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Alberto Pinto Coelho: A hora da autocrítica política

A voz das urnas nas eleições de 2018 passou um recado bastante incisivo para a classe política brasileira: é chegada a hora de se promover uma profunda autocrítica sobre essa atividade essencial à ordem democrática e à construção de instituições públicas respeitadas pela sociedade. A era do toma lá dá cá e da troca de favores pessoais está definitivamente condenada a ser página virada na vida republicana do país.

Também é grave constatar que apenas 57% do eleitorado mineiro – recorde negativo nos últimos 30 anos – votaram para governador no segundo turno em 28 de outubro passado. Ou seja, 42,7% desse eleitorado (cerca de 6 milhões do total de 15 milhões e 700 mil eleitores inscritos) decidiram votar em branco, nulo ou se abstiveram de comparecer às urnas. São índices alarmantes numa sociedade que, há três décadas, enchia ruas e praças do Brasil reivindicando exatamente o direito ao voto em eleições diretas.

O chamado “efeito Lava-Jato” certamente contribuiu em grande parte para esse descomunal descrédito da política tradicional, generalizando-se a tendência a nivelar por baixo todos os representantes políticos, atingindo drasticamente a credibilidade dos homens públicos no Parlamento ou no Poder Executivo. Propagou-se, assim, o voto“antissistema”, sob a palavra de ordem “contra tudo e contra todos” nas redes sociais.

A mim, pessoalmente, uma invariável pergunta foi feita ao final das apurações, com a eleição do novo governador, Romeu Zema, com 71,8% dos votos válidos (ou seja, dos 57% que votaram nos nomes em disputa). Esta pergunta era, em síntese, a seguinte: “Como se poderia explicar que um homem público, com a folha de serviços prestados a Minas e ao país, como o senador Anastasia, não foi o escolhido nas urnas, ainda mais neste momento em que o Estado carece tanto da experiência dele?”

Efetivamente, considerando-se a gestão Anastasia no governo de Minas Gerais, aprovada com mérito por organismos internacionais, e examinando-se a pauta de sua destacada atuação no Senado Federal, reconhecida pela sua cultura jurídica como também pelo seu compromisso com a correção e a eficácia do processo legislativo, a justificativa para a derrota, em ambos os casos, não teria cabimento.

De fato, Anastasia foi fundamental como membro da comissão especial criada no Senado para discutir a lei Kandir, vital para o equilíbrio fiscal do Estado, com estimativa de R$ 8 bilhões por ano a mais para Minas Gerais. O senador foi também um dos líderes na aprovação de emenda ao orçamento que impediu a retirada de verbas destinadas às obras da BR-381. Ele é, ainda, relator de um dos assuntos mais sensíveis hoje na pauta do Congresso Nacional, que é o Código Penal, ora sob seu rigoroso exame.

Nos projetos por ele apresentados no Senado, três pilares se destacam: melhoria da gestão e dos serviços públicos, especialmente da segurança; combate à corrupção e transparência nas contas públicas; e melhoria do ambiente de negócios, com desburocratização e segurança jurídica.

Contamos, pois, com um homem público que não poderá jamais ser desconsiderado no cenário político mineiro e nacional, onde teve e terá imensa contribuição a dar. Não será, portanto, um episódio eleitoral movido por um “tsunami” de insatisfação coletiva, à raiz de erros repetidos da classe política, que haverá de deter a trajetória presente e futura de um senador que tem o perfil de autêntico estadista, apto para exercer missões ainda mais altas.

No caso dele, em que indubitavelmente fez-se a máxima “os justos que pagam pelos pecadores”, seguirá o senador mineiro sendo, nesse tempo de autocrítica, referência de dignidade, honradez e competência para o mundo político brasileiro, lastreada pelos seus exemplares 35 anos de serviço público. Anastasia permanece, assim, como referência e espelho para o exercício da nobre missão pública e para toda a nossa sociedade. (Correio Braziliense/Estado de Minas – 06/11/2018)

Alberto Pinto Coelho, ex-governador de Minas Gerais

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