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Marco Aurélio Nogueira: Ferimentos radicais

Sangue, fúria e ódio mal calibrados espirram na vida coletiva, afetam a todos nós, ferem a democracia

Pouco importa que o criminoso tenha dito que agiu a mando de Deus e demonstrado indícios claros de perturbação mental. A vida é feita de intenções e efeitos não intencionais, de razões e desdobramentos. Todo ato é uma coisa em si, pode não chegar a ser um ato para si, mas sempre pode repercutir. Em política, isso é ainda mais forte.

A facada foi em Bolsonaro, assim como meses atrás o alvo havia sido Marielle e um ônibus do PT. Sangue, fúria e ódio mal calibrados, que espirram na vida coletiva, afetam a todos nós, ferem a democracia.

Nenhuma disputa política tem chances de ganhar com a eliminação física dos adversários. Especialmente em condições democráticas, onde a “guerra” se faz de outro modo. A política precisa se afirmar não como poder, mas como convite ao diálogo, à moderação, à mediação do que é diverso e plural.

Tudo isso é mais que sabido, mas de tempos em tempos os atores perdem a memória. Numa sociedade em cujo DNA a democracia entrou tardiamente e de forma seletiva, mais como sistema do que como valor, são muitos os que não conseguem entender aquilo que é procedimento obrigatório, exigência, custo, “sacrifício”: ninguém está autorizado a se afirmar pela força, contra a vontade da maioria, por baixo de leis e instituições construídas coletivamente.

Não há nem sequer a possibilidade de que se diga, para justificar o fanatismo, o exagero, a agitação pueril, que leis e instituições foram impostas por oligarquias e classes dominantes, pelo Estado do capital ou qualquer outra baboseira do tipo. A esquerda que assim procede – seja a política, seja a intelectual – parou no tempo, contribui pouquíssimo para que a sociedade assimile os tempos complexos da política e da luta política, os desafios da democracia, entre os quais está a capacidade de tolerar e respeitar os que pensam de forma diferente ou estão em outros campos políticos e ideológicos. A extrema-direita que assim pensa – sim, ela também – nos empurra para trás com suas grosserias e agressões, seu fundamentalismo tosco e retrógrado.

Dirão que quem planta chuva colhe tempestade, que quem prega a violência recebe a violência de volta. É uma visão estreita, que justifica o injustificável mediante um exercício de relativização que termina por responsabilizar a vítima. É inaceitável que uma versão desse tipo saia da boca de candidatos, intelectuais ou formadores de opinião, porque eles são protagonistas centrais de um momento da vida social que precisa ser pedagógico, educativo.

A polarização escapou do razoável. Não se reveste mais de razões filosóficas, diferenças programáticas ou ideologias. Tornou-se veneno puro, que já há um tempo vem corroendo e intoxicando amizades, relações familiares, convivências, degradando mentes, gerando perturbações, angústias e ansiedades em pessoas que têm a vida para viver. É uma deformação que deveria ser combatida por todos, no mínimo porque com sua vigência não conseguimos respirar direito.

Insuflar ânimos, agredir adversários e transformá-los em inimigos, ofender divergentes e antagonistas, difamar e espalhar notícias inverídicas para agitar e chantagear, são práticas que desonram a democracia e bloqueiam a vida civilizada. Radicalizações que levam a dinâmicas “nós contra eles”, os bons e os maus, os santos e os golpistas, são o caminho mais curto para a quebra do pacto democrático que nos sustenta, ou deveria. Em algum momento, em alguma curva da estrada, o “nós contra eles” termina por se tornar a versão diabólica do “eles contra nós todos”.

O louco que esfaqueou Bolsonaro é um alucinado. Mas também é uma ameaça ao convívio dos integrantes de uma comunidade. Os que eventualmente vierem a aplaudi-lo, os que pedirem aos brados o seu linchamento, os que banalizarem o ato alegando que a vítima atraiu para si o que prega para os outros, os que acharem que não ocorreu nada de mais, estarão vendo o mundo com lentes distorcidas, sem conseguir valorizar aquilo que nos faz únicos no exercício político de substituir a guerra pelo diálogo. Polis, Urbe, Civitas são conceitos que passam longe deles, porque não sabem o que é democracia.

A derrota de Bolsonaro ou será democrática ou não se consumará. Por isso é que os democratas precisam ser solidários a ele. (O Estado de S. Paulo – 08/09/2018)

Marco Aurélio Nogueira, cientista político e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista)

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