PARTIDO POPULAR SOCIALISTA

PORTAL NACIONAL

Cora Rónai: A voz do povo

Pouco antes do começo do horário eleitoral, escrevi que, para além da óbvia disputa partidária, estávamos diante de um outro embate da maior importância: o da mídia tradicional contra a internet. Hoje não sei se “embate” é a palavra certa, porque não houve propriamente uma disputa—estamos falando, na verdade, de uma mudança de paradigma irreversível, de uma nova etapa na história da comunicação.

Diante dos resultados de domingo, resta pouca dúvida de que, hoje, a internet é a maior ferramenta eleitoral. Geraldo Alckmin, que tinha um latifúndio de espaço em rádio e TV, e uma das maiores máquinas eleitorais do país, não conseguiu 5% dos votos, ao passo que Jair Bolsonaro, com espaço minúsculo nas mídias tradicionais, quase leva a Presidência de primeira, surfando nas redes sociais.

João Amoêdo, desconhecido do público, ausente dos debates, dono de míseros segundos de propaganda eleitoral, conseguiu ultrapassar nomes populares como Marina e Álvaro Dias na reta final, além de Meirelles, que só perdia em tempo de mídias tradicionais para Alckmin e Haddad.

O fenômeno se repetiu, em maior ou menor grau, nas corridas para governador, senador, deputados. A maior surpresa aconteceu no Rio, onde um Wilson Witzel ignorado pelas pesquisas, mas fortíssimo nos grupos de WhatsApp, foi vitorioso para o segundo turno.

Vai ser interessante observar os desdobramentos desses resultados. O grande motor das coligações espúrias, o tempo de televisão para a campanha, deixa de existir. Os partidos e políticos tradicionais vão ter que se reinventar, e começar a frequentar a internet, se quiserem se comunicar com o eleitor e se manter relevantes.

Com o fim da era da política em televisão e rádio chega ao fim também a era dos marqueteiros bilionários. Eles dão lugar ao pessoal que entende de redes sociais, que almoça e janta dados e se comunica por memes, e ao próprio eleitor, que nunca teve ferramentas tão poderosas ao seu alcance. Facebook e WhatsApp foram os canais preponderantes nessas eleições.

Há muito barulho sendo feito na mídia por conta de fake news mas, pessoalmente, continuo não acreditando que tenham a imensa importância que lhes é atribuída. Elas apenas reforçam o que as pessoas querem ouvir — e, no fundo, não têm tanta diferença dos discursos e das promessas dos candidatos, fakes em sua essência desde que o atual sistema político foi implantado.

O que foi a apresentação de Dilma Rousseff ao eleitorado como uma gerente de inquestionável competência se não uma fake news descomunal? A diferença é que, para vender essa ideia, foi gasto R$ 1,4 bilhão, e a embalagem do produto foi feita de acordo com os cânones do marketing convencional, com seu viés de propaganda de margarina.

Dinheiro e poder preestabelecido deixam de ser determinantes na campanha, como prova a fragmentação inédita da Câmara. O eleitor tem uma força individual que nunca teve: ele pode influenciar parentes e amigos muito além da mesa de jantar ou dos encontros no botequim da esquina. Estamos diante de um fenômeno desconhecido, mas profundamente democrático. O risco é descobrir que a voz do povo não é a voz de Deus — ou que as intenções de Deus não são exatamente aquelas que esperávamos. (O Globo – 09/10/2018)

Deixe uma resposta