CIDADANIA23

PORTAL NACIONAL

Roberto Freire diz que Bolsonaro não entende de economia e da Constituição

Vice de Bolsonaro critica 13º, recebe reprimenda pública e abre nova crise

Em palestra no Rio Grande do Sul, Mourão chamou o 13º salário de “jabuticaba brasileira”

FOLHAPRESS

SÃO PAULO, SP, BRASÍLIA, DF, E PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência afundou em renovada crise interna devido, mais uma vez, a uma frase polêmica do candidato a vice na chapa do deputado, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB).

Em palestra no Rio Grande do Sul, Mourão chamou o 13º salário de “jabuticaba brasileira”. Numa atitude inédita, Bolsonaro fez publicar em sua conta no Twitter uma reprimenda sem nominar Mourão: “Criticá-lo [o 13º salário], além de uma ofensa a quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição”.

Além de desautorizá-lo, a campanha quer que ele silencie. Mourão não deverá mais ir ao dois debates entre vice-presidentes previstos para a semana que vem, um na TV Cultura e outro promovido por Folha de S.Paulo, UOL e SBT.Não é a primeira vez que o general, que perdeu o comando militar do Sul após atritos com o governo Dilma Rousseff (PT) e que sugeriu intervenção militar em palestra antes de ir para a reserva, se envolve em polêmica na campanha.

Na semana passada, disse que lares pobres “com mãe e avó” eram “fábricas de desajustados”. Foi enquadrado para moderar suas declarações, sem efeito aparente.Na mesma semana, outro tiro no pé político foi dado por Paulo Guedes, o guru econômico de Bolsonaro, que defendeu a adoção de um imposto nos moldes da CPMF numa simplificação tributária.Neste caso, como Guedes é esteio do candidato junto ao mercado financeiro, o próprio Bolsonaro defendeu que ele tinha sido mal interpretado.

“Jabuticabas brasileiras. Décimo terceiro salário. Se a gente arrecada 12, como pagamos 13? É complicado. É o único lugar em que a pessoa entra em férias e ganha mais. Coisas nossas, legislação que está aí. É sempre a visão dita social com o chapéu dos outros, não com o chapéu do governo”, disse na Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana.”[Vamos fazer] a implementação séria da reforma trabalhista. Sabemos perfeitamente o custo que tem o trabalhador, essa questão de imposto sindical em cima da atividade produtiva. É o maior custo que existe. E temos algumas jabuticabas que a gente sabe que são uma mochila nas costas de todo empresário”, completou.Desta vez, Mourão ficou sozinho para se explicar.

“Eu não posso mexer e nem posso falar nada até porque eu recebo, né? Observe o seguinte, eu estava tocando [assunto] no Custo Brasil. Qualquer gerente e qualquer empresário, e os próprios governos têm que poupar ao longo do ano para que possam pagar o 13º, é uma questão de eficiência gerencial”, disse.Ele buscou minimizar a enquadrada. “Não, não me sinto atacado. Até porque não estou atacando o 13º, coloquei ele como algo que tem que ser planejado, tanto para o empregador privado quanto para o Estado”, afirmou.Aliados do militar, como o grupo de oficiais da reserva que auxilia a montar o programa de governo de Bolsonaro, ficaram incomodados com a reprimenda.

Para um amigo que conversou com Mourão, houve precipitação por parte do comando da campanha, que não o questionou antes de publicar a postagem crítica.Mourão já vinha incomodando alguns dos vários grupos que orbitam Bolsonaro, ainda em recuperação da facada que levou no abdômen em 6 de setembro. Com a incapacitação do candidato, internado, ele sugeriu que poderia representá-lo em debates.

A família de Bolsonaro refutou a hipótese e, com o adensamento de agendas de campanha e oportunidades para falas polêmicas de Mourão, havia combinado com outros atores do comando da campanha a submersão do general. Não deu certo.O grupo militar, contudo, vai evitar um choque direto com Bolsonaro e disse entender a necessidade de tentar conter a viralização da fala –que, por óbvio, foi inevitável.Para adversários, a confusão soou como música. O PSDB de Geraldo Alckmin, que já havia explorado a celeuma da recriação da CPMF, encaixou um “urgente” em sua propaganda veiculada na noite desta quinta (27), dizendo que a campanha bolsonarista defende o fim do 13º, conforme revelou a Folha de S.Paulo.

Segundo colocado nas pesquisas, Fernando Haddad (PT) disse que a frase comprova que o grupo de Bolsonaro tem “a cabeça no século 19″.”Quando você abre a porteira da maldade, você não sabe onde o processo vai dar”, disse Haddad em Porto Alegre. “O Temer começou com a reforma trabalhista. Hoje o vice [Mourão] disse que talvez não seja uma boa ideia pagar o 13º salário. Vai perguntar para ele se ele abre mão do dele.”Em 2003, no início do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o fim do 13º para micro e pequenas empresas chegou a ser aventado, mas a ideia não prosperou.Até a reprimenda de Bolsonaro foi criticada por um aliado de Alckmin, o presidente do PPS, Roberto Freire. Ele disse que o candidato, além de manifestadamente não entender de economia, “não entende de Constituição”.

Isso porque Bolsonaro escreveu que “o 13° salário do trabalhador está previsto no art. 7° da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas (não passível de ser suprimido sequer por proposta de emenda à Constituição)”.Na verdade, o artigo 7º trata de direitos sociais, e há debate jurídico se benefícios trabalhistas são considerados garantias invioláveis das quais trata o artigo 5º da Carta.

Deixe uma resposta