CIDADANIA23

PORTAL NACIONAL

Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (21/12/2018)

MANCHETES

O Globo

Equipe de Bolsonaro quer desonerar folha de pagamentos
Osmar Terra propõe limite para venda de álcool

O Estado de S. Paulo

Agronegócio terá ‘licença ambiental automática’
Criação de vagas de trabalho tem melhor novembro desde 2010
Embaixador francês ironiza Jair Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Dívidas das famílias tiram R$ 30 bilhões da economia
Temer enfrentará mais investigações ao deixar o cargo
Gestor que assumirá Secretaria de Cultura estuda a Lei Rouanet

EDITORIAIS

O Globo

Ministros têm de defender a imagem do STF

Liminares concedidas por Marco Aurélio e Lewandoswski arranham o Poder Judiciário

Sabe-se qual a relevância de um Poder Judiciário respeitado ao se dar um balanço do protagonismo da Justiça nestes 30 anos de redemocratização, destacando-se o papel-chave, junto com o Ministério Público, que tem exercido neste ciclo histórico de enfrentamento pelo Estado brasileiro da corrupção instalada nas altas esferas públicas, por empresários e políticos poderosos.

Isso tem dado uma essencial segurança jurídica ao país. Daí ser deplorável que se volte a testemunhar a ação de ministros do Supremo, valendo-se do início do recesso da Justiça, para tomar decisões individuais, ou monocráticas, no jargão togado, em assuntos controvertidos que necessitariam ser levados ao escrutínio do plenário da Corte.

Esta pegadinha jurídica—sem discutir que tipo de interesse se move por trás de cada liminar solitária concedida —visa a tornar fato consumado veredictos no mínimo polêmicos, salvo recursos impetrados no plantão da Corte, que pode ser exercido pelo seu presidente.

No caso, Antonio Dias Toffoli, responsável por atender ao pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e derrubar de liberação de Marco Aurélio Mello para que fossem soltos todos os presos em cumprimento de pena confirmada na segunda instância, a não ser os que se encontravam em prisão preventiva.

O ministro assinou a determinação na quarta, pouco antes do início do recesso, depois de almoço de confraternização dos magistrados do Supremo, durante o qual não tocou no assunto. Não merece comentários.

A magnanimidade de Marco Aurélio beneficiaria 169 mil presos sem sentença definitiva e, entre eles, o ex-presidente Lula. Um golpe não apenas na Lava-Jato, mas na esperança que a sociedade passou a ter na possibilidade de afinal o Brasil virar uma República de fato, em que a lei vale mesmo para todos. Sabe-se que há tempos o ministro tenta que a Corte rediscuta esta jurisprudência, aprovada em 2016, depois de ter sido aplicada de 1941 a 1973, quando a ditadura militar aprovou no Congresso a “Lei Fleury”, que permitia a réu primário e de bons antecedentes recorrer em liberdade.

Foi para beneficiar o policial Sérgio Paranhos Fleury, listado como torturador, processado e condenado por fazer parte de um esquadrão da morte. Depois, a Constituição de 1988 restabeleceu o correto princípio de 1941. É certo que Marco Aurélio deveria esperar a sessão de 10 de abril, quando, segundo agenda definida por Dias Toffoli, o plenário da Corte enfrentará a questão.

Importa ficar claro para todos os ministros —como Ricardo Lewandowski, que acaba de usar o mesmo artifício para garantir um aumento aos servidores federais no ano que vem, apesar da crise fiscal —que estas atitudes solapam a legitimidade do Judiciário. O que não deve interessar a ninguém em um momento de divisões na sociedade, causa de conflitos a serem levados ao Judiciário. Chega a ser antidemocrático.

Queda nos índices de violência reflete trabalho da intervenção

Legado deixado por militares, sobretudo no que diz respeito à integração, precisa ser mantido

Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) na última terça-feira mostram queda consistente nos índices de criminalidade. Em novembro, o número de assassinatos caiu 18% no estado. Foi a quarta queda consecutiva. Para se ter ideia do que isso representa, foram 81 mortes a menos em comparação com o mesmo período do ano passado (374 contra 455) e a menor marca para o mês nos últimos três anos.

A redução atinge também outros tipos de crime. A letalidade violenta (que reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e autos de resistência) cedeu 13% em relação a novembro do ano passado. Essa queda poderia ser ainda maior se os autos de resistência não tivessem subido 7% frente ao mesmo mês de 2017. Os roubos de carga, que andaram batendo recordes históricos no Rio este ano, registraram diminuição de 23%.

Pode-se argumentar que os índices ainda são muito altos, o que é verdade, e que alguns tipos de crime, como os autos de resistência, não acompanham a tendência de queda — nos últimos três meses, houve um aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano passado. Mas há que se considerar que, no início do ano, todos esses índices estavam em disparada. Por isso, conter a ascensão já é algo relevante.

Essas quedas nos índices de violência são resultado do trabalho realizado pela intervenção federal, decretada em fevereiro, logo após o carnaval, num momento em que o estado vivia situação de descontrole na área de segurança.

Desde o início, os interventores deixaram claro que não adotariam medidas mirabolantes para reverter os altos índices de violência. Fizeram o essencial. Como recompor a tropa, convocando, por exemplo, policiais cedidos a outros órgãos, e recuperar a frota das polícias — metade dos carros da PM estava fora de operação. Deram ênfase à integração entre as forças de segurança, não só na inteligência, mas também na realização de ações conjuntas. Paralelamente, o estado voltou a pagar horas extras aos policiais, o que permitiu ampliar o patrulhamento ostensivo.

É esse legado que precisa ser preservado, para que tenha continuidade no futuro governo de Wilson Witzel (PSC), quando a intervenção já terá acabado. O governador eleito anunciou que acabará com a Secretaria de Segurança, mas a certa ao manter uma estrutura provisória por seis meses, tempo em que poderá conhecer melhor a dinâmica de todo o aparato de segurança. A intervenção federal, que acaba em 31 de dezembro, deixa um aprendizado. É possível colher resultados sem medidas espalhafatosas, fazendo apenas o dever de casa.

O Estado de S. Paulo

PIB cresce mais comparado a 2017, diz a FGV

Embora os resultados de outubro não possam ser considerados bons, o mesmo não se aplica à comparação entre o Produto Interno Bruto (PIB) de 2017 e de 2018, segundo o Monitor do PIBFGV, publicação mensal do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “A comparação interanual mostra que há um crescimento consistente desde maio de 2017 de 1,4% ao mês em média, com a única variação negativa em maio de 2018 em razão da greve dos caminhoneiros”, disse o coordenador do estudo, economista Claudio Considera. Na comparação com igual mês de 2017, o grande destaque foi o crescimento de 12,6% da agropecuária.

Os transportes avançaram 3,4%, os serviços imobiliários tiveram aumento de 3,3% e o segmento extrativo mineral cresceu 3%. Por igual critério de comparação, a construção caiu 0,6%, os impostos cederam 0,4% e os serviços de informação recuaram 0,2%. Pelo critério de evolução do PIB no trimestre móvel, o aumento foi de 1,2%. A alta atinge 1,7% quando se compara outubro de 2017 com outubro de 2018. É um bom indicador, embora tivesse atingido 3,5% em abril, melhor mês de 2018 e anterior à greve no transporte.

O consumo das famílias caiu entre os meses de maio, junho e julho e depois se recuperou, influenciado pelo consumo de bens duráveis, em especial de veículos. O que se destaca como elemento determinante das oscilações do PIB é a dependência exagerada do transporte rodoviário, que determina a queda de maio. Um dos únicos componentes da demanda agregada que cresceu sem interrupção desde outubro de 2017, pelo critério de trimestre móvel, é a formação bruta de capital fixo, mas o ritmo de alta foi mais forte por causa da importação de máquinas e equipamentos, alavancada pelo alto valor das plataformas de petróleo, em que houve mudanças dos critérios de aferição de dados.

O resultado menos animador do estudo diz respeito à relação entre a taxa de investimento e o PIB verificada nas últimas duas décadas. Entre janeiro de 2000, quando atingiu 18,3%, e outubro de 2018, quando essa taxa foi avaliada em 18,2% pela FGV, a relação pouco variou. Ou seja, o Brasil patina no que diz respeito à formação bruta de capital fixo. Sem que essa relação suba para algo como 25%, o crescimento futuro da economia continuará comprometido.

Deboche no Supremo

Chega a ser tedioso ter de reafirmar o óbvio, mas não há democracia sem segurança jurídica. Um dos pilares dessa segurança é a jurisprudência assentada pelos tribunais superiores, que serve de referência para a interpretação das leis. Por esse motivo, a jurisprudência não pode ser questionada a todo instante, muito menos atropelada pela vontade individual de algum magistrado, sob pena de transformar o sistema judiciário do País numa loteria. No limite, quando esse sistema envereda pelo caminho da imprevisibilidade, falha em sua tarefa de alcançar a pacificação social e ameaça até mesmo a manutenção do Estado Democrático de Direito.

Assim, a vergonhosa aventura protagonizada na quarta-feira passada pelo ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal, ao conceder intempestiva liminar para suspender a possibilidade do início da execução penal após condenação em segunda instância, constituiu gravíssimo atentado ao princípio da segurança jurídica. De quebra, deixou o País intranquilo diante da perspectiva de que, a partir da canetada de um ministro do Supremo, o ex-presidente Lula da Silva pudesse ser libertado, situação que certamente causaria tumulto e confusão, ainda mais às vésperas da posse do presidente Jair Bolsonaro.

Como se sabe, existe jurisprudência firmada desde 2016, quando o plenário do Supremo decidiu, a partir do julgamento de um habeas corpus, que um réu condenado por órgão colegiado em segunda instância poderia começar a cumprir imediatamente a pena. Considerou-se que, nessa situação, não há mais por que se falar em presunção de inocência, pois a culpabilidade do réu já está devidamente assentada. É o que acontece na maioria dos países civilizados.

No entanto, desde a prisão do sr. Lula da Silva, em abril, o Supremo passou a ser pressionado a recuar. Ora, é evidente que a prisão do sr. Lula da Silva, malgrado seu evidente impacto político, não constituiu, do ponto de vista jurídico, um fato novo que justificasse uma eventual mudança de jurisprudência. Por essa razão, quando julgou pedido de habeas corpus em favor de Lula logo após a prisão, o Supremo manteve o entendimento em vigor desde 2016.

Naquela ocasião, contudo, os ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, que foram votos vencidos, manobraram para tentar forçar o Supremo a pautar uma revisão da jurisprudência. Como a então presidente do Supremo, Cármen Lúcia, negou-se a corroborar a tramoia, passou a ser alvo de grosserias do ministro Marco Aurélio. O mesmo aconteceu com a ministra Rosa Weber, que igualmente rejeitou a tese que favoreceria Lula. “Compreendido o tribunal como instituição, a simples mudança de composição não constitui fator suficiente para mudar jurisprudência”, explicou a ministra Rosa Weber para seus furibundos colegas.

Aparentemente inconformado com a derrota, o ministro Marco Aurélio apelou então para a decisão monocrática – que, se levada a efeito, libertaria dezenas de milhares de presos, entre eles o sr. Lula da Silva. O ministro esperou até a véspera do recesso do Judiciário para se manifestar, tentando evitar assim que o colegiado se reunisse para julgar o mérito de sua liminar ainda neste ano. Alegou que o fazia porque precisava reagir à “manipulação da pauta” do Supremo, uma vez que o atual presidente, Dias Toffoli, havia marcado uma nova análise desse tema somente para abril do ano que vem. O próprio Toffoli, como esperado, cassou a liminar de Marco Aurélio.

Em seu despacho, o ministro Marco Aurélio escreveu que a segurança jurídica “pressupõe a supremacia não de maioria eventual (…), mas da Constituição”. Depreende-se então que, para esse magistrado, a jurisprudência formada por decisão colegiada da qual ele discorda simplesmente não vale. E o ministro Marco Aurélio aproveitou para destratar seus colegas de Supremo, acusando-os de desrespeitar a ordem jurídico-constitucional: “Que cada qual faça a sua parte, com desassombro, com pureza d”alma, segundo ciência e consciência possuídas”, escreveu o ministro. E acrescentou, quase como um deboche: “Tempos estranhos os vivenciados nesta sofrida República!”. De fato: tempos estranhos.

Corrupção na polícia

Policiais corruptos constituem um problema particularmente grave. Afinal, são pessoas que usam em proveito próprio as armas, o treinamento e a autoridade que a sociedade lhes dá para protegê-la. A situação fica pior quando atinge as dimensões do caso que acaba de levar à prisão 54 policiais do 22.º Batalhão da Polícia Militar (PM) de São Paulo, na zona sul da capital. O crime se enquistou profundamente no interior de uma unidade policial encarregada de manter a lei e a ordem. Por isso, as autoridades devem tratar esse caso com cuidado especial, para que os culpados sejam exemplarmente punidos e se evite que o mal se espalhe ainda mais.

Os PMs presos exigiam de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), naquela região, propina avulsa e em forma de mesada para devolver drogas apreendidas dos bandidos, soltar comparsas de traficantes, avisá-los quando haveria batidas nos pontos de venda. Chegavam até a intervir em acertos de contas entre bandos rivais. Não admira que aos meliantes fardados tenham sido imputados oito tipos diferentes de crimes: corrupção, concussão, falsidade ideológica, violação de sigilo profissional, associação para o tráfico, peculato, prevaricação e organização criminosa. Um verdadeiro passeio pelo Código Penal, digno de tarimbados bandidos. Entre os presos não há oficiais, mas 1 subtenente, 7 sargentos, 13 cabos e 33 soldados.

Depois, foram decretadas mais 5 prisões preventivas, chegando a 59 o total de mandados expedidos pelo juiz Ronaldo João Roth. Ele também expediu 70 mandados de busca e apreensão em 19 municípios de 3 Estados – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais –, ampliando a dimensão da operação, que em São Paulo foi executada por 450 PMs acompanhados por promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A investigação da Corregedoria da PM foi minuciosa, feita com base na análise de 82 mil ligações telefônicas e no monitoramento da entrega de dinheiro dos bandidos aos policiais, o que mostra que o comando da instituição parece determinado a combater com rigor a corrupção em seus quadros.

Os exemplos citados em reportagem do Estado mostram como naquela unidade da PM a corrupção se alastrou. Os valores variavam de R$ 300 a R$ 10 mil. Em troca de até R$ 1,5 mil fixo, além de pagamentos extras, policiais corruptos deixavam funcionar normalmente pontos de droga de um traficante ligado ao PCC. Noutro caso, a negociação da propina começou em R$ 50 mil e terminou em R$ 4 mil. O despudor chegou a tal ponto que policiais recebiam a incumbência de prender rivais dos bandidos “amigos”, como se fossem simples capangas, só que dispondo do poder de agentes do Estado.

Embora seja tranquilizador constatar que a própria PM demonstra ter condições de reagir à deterioração de seus próprios quadros e, juntamente com o Ministério Público e a Justiça, processar e punir os culpados, o caso é um grave sinal de alerta. Em todo o mundo, mesmo nos países mais ricos e bem organizados, a corrupção é um mal que ronda permanentemente as polícias, o que ficou ainda pior com a expansão do narcotráfico, um tipo de crime particularmente poderoso do ponto de vista financeiro.

No Brasil, poucos são os Estados que têm conseguido evitar que a corrupção se alastre nos sistemas policial e penitenciário. São Paulo, apesar dos pesares, apresenta uma situação melhor que a média do País. O Estado progrediu muito no combate ao crime e não pode perder essa conquista. É preciso preservá- la a todo custo e fazer cada vez mais, não apenas por esse ser um exemplo a inspirar outros Estados, como principalmente porque o policial que se torna bandido é pior do que o bandido comum.

É especialmente revoltante que uma pessoa que a sociedade arma e paga com o dinheiro de seus impostos para defendê- la se aproveite desse privilégio para cometer uma coleção de crimes como aqueles de que foram acusados os policiais corruptos do 22.º Batalhão da PM. O dramático exemplo de outros Estados, onde se fez vista grossa à corrupção policial, é uma advertência a São Paulo.

Sanção indevida

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no exercício da Presidência da República, sancionou a Lei Complementar 164/2018, que afrouxou importantes restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF, Lei Complementar 101/2000). Em razão de representar claro estímulo a uma gestão menos responsável dos recursos públicos, o projeto de lei merecia o veto presidencial, e não a sanção. No entanto, em sua breve e interina passagem pela cadeira presidencial, Rodrigo Maia fez questão de envolver diretamente seu nome na instauração de uma medida que deixa o País ainda mais distante das reformas de que tanto precisa. A sanção da Lei Complementar 164/2018 foi um evidente retrocesso.

Em cumprimento ao disposto na Constituição de 1988, a LRF estabelece para União, Estados e municípios determinados limites para as despesas com pessoal. No caso das prefeituras, a despesa total com pessoal não pode exceder 60% da receita corrente líquida. Além disso, o art. 20 da LRF fixa que a repartição desse limite, na esfera municipal, não poderá exceder 6% para o Legislativo e 54% para o Executivo. No caso de descumprimento desses porcentuais, tanto a Constituição de 1988 como a Lei Complementar 101/2000 preveem algumas importantes providências e restrições.

A Carta Magna determina, por exemplo, que, uma vez ultrapassado o limite com pessoal, o ente federado deve reduzir as despesas com cargos em comissão e funções de confiança em pelo menos 20% e exonerar os servidores não estáveis. Em relação à primeira providência, a LRF especifica que “o objetivo poderá ser alcançado tanto pela extinção de cargos e funções quanto pela redução dos valores a eles atribuídos”.

Caso não sejam reduzidas as despesas nos dois quadrimestres seguintes, e enquanto perdurarem os gastos acima do limite, a LRF proíbe que o ente federado receba transferências voluntárias da União, obtenha garantia de outro ente federado e contrate operações de crédito “ressalvadas as destinadas ao refinanciamento da dívida mobiliária e as que visem à redução das despesas com pessoal”.

A previsão dessas restrições é essencial para que Estados e municípios respeitem os limites impostos para as despesas de pessoas, que foram e continuam sendo ponto de especial vulnerabilidade para o bom estado das contas públicas.

No entanto, a Lei Complementar 164/2018 – aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente em exercício Rodrigo Maia – abranda precisamente essas penas, que não serão mais aplicadas aos municípios que tiverem queda de receita real superior a 10% em função da diminuição tanto das transferências recebidas do Fundo de Participação dos Municípios decorrente de concessão de isenções tributárias pela União como das receitas recebidas de royalties e participações especiais. Estima-se que um terço dos municípios se enquadra na situação descrita na nova lei.

A nova redação da LRF exige menor responsabilidade fiscal dos municípios que passam por dificuldades de receitas, quando deveria ser justamente o contrário. A prefeitura que sofreu alguma significativa baixa na sua receita deveria ser ainda mais meticulosa a respeito do que gasta e de como gasta. O Congresso ignora, no entanto, essa regra lógica, como se fosse possível, nessas situações, abrir mão da responsabilidade fiscal. A lei até pode exigir menos, mas as consequências nefastas do desequilíbrio fiscal continuam existindo. A função do ordenamento jurídico é precisamente definir limites e impor penas a quem ultrapassa tais limites, de forma a proteger o interesse público.

A Constituição é expressa a respeito da importância de que sejam respeitados os limites com as despesas de pessoal. Projetos de lei que têm manifesta finalidade contrária merecem, portanto, o veto presidencial. Não foi a primeira vez que o deputado Rodrigo Maia ficou aquém da responsabilidade que recaiu sobre seus ombros.

Folha de S. Paulo

A faca e o Sistema S

Há motivos para rever financiamento de entidades, como quer futuro ministro, mas de modo gradual; novo governo abre frentes de batalha em demasia

A equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), estuda, além de uma reforma previdenciária, um plano ambicioso de privatização e um redesenho da cobrança de impostos que tem provocado celeuma até mesmo no empresariado.

A controvérsia mais recente se dá em torno das contribuições obrigatórias —tributos, na prática— para o chamado Sistema S, que reúne entidades de serviço social e qualificação profissional como Sesi, Sesc, Senai e Senac, para citar algumas das mais conhecidas.

0 futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou a intenção de “meter a faca” nesse gravame, incidente sobre as folhas de salários. Desagradou, como seria de imaginar, às federações e confederações patronais responsáveis pela gestão dos recursos, com os quais também se financiam.

Na ausência dessa espécie de imposto sindical, as ações do Sistema S teriam de ser bancadas por aportes voluntários das empresas. Existem boas razões a amparar tal objetivo. 0 processo para atingi-lo, entretanto, não se mostra simples.

O modelo em questão é resquício de um velho padrão corporativista de relacionamento entre Estado e setor privado no Brasil. Começou a ser criado nos anos 1940, sob Getúlio Vargas, a fim de financiar a educação técnica, quase inexistente. Expandiu-se de modo notável, mas constitui um anacronismo.

Passou o tempo de recorrer a tal artifício extravagante para financiar escolas, pois atualmente existe oferta de ensino público e privado. Representações sindicais, por sua vez, devem ser mantidas diretamente pelos interessados, como j á indica a reforma trabalhista aprovada em 2017.

Com receita anual de cerca de R$ 200 bilhões, o Sistema S também apresenta vícios como aprestação de contas deficiente e a perpetuação de dirigentes.

No entanto o mesmo aparato oferece serviços relevantes —e, em geral, de boa qualidade— nas áreas de assistência social, lazer e atividades culturais. O corte súbito das verbas provavelmente afetaria milhões de brasileiros.

Convém, pois, estudar um programa gradual de privatização das entidades, que se faça acompanhar de transparência na gestão dos recursos compulsórios que recebam.

Como qualquer tributo, as contribuições que as sustentam têm impacto sobre a eficiência econômica —no caso, encarecem a contratação de mão de obra. Seus benefícios, porém, não são de usufruto geral. Cumpre deixar tais custos mais evidentes para a sociedade.

Ao governo Bolsonaro caberá definir prioridades e uma estratégia política para fazer avançar as medidas urgentes, como a reforma previdenciária. Por ora, o presidente eleito e seus auxiliares parecem dispersar energias ao abrir muitas frentes de conflito simultâneas.

Fim da linha

Fiel ao estilo de tomar decisões abruptas, não raro em descompasso com assessores próximos, Donald Trump anunciou na quarta-feira (19) a retirada, em até 30 dias, dos cerca de 2.000 militares americanos na Síria. Segundo o presidente, a milícia terrorista Estado Islâmico foi derrotada, e não há mais por que permanecer no p ais.

Não se trata propriamente de uma surpresa, pois Trump prometera em campanha desengajar-se desse conflito e, em abril último, disse que o faria em breve.

À época, porém, o Pentágono o demoveu da ideia, sob o argumento de que a missão em solo sírio não estava concluída. Até dias atrás, autoridades que aconselham a Presidência nesse campo mantinham tal entendimento, o que se provou insuficiente para convencer o chefe a lhes dar mais tempo.

É fato inconteste que o Estado Islâmico perdeu quase todo o território conquistado na Síria e no Iraque desde que assombrou o mundo com a auto proclamação de um califado, em 2014. As principais cidades sob jugo da facção foram retomadas depois disso.

Entretanto soa precipitado falar em derrotapor completo do EI. Há focos de resistência, embora muito reduzidos em área, e relatórios do próprio governo americano estimam em até 30 mil os remanescentes da milícia nos dois países.

Sem desconsiderar a importância de pôr termo ao regime de me -do e brutalidade imposto por essa organização terrorista, cumpre recordar que a guerra na qual a Síria está imersa desde 2011 tem como atores principais as tropas do ditador Bashar Al-Assad e os rebeldes que tentam derrubá-lo.

Desse confronto advém a maioria absoluta das mais de 500 mil mortes em sete anos, e por causa dele 5,6 milhões de pessoas emigraram, de acordo com a ONU.

Não fossem já impactantes esses números, a comunidade internacional chocou-se comas denúncias de uso de armas químicas por parte das tropas de Assad.

Em resposta a uma dessas ocorrências, aliás, Trump ordenou, em abril de 2017, o bombardeio de uma base aérea síria. Na ocasião, criticou o antecessor, Baraek Obama, por não ter agido contra Assad mesmo após afirmar que Damasco cruzara uma “linha vermelha” por empregar artefatos químicos.

Naquele momento, havia a impressão de que a C asa Branca tomaria medidas concretas para pressionar o ditador a interromper a tragédia humanitária em curso. Ao dizer agora que lutar contra o EI era o único objetivo na Síria, Trump deixa claro que não pretende defender a linha, mas sim apagá-la.

Deixe uma resposta