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Andrea Jubé: “Braço forte, mão amiga”: até quando?

Na política, quase sempre, os gestos são mais eloquentes do que as palavras. É sintomático que em seu primeiro compromisso oficial em Brasília após a eleição, o presidente eleito Jair Bolsonaro tenha se reunido reservadamente apenas com oficiais da cúpula das Forças Armadas. Um dos auxiliares civis que o acompanhavam – o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes – foi convidado depois a se somar ao grupo. O outro civil da comitiva teve de aguardar do lado de fora.

Quando aterrissou em Brasília pela primeira vez depois da consagração nas urnas, no dia 6 de novembro, Bolsonaro fez uma visita institucional ao ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna. Estava acompanhado dos filhos, do vice-presidente, general Hamilton Mourão, do futuro ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, e de dois auxiliares civis: Paulo Guedes e Gustavo Bebianno, que assumirá a Secretaria-Geral da Presidência.

Ao fim da reunião fechada no gabinete do ministro, com um grupo restrito de oficiais – da qual participaram os filhos, Mourão e Heleno -, Guedes foi chamado para tratar do orçamento das três Forças e da reforma previdenciária dos militares. Bebianno aguardou do lado de fora, segundo relato de um dos presentes.

O retrato da reunião com os oficiais, sem os civis, fala por si: Bolsonaro tem deferência especial pelas Forças, instituição que considera um escudo moral de sua gestão. Somente no Palácio do Planalto, são três os generais da reserva escalados: Heleno e Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo), na linha de frente; Floriano Peixoto, “vice-ministro” da Secretaria-Geral, na retaguarda. Além do general Mourão na Vice-Presidência.

Em síntese, sem o apoio das Forças Armadas – instituição na qual os brasileiros mais confiam, segundo pesquisas recentes -, o governo Bolsonaro claudica.

A novidade é que, a depender dos desdobramentos do episódio revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” na quinta-feira, sobre as movimentações financeiras do ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente, esse apoio pode ruir.

“Foi um balde de água fria”, define um oficial da reserva, com trânsito na cúpula das Forças, sobre a divulgação do relatório do Coaf, sobre as operações financeiras do ex-motorista do filho do presidente, incluindo um depósito na conta da futura primeira-dama.

“Foi um susto”, completa. Segundo este oficial, o que levou os brasileiros a manter a confiança nas Forças foi a moralidade e a transparência, valores da instituição”. Diante da denúncia que desgastou o governo antes da largada, ele diz que é preciso “seguir o caminho do dinheiro”, e afastar quem estiver envolvido com irregularidades.

No mesmo tom, um general da ativa, com trânsito no alto comando do Exército, alerta que o respaldo das Forças ao futuro governo não é incondicional. O lema da Força “braço forte, mão amiga” não será autoaplicável na nova gestão.

“Se Bolsonaro não tomar, no momento certo, medidas duras que promovam o saneamento de sua equipe, ele perderá o apoio da instituição e da população”.

Este oficial diz que não há surpresa com a revelação do caso. “Da política brasileira tudo se pode esperar”. Por isso, avisa que o Exército manterá “distância segura” do governo, lembrando que os quadros nomeados são da reserva.

O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelado na semana passada mostrou que o ex-motorista do filho mais velho de Bolsonaro movimentou R$ 1,2 milhão em sua conta durante um ano, valor incompatível com seu patrimônio. Um cheque de R$ 24 mil foi parar na conta da futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Ao site “O Antagonista”, Bolsonaro explicou que, na verdade, trata-se de um empréstimo de R$ 40 mil ao ex-assessor do filho. O esclarecimento sobre o depósito na conta de sua mulher soa incoerente. Ele alega que o dinheiro foi depositado na conta de Michelle “porque eu não tenho tempo de sair”.

No entanto, há exatamente um mês, mesmo em convalescença, Bolsonaro saiu de sua casa, na Barra da Tijuca, para ir pessoalmente ao caixa eletrônico sacar dinheiro para promover um churrasco para seus seguranças.

É de conhecimento público que a família Bolsonaro gosta de oferecer churrascos aos amigos: o ex-assessor responsável pela movimentação dos recursos milionários, Fabrício José Carlos de Queiroz, participou de alguns deles, como revelam fotos do ex-assessor com os Bolsonaro que circulam nas redes sociais.

Recuos

Um governador eleito em outubro tenta a todo custo convencer uma determinada empresa europeia, do segmento de alta tecnologia, a investir em seu Estado. As conversas estavam avançadas, relata o futuro mandatário, até a eleição de Jair Bolsonaro.

Quando os representantes da multinacional high tech se depararam com os diversos ministros de formação militar no primeiro escalão, deram um passo atrás. A constatação foi de que os quadros militares vão “fechar a economia” brasileira.

O segundo recuo se deu com o anúncio da extinção do Ministério do Trabalho. O governador ouviu dos executivos que a empresa tem uma “reputação internacional” a zelar, e por isso não investirá em um país que “não respeita direitos trabalhistas”.

Há exagero sobre o “fechamento” da economia: o general Hamilton Mourão declarou recentemente ao Valor que a visão econômica dos militares evoluiu e está em sintonia fina com os preceitos liberais.

Em contrapartida, Bolsonaro não conforta os potenciais investidores com “reputação internacional” com declarações como as da semana passada. Ele disse que os empregadores devem pressionar por mudanças nas leis trabalhistas. “O trabalhador vai ter que decidir, um pouquinho menos de direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. (Valor Econômico – 11/12/2018)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília E-mail: andrea.jube@valor.com.br

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