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Elissa Felipe da Silva: Feminismo não é coisa só de mulher

Carta Manifesto

O estado onde nasci, cresci e moro, o Espírito Santo, tem sido palco de inúmeros casos trágicos de feminicídio. Assisto, aterrorizada, essas notícias que mostram histórias de mulheres brutalmente assassinadas pelo simples fato de serem mulheres.

O Brasil, segundo a ONU, está em 5º lugar entre os países no qual mais se comete feminicídios e o Espírito Santo consta na lista dos estados brasileiros que apresentam os maiores índices de violência contra a mulher e feminicídio.

Surge daí meu questionamento: Quais seriam as possíveis causas para o Espírito Santo fazer parte desta triste lista?

Minha formação em Psicanálise me fez buscar algumas respostas, em um primeiro momento, na constituição psíquica dos seres humanos. Tanto homens quanto mulheres, nascem ocupando um lugar de um objeto, simbólico, para um outro. O bebê é, para os pais, a possibilidade deles reviverem seu narcisismo, ou seja, a criança que outrora eles foram. Portanto, a criança, irá vivenciar, o que Freud nomeou como o masoquismo primordial, que é esse momento inicial de ser um objeto para o outro.
Nesse estágio a criança poderá ocupar um lugar de objeto enaltecido, valorizado ou degradado, desqualificado. Essas marcas a pessoa irá carregar para toda a vida e poderá repetir em suas relações amorosas a forma como aprendeu a ser amada nesse início da constituição psíquica do sujeito. Em um desenvolvimento que poderia ser classificado como saudável, a criança, aos poucos, desprende-se desse lugar de objeto para o outro e torna-se o sujeito de suas ideias e ações. Porém há adultos que carregam de forma mais ou menos intensa essas marcas psíquicas de sua relação objetal com o outro na infância.

Algumas questões surgem a partir destas afirmativas: Como se estabeleceu a relação afetiva entre os familiares em cujas famílias as crianças cresceram de forma psiquicamente mais saudável, desenvolveram uma boa autoestima, tornaram-se mais confiantes em si e em suas decisões?

Qual a influência do meio social e da cultura na forma dos pais educarem seus filhos e na maneira de estabelecerem os vínculos afetivos familiares?

Essas reflexões são importantes a fim de compreendermos o grau de influência da família e da sociedade na perpetuação do machismo em nossa cultura. Sabemos que a ideologia machista, transmitida inclusive na educação das crianças, reforça uma fixação da mulher no lugar de objeto para um outro.

Podemos conceber as ações de violência contra a mulher como um dos sintomas do machismo e da misoginia.

Faço aqui um paralelo com o adoecer. Quando estamos doentes, apresentamos sintomas físicos que são indicativos para o diagnóstico médico. Tratamos os sintomas com antitérmico em caso de febre ou analgésico em caso de dor. Depois de um tempo a doença persiste e, caso não seja descoberta a causa, continuaremos a tratar apenas os sintomas. Perde-se tempo, dinheiro e muitas vezes a própria vida. Preço alto a ser pago.

Medidas têm sido tomadas tais como campanhas nas mídias contra a violência doméstica, as delegacias especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência, o “botão do pânico”, o aprimoramento da Lei “Maria da Penha” e muitas outras ações. Por que, mesmo diante dessas ações, ainda se mantém alto o índice de mulheres agredidas ou mortas? Quais medidas poderiam ser adotadas para mudar este cenário?

Assim como os sintomas de dor ou febre são manifestações de doenças, as ações de violência contra a mulher são sintomas do machismo e da misoginia. Precisamos buscar as causas dessa “doença social” e a cura para esse flagelo que desestrutura tantas famílias e provoca centenas de morte anualmente. Buscar as causas para compreendermos as consequências e desenvolvermos estratégias para erradicar o mal.

O patriarcado é uma organização social baseada no poder do pai, onde descendência e parentesco seguem a linha masculina. As mulheres são consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas à sua dominação. Tal sistema social favorece o machismo, que é expresso por opiniões e atitudes que desvalorizam ou desqualificam as mulheres.

Importante compreender também, de que forma o machismo cultural é reproduzido no núcleo familiar. Quais seriam os sinais que poderiam ser vistos como indicadores de que a cultura machista se presentifica e afeta as relações entre marido, mulher, pais e filhos? E, caso sejam identificados estes sinais, quais estratégias poderiam ser adotadas para a conscientização dessa influência e quais ações poderiam ser tomadas para minimizar seus efeitos negativos?

O machismo continua a ser um forte obstáculo civilizatório, mesmo no início do terceiro milênio. A cultura machista se manifesta de maneiras diversas; do feminicídio às piadas que desqualificam mulheres, das agressões físicas e psicológicas às relações no âmbito familiar, que concebem o papel da mulher como a quem cuida do lar. Como diz o ditado “o diabo habita os detalhes”, encontramos manifestações dessa cultura machista, também nas entrelinhas dos discursos naturalizados e cotidianos nos grupos sociais.

O século XIX, foi um período de repressão sexual e ficou conhecido como o século do pudor. O papel da mulher era o de “rainha do lar” e sua função a de ser submissa ao marido, o qual deveria servir; o prazer sexual da mulher não era visto com bons olhos e o sexo só permitido com o marido e com objetivo de gerar filhos.

A casa, o lar, deveria ser um local dos bons costumes e os prazeres sexuais vividos em bordéis. A cultura machista divide a mulher em duas: a mãe e a mulher/objeto sexual.

A mãe é uma figura enaltecida, de uma mulher que abdicou de seu próprio desejo para cuidar do filho. Neste caso, com a sexualidade apartada da figura da mulher, pode-se então ofertar um lugar de reconhecimento e valorização social.

O que restaria então às outras? Fora deste lugar de mãe, a mulher seria um “perigo”, um corpo que precisa ser domado, controlado e vigiado.

A sujeição física e mental da mulher foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la limitada a tarefas específicas. A fidelidade feminina sempre foi uma obsessão para o homem, já que é preciso proteger a herança familiar e garantir a legitimidade dos filhos. Isso tornaria a esposa sempre uma figura suspeita, uma adversária que requer vigilância absoluta ou uma adúltera em potencial.

No temor desse potencial se concretizar os homens lançam mão de várias estratégias: manter as mulheres em casa, proibir contato com outros homens e, em situações mais extremas, o uso do cinto de castidade ou mesmo a mutilação da genitália. As adúlteras em alguns países são apedrejadas, afogadas ou enviadas para conventos. No Ocidente, espancadas ou mortas pelos maridos.

Ao homem, por não haver prejuízo para sua linhagem sempre foi permitido ou desconsideradas as relações extraconjugais. Então, movidos por esse sentimento de posse, muitos homens agridem ou matam suas parceiras quando sentem a ameaça de perdê-las.

Segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), de janeiro de 2017 até julho de 2018 foram registradas 22.059 ocorrências de agressões contra mulheres no Espírito Santo. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Antes, o silêncio vencia mas agora a legislação dá voz às mulheres. Porém, os rigores da lei ainda não foram suficientes para evitar tragédias como as de Milena, Andrielly, Gabriela, Bárbara, Ruthileia, Luciana, Ana Cristina, Luiza e tantas outras que perderam a vida e deixaram órfãos filhos, pais, avós e amigos só pelo fato de homens terem-se sentido donos de suas vidas e corpos.

A Lei Maria da Penha é fundamental e uma das frentes de batalha contra essa barbárie. Precisamos de outras mais. A punição mais rígida pode ter efeito preventivo; um avanço recente foi a criminalização do desrespeito às medidas protetivas, com o agressor podendo ser preso, sem direito à fiança, até mesmo por mensagens de whatsap à vítima.

Um levantamento realizado pela Diretoria de Assistência Jurídica do Sistema Penal, departamento da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), revelou que os crimes de violência doméstica ainda são uma triste realidade no Espírito Santo. Em 2017, no estado, foram assassinadas 41 mulheres, a maior taxa da região Sudeste à época.

A batalha mais difícil agora é combater o machismo por meio da conscientização de homens e mulheres. A Lei Maria da Penha por si só ainda não basta. É um começo. Precisamos de mais ações para o benefício da democracia e da humanidade.

Outra estratégia no combate ao machismo refere-se a mudanças nos parâmetros educacionais e culturais. É preciso atuar de forma enérgica e contínua na mudança cultural e, no que diz respeito à educação formal, incorporar nos currículos escolares os conteúdos sobre direito das mulheres e igualdade de gênero. Neste sentido, a escola é um espaço de grande relevância.

Além disso, todos, homens e mulheres, devem lutar juntos contra a violência dirigida à mulher e contra o crescimento do machismo e suas diversas formas de manifestações. Precisamos, urgentemente, defendermos a bandeira histórica do movimento feminista.

Elissa Felipe da Silva, psicanalista e integrante da Coordenação de Mulheres do PPS-ES

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