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Ricardo Ranguel: Marcha irresistível

Falta sensatez no Supremo, no Planalto, no Congresso e também no setor privado: decisões irracionais conduzem país ao abismo

Na semana passada, o Supremo revogou a condução coercitiva: agora, se alguém se recusar a atender a uma intimação, não se pode obrigá-lo a comparecer perante o juiz. Em mais uma batalha entre o Brasil moderno e o Brasil do atraso, venceu o atraso: onde já se viu alguém ter o direito de se recusar a cumprir ordem judicial?

Tolstói observou que as famílias felizes são muito parecidas entre si, enquanto que as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. É fácil entender: para serem felizes, as famílias têm que ter sempre os mesmos requisitos (saúde, dinheiro, amor etc.); quanto às infelizes, falta um requisito diferente a cada uma.

“Entendi”, disse o ministro ao assessor que lhe mostrava a evolução dos custos com aposentadorias e pensões. “A Previdência vai quebrar. Mas o que eu quero saber é o seguinte: vai ser neste governo?”

Não, não ia ser naquele governo, o de João Figueiredo. Corria o ano de 1982, e o ministro Delfim Neto deixou o assunto para lá. Nesses 36 anos, o Brasil deixou o assunto para lá mais três vezes, e hoje o desequilíbrio na Previdência ameaça inviabilizar o país.

Nem por isso acordamos para problema. Os cinco primeiros colocados na corrida presidencial têm plena consciência de que quem vencer precisará fazer a reforma da Previdência no ano que vem, sob pena de não conseguir governar a partir de 2020. Não é preciso ser especialista em Teoria dos Jogos para perceber que deveriam conversar e anunciar que o vencedor fará a reforma e será apoiado pelos derrotados. Seria bom para cada um deles individualmente e para o Brasil. Não vão fazer nada disso, claro.

A Previdência não é o único problema brasileiro que se arrasta por décadas. Desde que JK abraçou o transporte rodoviário, houve uma greve de caminhoneiros a cada dez anos: o empresário de transportes, como seus pares em outros setores, reclama da complexidade tarifária, mas espreme o governo em busca de vantagens tributárias quando as margens apertam.

A cada greve, o governo da vez concedeu novo estímulo aos caminhões, concentrando ainda mais a matriz de transportes, aumentando a vulnerabilidade do país e a atratividade uma profissão que, em 20-25 anos, desaparecerá diante dos caminhões automáticos, deixando dois milhões de famílias sem sustento. Sem falar da poluição e do aquecimento global.

Tudo o que se refere a petróleo, por sinal, espanta. Eufórico com a descoberta do pré-sal, Lula mudou o regime de exploração, para exigir pagamento em óleo (em vez de dinheiro) e forte nacionalização. O resultado foi a explosão da corrupção e a inviabilização do pré-sal por muitos anos (nunca recuperaremos os bilhões que deixamos de ganhar). A dádiva tornou-se maldição.

Faltam-nos muitos requisitos para a felicidade, mas o principal parece ser a sensatez: ela está ausente no Supremo, no Planalto, no Congresso, na Previdência, nos transportes, no setor privado, no sistema tributário, no petróleo, e também na saúde, na segurança, na educação e em muitos outras áreas.

Nossos governantes e empresários não precisam ler Tolstói: eles precisam ler “A marcha da insensatez”, em que a historiadora Barbara Tuchman estuda o que leva os governos a tomarem decisões irracionais que conduzem seus países ao abismo. (O Globo – 18/06/2018)

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