PARTIDO POPULAR SOCIALISTA

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Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (15/05/2018)

MANCHETES

O Globo

Tiroteios atingem 9 entre 10 bairros
Alta do dólar chega aos preços em junho
DEM lidera formação de bloco de centro
Argentina: dólar sobe após governo intervir

O Estado de S. Paulo

Protestos em Gaza deixam 58 palestinos mortos
Governo proíbe perdão de débito rural que pode chegar a R$ 17 bi
91% dos deputados na mira da Lava Jato disputarão as eleições
TCU mira empresa que tenha obra e concessão
Moro condena mais um tesoureiro do PT

Folha de S. Paulo

55 palestinos morrem em confronto na faixa de Gaza
1/3 dos presidenciáveis desiste antes da eleição
Divulgação de pesquisa empurra dólar a R$ 3,63
Quem ofender PM corre risco de vida, afirma governador

EDITORIAIS

O Globo

Candidato não pode fugir de perguntas difíceis

Até porque a campanha eleitoral, este ano, é mais curta — o período de propaganda dita gratuita, por exemplo, ficou dez dias menor, passando de 45 para 35 —, os candidatos precisam se definir e ser claros, com alguma presteza, em um momento especialmente grave para o país.

Mesmo que se possa considerar ainda cedo para esclarecimentos, não é bom sinal que dos quatro concorrentes ao Planalto mais bem colocados nas pesquisas — Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT) —, aos quais o GLOBO encaminhou 11 perguntas sobre a vital reforma da Previdência, nenhum tenha dado uma resposta completa, embora três hajam concordado que as mudanças são necessárias.

Um, Bolsonaro, líder nas sondagens, nada respondeu. Marina, Alckmin e Ciro não se definiram, por exemplo, sobre a fixação de uma idade mínima para a obtenção da aposentadoria, e acerca das diferenciações de parâmetros para a obtenção do benefício por homens e mulheres. A questão específica do limite de idade — estabelecido em 62 anos para mulheres e 65 para homens, na proposta do governo estacionada na Câmara — é uma das cruciais na reforma, porque se constitui causa importante do enorme e crescente desequilíbrio do sistema.

Como é possível aposentar- se por tempo de contribuição ao INSS, a idade média do aposentado é muito baixa (aquém dos 60 anos). E porque avança a expectativa de vida do brasileiro, o sistema precisa arcar com benefícios por aproximadamente mais 20 anos, sem que haja contribuições para financiar os gastos. Daí o crescimento acelerado do déficit.

No ano passado, o rombo total — assalariados do setor privado e servidores públicos — foi de R$ 268,8 bilhões, tendo sido de R$ 226,8 em 2016, um salto de 18%. Os candidatos não podem se esquecer do momento delicado por que passam as contas públicas. As despesas previdenciárias são o maior item do Orçamento, e a folha de salários dos servidores vem em seguida.

Político não gosta de abordar temas impopulares. Mas há alguns, pela sua importância, que não podem ser desconsiderados. Previdência e todos seus subtemas — como a indexação de benefícios — estão neste caso. O escamoteamento feito na campanha de 2014 pela candidata à reeleição Dilma Rousseff funciona como alerta. Desde há muito tempo, no final do segundo governo Lula, foi alertado que persistir na política de aumento de gastos, lançada para reduzir o impacto da crise mundial iniciada em 2008/9, era um suicídio.

O tema foi abordado na campanha, incluindo a Previdência, e desconsiderado por Dilma. Eleita, foi forçada a tentar um ajuste fiscal, que denunciara na propaganda. Desabou a sua popularidade e desapareceu a margem de manobra no Congresso. Como cometera crime de responsabilidade, na manipulação das contas públicas, terminou perdendo o mandato.

O Globo

A tragédia por trás dos casarões do tráfico

Sabe-se que o Rio, assim como todo o país, tem um déficit habitacional crônico — somente na Região Metropolitana, a demanda é de pelo menos 340 mil moradias, segundo dados da Pnad/IBGE compilados pela Fundação João Pinheiro. Da mesma forma, é de conhecimento público o estrago causado pelo tráfico de drogas no cotidiano da população fluminense.

Por isso, não é difícil imaginar o tamanho da dor de cabeça quando esses dois problemas se juntam. É o que está acontecendo no coração da cidade, à vista de todos. Como mostrou reportagem do GLOBO, publicada no último domingo, quadrilhas de traficantes já controlam casarões ocupados por famílias de sem-teto no Centro. Essas construções passaram a funcionar como bocas de fumo, numa espécie de posto avançado dos negócios do tráfico, o chamado “estica”.

Diferentemente do que ocorre nas comunidades, onde bandidos se aproveitam da topografia local e do espaço público desordenado para estabelecerem suas trincheiras, essas bocas estão instaladas na cidade formal. Uma das ocupações, por exemplo, está localizada numa vila da Rua do Lavradio, na Lapa, região boêmia da cidade, frequentada por uma multidão todas as noites. Bem ao lado do Tribunal Regional do Trabalho, perto de duas delegacias policiais e de um Ciep.

Os “proprietários”, no caso, são traficantes do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, que escolhem quem pode ou não morar nos imóveis invadidos. Policiais da 5ª DP (Mem de Sá) alegam que já prenderam mais de 80 pessoas no local e recorrem à surrada expressão de “enxugar gelo” para traduzir as ações de repressão ao comércio de drogas. Essas bocas, em que maconha, cocaína e crack são vendidos livremente, às vezes com fila na porta, se estendem ao entorno de cartões-postais do Rio.

Um dos casarões do tráfico fica na Rua Joaquim Silva, próximo aos Arcos da Lapa e à escadaria Selarón. Controlada por traficantes do Morro do Fallet, em Santa Teresa, a venda de drogas no local envolve adolescentes e até crianças. Em geral, as condições encontradas nesses casarões não são muito diferentes daquelas que levaram ao incêndio e à queda do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, na madrugada de 1º de maio.

Moradores explorados por ditos movimentos de sem-teto, prédios com fiações expostas, feitas ilegalmente, acúmulo de material inflamável como madeira e papelão, inexistência de sistemas contra incêndio etc. E com um agravante: agora tendo o tráfico como síndico. Na verdade, essa situação é fruto da desordem, do desleixo com as ocupações, da vista grossa para “movimentos sociais” que exploram a miséria e da ineficácia do poder público na busca de soluções para a falta de moradia.

Projetos como a demolição do antigo prédio do IBGE, na Mangueira — que chegou a ser ocupado pelo tráfico — para dar lugar a um conjunto habitacional estão no caminho certo, mas ainda são incipientes. Era preciso transformar a exceção em regra.

O Estado de S. Paulo

São Paulo evitou queda maior da indústria

Crescendo 2% entre fevereiro e março, a produção industrial do Estado de São Paulo evitou um recuo mais forte do setor secundário no País, em queda de 0,1% no período. Ainda deve ser visto como claudicante o comportamento do segmento, como mostrou a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física Regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A produção não só caiu em 8 das 15 áreas pesquisadas, como desabou em 3 delas, Rio de Janeiro (-3,7%), Bahia (-4,5%) e Região Nordeste (-3,6%), em relação a fevereiro.

No Rio, a comparação entre os primeiros trimestres de 2017 e de 2018 ainda é positiva (3%), mas os resultados na Bahia (+0,9%) e na Região Nordeste (-0,3%) estão bem abaixo da média da indústria. Quedas na produção menos expressivas foram observadas em Estados mais desenvolvidos, como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, além do Ceará. Entre os Estados cuja indústria ficou no campo positivo, o Pará, muito dependente das atividades extrativas, registrou crescimento de 9% entre fevereiro e março depois de ter caído 11% entre janeiro e fevereiro, o que dá uma ideia da intensidade das oscilações da indústria.

Em Mato Grosso, o avanço de 4,7% foi ajudado pelo vigor de alimentos e biocombustíveis e, no Espírito Santo, a alta de 2,8% foi empurrada pela alta do minério de ferro. Em São Paulo, o crescimento da indústria é superior ao do País: 4% entre março de 2017 e março de 2018 (contra a média nacional de 1,3%), 5,3% entre os primeiros trimestres de 2017 e de 2018 (3,1%) e 4,6% nos últimos 12 meses, comparativamente aos 12 meses anteriores (2,9%). Veículos, metalurgia, máquinas e equipamentos e biocombustíveis se destacam na produção paulista.

O comportamento do setor industrial tem oscilado muito nas áreas abrangidas pelo levantamento do IBGE, mostrando não só as dificuldades que os empresários enfrentam para planejar a produção, como a desconfiança dos consumidores quanto ao futuro. Sem produção regular, as indústrias recolhem menos tributos, o que agrava a situação fiscal de entes subnacionais já muito debilitados, por exemplo, na Região Nordeste. O ciclo negativo se completa quando Estados e municípios sem recursos atrasam pagamentos a fornecedores e a servidores, o que retarda a retomada.

O Estado de S. Paulo

O risco-chave, segundo o FMI

O Brasil poderá entrar em nova crise, e até em recessão, se o próximo governo abandonar a pauta de ajustes e reformas, disse o diretor do Departamento de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Alejandro Werner. Ele destacou a importância da reforma da Previdência, mas um crescimento mais rápido e sustentável, acrescentou, dependerá de mudanças mais amplas.

Uma política inovadora deve incluir, entre outros pontos, segundo o diretor do FMI, abertura econômica e simplificação do sistema tributário. Werner comentou as perspectivas do País ontem, em Nova York, num evento da Fundação Getúlio Vargas e da Câmara de Comércio Brasileira e Americana. Advertências muito parecidas têm sido formuladas no Brasil por economistas conhecidos pela competência técnica e pelo bom senso.

As avaliações apresentadas por Alejandro Werner põem a discussão, no entanto, num cenário mais amplo. Ele dirige uma equipe familiarizada com a economia de toda a América Latina e empenhada em acompanhar 0 dia a dia das crises, das políticas, das estratégias de ajustes e mudanças e, naturalmente, dos sucessos e fracassos.

Esse panorama é discutido no relatório de perspectivas econômicas das Américas divulgado na sexta-feira passada numa entrevista coletiva em Lima. As economias estão em crescimento em quase todo o hemisfério, do Canadá à Argentina e ao Chile, mas, em vez de apenas festejar a recuperação, os autores do estudo lançam uma exortação: é preciso aproveitar o impulso para levar adiante as pautas de reformas.

A exortação vale especialmente para os países latino-americanos, e, dentro desse conjunto, para Brasil e Argentina. Apesar da retomada do crescimento e da melhora de alguns indicadores importantes, as duas maiores economias da América do Sul ainda têm de enfrentar uma pesada agenda de consertos e reformas. A Argentina, muito vulnerável a problemas externos e, portanto, a pressões cambiais, acabou pedindo ajuda ao Fundo pouco antes da divulgação do relatório.

O Brasil, com bom volume de reservas, contas externas saudáveis e inflação bem abaixo da meta oficial, tem mais espaço para se mexer. Não pode, no entanto, retardar por muito tempo, a continuação do programa iniciado pelo governo Temer. Os perigos maiores foram apontados com clareza no pronunciamento de Alejandro Werner em Nova York.

Sem rápida melhora das finanças oficiais, a dívida pública poderá em breve superar 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem perspectiva de melhora, os mercados poderão retrair-se. Com isso o financiamento se tornará muito difícil e custoso, o País poderá entrar em nova crise e afundar de novo em recessão.

A lista de ações para arrumar a economia, torná-la mais segura e aumentar a capacidade de crescimento inclui, além da reforma da Previdência e de mudanças no sistema tributário, alterações na alocação de crédito, abertura ao comércio, maior integração nos mercados globais, melhora da infraestrutura e redução da burocracia.

Dois fatores positivos são apontados: 1) o atual governo tomou iniciativas na direção correta, propondo o teto de gastos e iniciando as correções; 2) a reativação da economia proporciona condições para um ajuste mais intenso na fase inicial e para o avanço na pauta de reformas. A proposta de aproveitar o impulso vale para todo o hemisfério, especialmente para a América Latina, mas aplica-se muito especialmente ao Brasil.

O caso brasileiro se destaca, no entanto, por mais um fator de preocupação: o “risco-chave”, segundo o relatório, é o de alteração do programa econômico depois das eleições presidenciais, com “maior instabilidade no mercado e maior incerteza quanto às perspectivas de médio prazo”.

De modo geral, a expectativa de continuidade dos ajustes aparece nos comentários sobre os demais países da América Latina. Ao traduzir o quadro eleitoral em termos de grave incerteza econômica, os técnicos do FMI mostram boa informação e realismo. Longe de ser um excesso retórico, a expressão “risco-chave” é um alerta preciso.

O Estado de S. Paulo

O prestígio das universidades

As universidades brasileiras voltaram a cair nos lev a n t a m e n t o s comparativos promovidos pela conceituada publicação britânica Times Higher Education (THE), que em 2018 avaliou 350 instituições de ensino superior de 42 países emergentes. Até a Universidade de São Paulo (USP), apesar de ter continuado a ser a mais importante da América Latina, perdeu posição.

Depois de ter ficado em 13.° lugar em 2017, ela caiu para o 14.° lugar neste ano. Foi a segunda vez que a USP ficou fora da lista das dez melhores. As primeiras posições foram ocupadas pelas universidades chinesas de Pequim e de Tsinghua. Além da USP, outras quatro universidades brasileiras conseguiram permanecer entre as 100 com maior reputação acadêmica entre os países emergentes.

A Universidade Estadual de Campinas ficou no 33.° lugar, seguida pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (61.°), pela Universidade Federal de São Paulo (92.°) e pela Universidade Federal de Itajubá (98.°). Instituições tradicionais, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal de Minas Gerais foram classificadas na 131.ª e na 150.ª posições, respectivamente.

A terceira universidade pública paulista, a Universidade Júlio de Mesquita Filho, ficou no 162.° lugar. E uma das mais tradicionais universidades estaduais brasileiras, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que atravessa a pior crise financeira de sua história, registrou uma queda abrupta. Ela estava entre as 201 e 250 melhores e passou a ser classificada entre as 301 e 350 (o estudo não revela a posição de cada universidade depois do 200.° lugar).

Além de entrevistar milhares de professores, cientistas e pesquisadores que atuam no mundo acadêmico há pelo menos 18 an0s, a THE leva em conta vários indicadores de desempenho e reputação, como o orçamento de cada universidade, o grau de internacionalização, o ambiente de ensino, a capacitação do corpo docente, o número de títulos de doutor concedidos, o número de pesquisas e o volume de receitas delas decorrente, citações de artigos em periódicos de prestígio mundial e o nível de absorção, pelas empresas, das tecnologias inovadoras desenvolvidas em parceria com instituições de ensino superior.

A exemplo do que ocorreu com as universidades brasileiras, as demais instituições de ensino superior da América Latina, com poucas exceções, também perderam posição no levantamento da THE. Um dos motivos foi a queda na receita fiscal dos países latino-americanos causada pela crise econômica. Isso as impediu de investir na internacionalização de suas principais universidades, o que é uma iniciativa fundamental para aumentar o número de doutores premiados por mérito acadêmico e, por consequência, o número de publicações científicas com conselho de arbitragem.

Outro motivo foram as turbulências políticas na região, que dificultam o intercâmbio acadêmico entre as universidades latino-americanas e os principais centros de ensino de pós-graduação e desenvolvimento de ciência de ponta do mundo, nos Estados Unidos e na Europa. Sem universidades de nível global, que sejam competitivas internacionalmente, os países da América Latina enfrentam grandes dificuldades para crescer com base em inovação científica e tecnológica, afirmam os responsáveis pela pesquisa da THE.

A perda de posições das universidades brasileiras nos levantamentos comparativos de reputação acadêmica merece uma cuidadosa reflexão por parte das autoridades educacionais. Quando uma universidade é bem classificada, ela consegue atrair bons alunos e excelentes professores, o que amplia as fontes de financiamento para suas atividades de ensino e pesquisa.

No entanto, quando perde posições, isso prejudica sua imagem, desestimula a procura de vagas por bons alunos e leva os melhores professores a buscarem colocações em instituições mais prestigiadas, o que acarreta menos oportunidades de obter financiamento nas agências de fomento e em organismos multilaterais.

O Estado de S. Paulo

E o atraso vai vencendo

A situação da Eletrobrás é insustentável. Em vez de induzir o crescimento, ela está parada na contramão, acumulando resultados deficitários. Seu controlador, o Estado, não tem condições de realizar os investimentos necessários. A solução para o problema é, todos sabem, a sua privatização. Além de dar remédio às deficiências da estatal, a medida tem potencial de produzir efeitos muito benéficos para a economia do País, em tempos de difícil retomada.

Não deixa de ser surpreendente, portanto, a dificuldade encontrada para pôr em andamento o plano do governo federal de privatizar a Eletrobrás. Todos os passos encontram grandes resistências, em boa medida oriundas da própria base aliada do governo. Em agosto de 2017, o governo de Michel Temer anunciou sua intenção de privatizar a Eletrobrás.

Como a Lei 10.848/2004 havia excluído a estatal do Programa Nacional de Desestatização, o Palácio do Planalto expediu, no mês de dezembro, a Medida Provisória (MP) 814/2017, que retirou essa proibição. Tal medida encontra-se ainda em tramitação no Congresso, que parece não ter entendido a urgência do assunto.

Além disso, em janeiro de 2018, o Executivo apresentou ao Legislativo um projeto de lei definindo o modelo a ser adotado na privatização da Eletrobrás. Segundo a proposta do Palácio do Planalto, a desestatização deverá ser feita por aumento do capital social mediante subscrição pública de ações ordinárias. Assim, a participação da União seria diluída, deixando de ser majoritária.

Também seria criada uma ação preferencial de classe especial, de propriedade exclusiva da União (golden share), de modo a assegurar poder de veto sobre algumas decisões de especial interesse público. No momento, o Projeto de Lei (PL) 9.463/2018 aguarda o parecer de uma comissão especial, sem previsão de data para ir a votação pela Câmara.

Como forma de destravar este complicado processo, o governo federal anunciou que incluiria, por decreto, a estatal no Programa Nacional de Desestatização. De fato, na quinta-feira passada, foi expedido o Decreto 9.351/2018 com o teor anunciado. No entanto, surgiu uma pequena novidade. Segundo o ato, o início dos “procedimentos necessários à contratação dos estudos pertinentes” à privatização da estatal ficará suspenso até que o Congresso aprove o PL 9.463/2018.

Assim, mais do que agilizar a desestatização, o decreto presidencial oficializou a incerteza. Fez depender do Congresso o início dos trabalhos para a privatização. Essa previsão parece ter sido resultado de uma exigência da Câmara dos Deputados, que almeja precedência no assunto. Tivesse o Congresso uma maioria minimamente sintonizada com o interesse nacional, o texto do decreto não causaria maiores transtornos, já que, diante das evidentes razões para privatizar a Eletrobrás, certamente o PL 9.463/2018 seria rapidamente aprovado.

Como se sabe, a atual composição do Congresso não manifesta especial interesse na privatização da Eletrobrás. A cada dia, constata-se uma nova resistência por parte de alguns políticos, desejosos de continuarem contando com a estatal a serviço de seus interesses. Não querem perder o butim – e por isso é tão preocupante que o Decreto 9.351/2018 determine esperar a aprovação do Congresso.

É sinal de que o pessoal contrário à privatização está conseguindo incluir todos os obstáculos necessários para que a Eletrobrás continue exatamente como está. Nessa demora, quem perde, uma vez mais, é a população. O contribuinte vê-se obrigado a bancar uma estatal deficitária. A infraestrutura do País fica cada vez mais defasada.

O mercado de energia torna-se menos competitivo e, portanto, a conta de luz para as famílias e as empresas fica mais cara. Tem-se, assim, a vitória do atraso. O resultado podia ser diferente, mas para isso o interesse nacional tem de ser defendido com mais empenho.

Folha de S. Paulo

Lobby do carimbo

Privilegiados por regras arcaicas, cartórios pressionam contra projetos que buscam a melhora do ambiente de negócios; Congresso é permeável a minorias abastadas

Há muito se cunhou a expressão “capitalismo cartorial” para caracterizar vícios dos arranjos econômicos do Brasil—em particular, as prebendas do Estado que permitem a grupos influentes obter ganhos vultosos sem preocupações com a competição no mercado.

Os cartórios de fato ilustram à perfeição tais práticas, operando à sombra do poder público e do incomum cipoal burocrático dopais.

Até a Constituição de 1988, seus titulares eram indicados por gestão política; depois veio a exigência de concurso —e resta considerável pressão p ara que se efetivem os apadrinhados remanescentes. Ainda hoje o posto é vitalício.

Alguns indicadores ajudam a dimensionar as recompensas proporcionadas por essas sinecuras. Em2017, os quase 12 mil tabelionatos nacionais contabilizaram faturamento de R$ 14,65 bilhões, cifra que permanece estável desde 2015.

Dados das declarações do Imposto de Renda das pessoas físicas apontam o comando de cartórios na liderança das ocupações mais bem remuneradas, em média.

Dificilmente um setor com tais benesses se bateria por propostas modernizadoras. Não surpreende, pois, que tenha feito lobby contra o cadastro positivo de devedores e a duplicata eletrônica, dois projetos que buscam melhorar o ambiente de negócios do país.

No primeiro caso, propõe-se a inclusão automática de consumidores em um banco de dados de informações financeiras, de modo que bancos e outras instituições possam identificar os melhores clientes e competir por eles.

No segundo, pretende-se instituir um registro digital obrigatório de títulos negociados entre empresas.

Ambos representam, em alguma medida, ameaça à renda dos cartórios —seja por reduzir a inadimplência e o número de papéis em protesto, seja por eliminar procedimentos tornados arcaicos pelo avanço da eletrônica.

Também em comum, os textos avançam aos trancos num Congresso altamente permeável aos interesses de minorias bem remuneradas e organizadas. Daí se tem uma ideia de como será árduo levar adiante uma agenda de eliminação de privilégios, redução da desigualdade e abertura econômica.

Folha de S. Paulo

Conveniência sangrenta

O roteiro do conflito israel o palestino tem se revestido de uma previsibilidade sinistra. Já se esperava que os protestos na faixa de Gaza na segunda-feira (14) seriam os maiores das últimas semanas, por causa das comemorações dos 70 anos de fundação de Israel.

Também era sabido que as tropas do Estado judeu não aceitariam a hipótese de palestinos invadirem seu território em data tão simbólica, não à toa escolhida para concretizar a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém. Tal medida, aliás, agravou o nível de animosidade entre os árabes.

O saldo de ao menos 55 manifestantes mortos nos choques ao longo da fronteira pode chamar a atenção por se tratar da jornada mais violenta em Gaza desde 2014, quando da última invasão militar israelense no território controlado pela facção radical Hamas. Entretanto não se pode falar em surpresa.

Embora à primeira vista pareça ilógico, esse cenário de atritos cada vez mais constantes e letais revela-se conveniente, para os governantes de um lado, e no mínimo aceitável, para os do outro.

Afinal, há tempos o Hamas explora o ressentimento palestino para incitar a população contra o Estado judeu, cujo direito de existir não é reconhecido por seus líderes. Alto-falantes das mesquitas foram usados para convocar os fiéis a engrossar os atos diante do muro que os separa de Israel e, assim, aumentar a chance de alguém furar as barreiras.

No poder desde 2007, o movimento considerado terrorista pelos israelenses arruinou a economia e a infraestrutura locais. Atribuir a culpa da má administração às restrições para a entrada de mercadorias, entre outras ações impostas pelo vizinho, constitui um argumento de apelo fácil.

Por outros motivos, observa-se semelhante falta de empenho em buscar a paz por parte do governo israelense. O premiê Binyamin Netanyahu se vale do radicalismo em Gaza como justificativa —legítima, diga-se— para recorrer ao poderio militar em defesa do país.

Dada a evidente assimetria de forças entre as duas partes, o nível de ameaça, na prática, é pequeno. No cálculo do linha-dura Netanyahu, não vale o esforço de abrir um canal de negociação, mesmo que isso implique frequente recriminação internacional pela repressão às manifestações palestinas.

O desinteresse nesse tema fica claro diante da expressa preocupação com o programa nuclear do Irã —este, sim, visto como perigo real. No entanto, o primeiro-ministro tampouco parece crer em diálogo para lidar com essa questão.

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