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Para Mauricio Huertas, “autismo político” do centro democrático brasileiro poderá custar uma derrota já no 1º turno

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"É importante ressaltar que a 20 dias da eleição tudo ainda pode mudar", diz jornalista

Na semana passada, Fernando Haddad foi oficialmente lançado pelo PT para substituir Lula na disputa presidencial. A pouco menos de um mês das eleições, a entrada do petista deixa uma questão: qual será a capacidade de transferência de votos de Lula para o atual candidato?

A última pesquisa publicada pelo Datafolha trouxe o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) na liderança, com 26% das intenções de voto; Ciro e Haddad com 13%, Marina com 9% e Alckmin com 8%. Esses dados deixaram os eleitores de Marina e Alckmin preocupados, uma vez que seus candidatos, considerados de centro, não decolam nas pesquisas.

Neste contexto, a série FAP Entrevista traz o jornalista, secretário de Comunicação do PPS de São Paulo e também dirigente da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), Mauricio Huertas, como o entrevistado desta semana. Questionado sobre as razões que levam as eleições se afunilarem em torno de candidatos extremistas, à direita ou à esquerda, Huertas foi enfático sobre o centro democrático. “A culpa é de líderes e partidos desgastados e dissociados do mundo real das ruas e das redes. O autismo político poderá nos custar uma derrota já no 1º turno.”

A entrevista que segue abaixo faz parte da série publicada aos domingos pelo portal da FAP, com intelectuais e personalidades políticas de todo o Brasil, com o objetivo de ampliar o debate em torno do principal tema deste ano, as eleições.

FAP Entrevista – A última pesquisa presidencial trouxe Jair Bolsonaro (PSL) na liderança e Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) empatados tecnicamente. Marina Silva (Rede) caiu três pontos e Geraldo Alckmin (PSDB) vem atrás. Por que Alckmin, mesmo com o apoio do centrão, não decolou?

Maurício Huertas – Primeiro, é importante ressaltar que a 20 dias da eleição tudo ainda pode mudar. O que temos são indicativos, tendências, movimentos pontuais captados pelas pesquisas de intenção de voto – mas que podem mudar de uma hora para outra com qualquer novo fato político. De todo modo, o que os números indicam, hoje, é quase a certeza de Bolsonaro no 2º turno e uma briga no escuro de quem vai conseguir chegar em segundo lugar para enfrentá-lo e supostamente vencê-lo com facilidade, o que é outro equívoco.

Desde o início a estratégia de Alckmin foi criticar o extremismo, à direita e à esquerda, e pregar uma saída mais racional e moderada. A aposta dos tucanos e partidos coligados, verbalizada pelo próprio Alckmin em todas as entrevistas que lhe cobravam números mais expressivos nas pesquisas de intenção de voto, era que o crescimento se daria a partir do início do horário eleitoral no rádio e na TV. Portanto, calculou-se que o bônus de ter mais tempo na propaganda oficial valia o ônus de se aliar aos partidos do Centrão, todos claramente identificados pela população como beneficiários dos esquemas de corrupção investigados pela Operação Lava Jato.

Porém, havia ao menos três sérios riscos nessa estratégia. Primeiro, ter acreditado que a coligação frankenstein do Alckmin e seu tempo monopolizado de TV bastariam para convencer ou cativar um eleitor arredio, indignado, revoltado com as formas tradicionais de fazer política. Segundo, achar que a razão e o bom senso do eleitorado prevaleceriam sobre o apelo mais radical, emotivo e extremado da campanha. Por fim, em terceiro, julgar que a maior tendência desta eleição seria repetir a polarização PT x PSDB que assistimos desde 1994. Esses estrategistas davam como certa a “desidratação” da candidatura do Bolsonaro, possibilidade que se houvesse uma visão mais isenta e realista do atual momento da política teria se mostrado improvável, como de fato os números de hoje indicam.

Analistas das eleições acreditam que a última chance de Alckmin para subir nas pesquisas seria contar exatamente com o voto útil, ou seja, atrair os votos de João Amoêdo (Novo), Henrique Meirelles (MDB), Álvaro Dias (Podemos) e até Marina, com intuito de se evitar um confronto entre PT e Bolsonaro. O senhor acredita que isso pode dar certo ou disputa será entre Bolsonaro x Ciro ou Haddad?

É certo que vai se acentuar nesta reta final o discurso do “voto útil”. De fato parece ser a última esperança de Alckmin e dos seus apoiadores, dentro deste movimento que se convencionou chamar de “centro democrático e reformista”, ou seja, a esperança de reunir o voto de todos aqueles que não desejam um 2º turno entre Bolsonaro e Haddad. Será intensificado esse último apelo para atrair tanto o eleitor anti-Bolsonaro quanto o anti-PT. Eu realmente acho que o voto útil é que vai definir o resultado desta eleição. O problema, indicado aqui pelas pesquisas mais recentes, é que o voto útil não está migrando para aqueles candidatos que imaginávamos e desejávamos, seja Alckmin ou Marina. O que estamos vendo é o voto útil anti-petista se encaminhar para Bolsonaro. E, por outro lado, o voto anti-Bolsonaro se mobilizando em torno de Haddad e de Ciro.

E nós, do chamado centro democrático, eleitores de Alckmin, Marina, Álvaro, Amoêdo e Meirelles, corremos o risco iminente de assistir do lado de fora, todos de mãos dadas, o 2º turno entre esses dois extremos que até o momento fomos incompetentes de neutralizar e de mostrar ao eleitorado quão nocivos podem ser às nossas jovens e frágeis instituições democráticas e republicanas.

Dos candidatos considerados de centro, apenas Ciro desponta. Por que a população brasileira tem preferido opções mais extremistas? Onde o centro errou?

A dúvida que fica é exatamente esta: Por que o eleitorado não identifica em Alckmin ou em Marina a melhor opção para a Presidência? Por que a maioria enxerga uma realidade diferente de nós? Será que nós estamos sempre certos e os outros supostamente estão errados? Ou será que nós é que não entendemos que o eleitor procura algo diferente? Obviamente, nossa tarefa e desejo, para o bem do Brasil e da democracia, é não ter um 2º turno entre Bolsonaro e Haddad. Aí entra o apelo ao voto útil. Mas a “culpa” não é do eleitor que não concentra o voto em um único candidato e se dispersa entre Alckmin, Marina, Álvaro, Meirelles ou mesmo Ciro. A culpa é de líderes e partidos desgastados e dissociados do mundo real das ruas e das redes. O autismo político poderá nos custar uma derrota já no 1º turno.

Por outro lado, a sobrevida da liderança de Lula e o crescimento de Haddad se devem à narrativa da vitimização que colou. Qual a mensagem que eles conseguiram transmitir? “Todos são corruptos, mas ao menos Lula governou para os pobres, melhorou a vida das pessoas”. É a reedição do rouba mas faz, atrelada à cultura e tradição nacionais. Fora a fé cega no lulismo, que é uma religião.

Caso a disputa se afunile entre Bolsonaro e Haddad, o que significa para o Brasil ter um destes dois governos no poder?

A preocupação legítima de todo democrata com essas duas candidaturas marcadas pelo radicalismo, pelo ódio e pelo revanchismo é vermos o Brasil retroceder várias décadas no dia 7 de outubro. Podemos odiar, podemos discordar, podemos não aceitar, achar ambos toscos, mas é inegável que diante de todos os indícios, pesquisas de intenção de voto, reação das pessoas nas ruas e nas redes, as chances de um 2º turno entre Haddad e Bolsonaro são enormes.Devemos concentrar nossos últimos esforços para combater esses nossos dois adversários nas suas fragilidades, em vez de reforçarmos involuntariamente o que está muito além da razão nessa motivação puramente subjetiva e emocional que leva a maioria do eleitorado a escolher seu candidato. Do contrário, estaremos ajudando a eleger algum destes extremistas de tanto que insistimos em fazer uma política que não existe mais.

Haddad e Bolsonaro não são os melhores candidatos para o Brasil, longe disso. Mas talvez sejam aqueles que tiveram até o momento mais competência e sensibilidade para entender e atender a demanda da maioria da população – que não necessariamente faz a melhor escolha. E esse é um efeito colateral da democracia, já devíamos ter aprendido. Temos 20 dias para abrir os olhos e viabilizar rapidamente alguma opção anti-PT e anti-Bolsonaro, se não quisermos lamentar pelos próximos quatro anos, no mínimo. Qual é a saída? Este é o nosso desafio. Resta pouquíssimo tempo para uma resposta.

O que o senhor espera do novo presidente do Brasil?

O que precisamos é conscientizar e mobilizar os brasileiros para a criação e a manutenção de um ambiente social saudável, com um presidente que lidere as reformas estruturais necessárias e que governe para todos, com sensibilidade e responsabilidade. Também deve ser papel do novo presidente, fechadas as urnas, chamar as lideranças sociais e políticas para a construção de um país mais humano, justo, ético e solidário. Que sinalize para uma gestão com políticas públicas e parcerias sociais que possibilitem mais rapidamente a inserção dos excluídos, a radicalização da democracia, a plena transparência e independência dos poderes, a diminuição de privilégios e a construção mais sólida e eficaz das bases da cidadania.

Que não nos faça reféns de um bando de políticos corruptos, desqualificados e incompetentes, muitos deles eleitos exatamente com a bandeira da mudança. Mas, sobretudo, que atue com ética, moral, sensatez e com o desafio de construirmos uma verdadeira Nação, que respeite a nossa história, fortaleça democraticamente as estruturas republicanas e apresente um programa viável para conquistarmos mais dignidade, igualdade e justiça social. Enfim, que nos dê motivos reais e concretos para acreditarmos em dias melhores.

Como surgiu a ideia de criar a TV FAP?

A Fundação Astrojildo Pereira já era uma instituição respeitada no meio político, acadêmico e cultural, justamente pelas suas publicações, atividades, estudos e debates das questões da atualidade, além de reunir um grupo suprapartidário altamente qualificado intelectualmente. Faltava algo para arejar, amplificar e trazer um público novo para este trabalho da FAP na difusão dos ideais democráticos e dos princípios republicanos, da ideia de liberdade com responsabilidade, da igualdade de oportunidades, da cidadania plena e da justiça social.

Nada mais atual, portanto, do que criar um canal de TV na internet para atingir de forma direta, eficaz e objetiva um grande número de pessoas, numa quantidade até então impossível com as excelentes publicações editoriais da FAP, e dialogar tanto com aqueles que já transitam por esse meio político e acadêmico, quanto poder atrair para as ações da FAP essa nova geração, ou os chamados nativos digitais, que começam a tomar conhecimento daquilo que fazemos e desejamos para o Brasil e para o mundo, que não é muito diferente do que eles também buscam: um mundo melhor, mais tolerante, pacífico e conectado, com menos desigualdades, que respeite a diversidade e priorize a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia.

Como funciona a TV FAP? Como é possível assistir os programas? Quais dias são veiculados e como são selecionados os temas?

Como indica o próprio nome, a TVFAP.net pode ser acessada neste endereço eletrônico de batismo. O principal produto é o “Programa Diferente”, que pode ser assistido no Portal da FAP, nos endereços TVFAP.net e ProgramaDiferente.com, ou facilmente encontrado no Google, no Youtube e nas redes sociais pela hashtag #ProgramaDiferente.

Estamos fechando a quarta temporada com uma fórmula bem simples e objetiva: apresentamos semanalmente um programa temático de meia hora, além de matérias jornalísticas, entrevistas, debates, notícias e prestação de serviços, sempre amparados por um conteúdo abrangente e bem apurado que nos garante respeito, credibilidade e quase 5 milhões de views nas mais variadas plataformas, tudo isso escorado por um olhar isento, informativo, crítico, colaborativo e alternativo ao da imprensa tradicional.

Nestes quatro anos, a TVFAP.net vem se destacando por um jornalismo qualificado, com pautas diferenciadas e uma abordagem leve, plural e democrática, ouvindo diversas personalidades das mais diversas áreas: política, artes, cultura, direito, educação, esportes, meio ambiente, urbanismo, tecnologia, comunicação, redes sociais etc.

O foco da nossa programação é ajudar a debater a crise do país e a buscar saídas e soluções criativas para os problemas políticos, sociais e econômicos. Dentro das nossas possibilidades, o objetivo também é discutir e promover a cidadania, a qualidade de vida, a diversidade, a justiça social, a igualdade de direitos e de oportunidades, e a chamada governança democrática, acima de preconceitos e de divisões partidárias e ideológicas, além de valorizar ações sustentáveis, empreendedoras e responsáveis, através de iniciativas culturais, comportamentais, políticas, acadêmicas e tecnológicas que apontem para cidades inteligentes, modernas e inclusivas.

Como o senhor analisa atualmente o papel da imprensa, em que as mídias sociais estão “substituindo” o jornalismo tradicional? O jornalismo responsivo poderá sobreviver a este processo?

É natural que essa revolução tecnológica que estamos vivendo cause profundas transformações. Vemos isso na política, nas relações pessoais, na comunicação de modo geral. O jornalismo não passaria incólume. O imediatismo da notícia e o fato de cada cidadão ter se tornado ao mesmo tempo emissor e receptor de informação online com seus smartphones muda totalmente a visão que havia do jornalista profissional da imprensa escrita, do rádio e da TV. O que não deve mudar é a busca pela informação de qualidade. Estão aí as “fake news” que reforçam essa preocupação. É incrível como até pessoas instruídas acreditam em qualquer bobagem que se publica nas redes sociais. Portanto, o bom jornalismo, que traz a informação bem apurada, não pode morrer em nome dessa facilidade de se noticiar tudo o tempo todo. Dá para fazer um paralelo com a medicina: podemos buscar informações sobre qualquer doença na internet, mas o “Dr. Google” jamais substituirá uma consulta presencial, convencional, com um bom médico. Espero que com o jornalismo também seja assim. (Germano Martiniano/Assessoria FAP)

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