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Miriam Leitão: Crônica de Natal nada econômica

Foi um ano daqueles. Daqueles, quais? Não há equivalentes à vista. A sociedade se dividiu como em nenhuma outra vez. A briga continua e, em muitos casos, invadiu a ceia de Natal. Muitos não souberam onde pôr as desavenças e rancores numa noite que era para ser “feliz”. Estamos como nunca precisando de alguma trégua. De minha parte, neste espaço, quero deixar de lado, neste dia 25, os assuntos econômicos e políticos e falar de sentimentos.

Acho que o caminho para encontrarmos alguma paz nestes dias está em pensar no permanente, em vez de considerar que as fraturas de 2018 jamais cicatrizarão. O permanente são os carinhos, os gestos de amizade, as alegrias vividas que ataram os laços que nos unem aos amigos e familiares. Se, ao lado das festas de fim de ano, estivermos pensando apenas no conflito em torno das urnas estaremos eternizando a divisão entre vencedores e vencidos.

Difícil o silêncio sobre temas polêmicos quando tudo parece controverso. Até um assunto inocente pode ser estopim. Imagine que alguém fale, em qualquer reunião de família, por estes dias, que o clima parece louco. Isso é só uma constatação fática, mas pode ser o começo da discussão sobre afinal qual vai ser o rumo das políticas ambientais. Há quem, no novo governo, não acredite em mudança climática e no Acordo de Paris.

Portanto, a chuva repentina ou o calor inusitado, como se vê, podem ser combustível para reacender o fogo que não quer apagar das discussões apaixonadas entre o bem e o mal, cada um achando que o seu lado é o primeiro, e, o segundo, o melhor adjetivo para definir os adversários.

Se surgir algo assim tão incandescente quanto uma conversa sobre o clima, que alguém lembre rapidamente das tragédias que não temos, como terremotos, vulcões e esse terrível tsunami da Indonésia, que chegou sorrateiro e inexplicável destruindo centenas de vidas. Que Natal terrível estão tendo os indonésios.

Se alguém falar que precisamos investir em educação, isso também poderá gerar polêmica. Em épocas normais, o tema seria gerador de consensos. É incontroverso o papel da educação no desenvolvimento de qualquer povo. Mas, desta vez, alguém poderá perguntar: “escola com partido ou sem partido?”. Isso será suficiente para azedar completamente a reunião, como podem imaginar. Tudo virou terreno minado.

Que ninguém fale de aposentadoria. Esse é assunto no qual estamos atolados há anos, e é uma divisão muito anterior à atual. Alguns dizem que o déficit nem existe, outros que ele nos engolirá. Neste caso, contudo, há adversários da reforma entre os vencedores eleitorais e isso é um problema que eles precisam resolver internamente. Não falarei como, porque esta não é uma coluna de economia.Ela está ainda imbuída de espírito natalino, torcendo para que não haja qualquer dissabor no tradicional almoço de 25 de dezembro.

Falei parágrafos acima que devíamos buscar o permanente. Mas o que é ele? O momento atual parece tão premente e agigantado que nubla os olhos, apaga os antecedentes e descrê do por vir. Temos brigado no Brasil como se não houvesse ontem nem amanhã. Só o hoje. Tórrido, intolerante, triste. Por que estamos assim e até quando suportaremos a distância entre nós?

Estamos assim porque aos vencedores não bastou a vitória, eles querem a unanimidade e, aos vencidos, não tem sido possível superar a amargura da derrota. Estamos numa armadilha, mas temos que reencontrar os fios e com eles tecer outro momento das velhas relações.

Mães, pais e filhos, irmãos e primos, amigos do colégio brigaram em público. Ficou visível no Facebook. O Twitter também entrou no conflito, mas é briga de rua, no qual vaca desconhece bezerro e ninguém é de ninguém. No Instagram as pessoas estão vivendo “stories”. No WhatsApp muita gente saiu dos grupos, batendo aporta. As redes virtuais apenas contaram que, na vida real, alinha que separa as pessoas rasgou o álbum de família e as fotos dos amigos. Cada casa, cada grupo, terá que reencontrar seu centro.

Meus votos são para que nos apartemos do que nos dividiu e procuremos o sentido mais profundo daquilo que um dia nos ligou aos que amamos. Uma trégua será boa como um mergulho no mar, o aconchego de um abraço na tristeza, o brinde nas alegrias. Feliz Natal. (O Globo – 25/12/18)

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