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Cora Rónai: O juiz, o capitão e o convite

Bolsonaro acertou quando convidou o juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, mas não tenho certeza se o juiz acertou ao aceitar. Ele é maior do que Bolsonaro em muitos sentidos —na competência, na dedicação ao trabalho, até mesmo, e sobretudo, no imaginário popular. Se tivesse se candidatado a presidente, por exemplo, muito provavelmente teria sido eleito ainda no primeiro turno; mas não é bem de números que se trata.

Como juiz, ele tinha independência e respondia apenas pelos próprios atos. Tornouse, porém, avalista de um governo complicado, para usar um eufemismo pouco comprometedor. Moro, goste-se ou não dele, está em outro patamar civilizatório. Para nós, brasileiros, a sua presença no ministério é lucro, não só pela garantia que ela representa à continuidade da Lava-Jato, mas pela garantia ainda maior de respeito à Constituição —e ao simples bom-senso — que parece faltar em muitos momentos à nova equipe.

Moro tem estatura para enfrentar o presidente eleito. Afinal, se alguém está fazendo um favor a alguém nessa história, é o juiz ao capitão. Que, de certa maneira, para bem de todos e felicidade (quase) geral da nação, agora é refém da sua escolha.

Independentemente do que penso ou deixo de pensar a respeito da sua aceitação ao convite de Bolsonaro, desejo ao juiz Moro toda a sorte do mundo. Espero que ele tenha tanta competência para combater o crime organizado, e desorganizado também, quanto teve para combater a corrupção.

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A primeira entrevista coletiva do juiz, aliás, no começo da semana, foi exemplar. Foi um alívio ver alguém do futuro governo portando-se como um adulto e como se espera de uma autoridade, apresentando propostas, dando explicações, respondendo a perguntas com civilidade e demonstrando compreender que quem conversa com a imprensa dirige-se, na verdade, à sociedade. José Sarney, que de resto não é autor citável, criou, ainda antes de assumir a presidência, a expressão “liturgia do cargo”.

Mais tarde ela seria usada para justificar as amplas mordomias do poder, mas, naquele momento, apontava para o comportamento sóbrio que um presidente deve observar. Está na hora de tirá-la do armário, dar-lhe uma boa espanada e utilizá-la novamente. A estudada estética Tabajara de Bolsonaro foi útil, durante a campanha, para dar aos eleitores a ideia de que ali estava um sujeito normal, que não dispunha das verbas mirabolantes que cercam as campanhas que estamos habituados a ver.

Agora, no entanto, que ele é o manda-chuva oficial, devia aposentar os elementos de improvisação que o acompanham e partir para cenário e postura mais adequados. Devia também, e acima de tudo, pensar melhor no que diz. Um candidato pode “fazer o diabo para ganhar uma eleição”, como aprendemos com Dilma Rouseff, mas as palavras e gestos de um presidente eleito carregam o peso do seu país.

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A equipe de transição do novo governo é tão antiga quanto o ministério do Temer. O mundo gira, a Lusitana roda, todo mundo grita, mas, a essa altura, em pleno ano de 2018, ainda há quem ache normal uma equipe de quase 30 pessoas sem uma única mulher. (O Globo – 08/11/2018)

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