena de janeiro, mas o quadro mantém-se desanimador.

Em verdade, a mandatária tem falhado no intuito de se equilibrar entre o anseio por um desligamento completo da UE — posição comum a uma expressiva parcela dos conservadores — e a busca por suavizar as desvantagens que os britânicos enfrentarão na seara comercial uma vez fora do bloco.

Se não houver mesmo um entendimento com o Legislativo até o dia do divórcio, entraria em vigor uma união aduaneira entre o Reino Unido e os outros países -membros, de caráter provisório.

Seria uma maneira, em teoria, de May ter mais tempo para articulações internas. Isso, claro, se a primeira-ministra ainda reunir capital político para continuar em sua inglória empreitada.

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