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Roberto Freire: Um misto de Stalin e Santa Inquisição

Assisti “7 Dias em Entebbe”, de José Padilha, o cineasta brasileiro de maior sucesso, nacional e internacionalmente, na atualidade.

Eu conhecia a história e os fatos. Tinha visto alguns documentários e lido a respeito.

Trata-se de uma obra autoral, baseada em fatos, não um documentário.

Vê-se o dedo do autor, que, evidentemente, constrói uma narrativa pessoal, da qual se pode concordar ou discordar.

Assisti o filme como cinema, não como história.

Padilha é um mestre. Na sequência final, o ataque das tropas especiais ao Aeroporto onde estavam os reféns israelenses, o confronto com a dança, fez a plateia do cinema parar de respirar.

José Padilha procedeu da mesma forma, em sua filmografia, na qual destacam-se “Ônibus 174″, “Tropa da Elite”, “Tropa de Elite 2″, e os recentes “7 Dias em Entebbe” e a série do Netflix, “O Mecanismo”.

O lulopetismo, diante de “O Mecanismo”, que tem como pano de fundo a operação Lava Jato, reagiu de forma a revelar as entranhas de sua ideologia totalitária.

Essa corrente atacou o mérito de “O Mecanismo”, convidou ao boicote e satanizou, pessoalmente, José Padilha.

O stalinismo marcou-se por ditar as regras pelas quais toda a arte e a cultura deveriam se pautar, a elegia do coletivo, do socialismo em sua concepção soviética e do que considerava os valores do “novo homem” e na adoração do supremo líder.

Assim também procedia o nazismo, em sua louvação da superioridade da raça ariana, do elogio à infabilidade do chanceler e ao que considerava serem seus valores supremos.

Também procedem assim os fundamentalistas islâmicos e de toda sorte de religião, nas teocracias que excluem todos que não rezam pela exata cartilha do Estado e dos sumos sacerdotes.

Todas essas correntes totalitárias são, necessariamente, punitivas.

A Santa Inquisição medieval condenava à morte, à execração, às masmorras e ao desterro todos os que não seguissem exatamente os cânones do que então pensava o Vaticano.

O lulopetismo, ao atacar o mérito da obra de José Padilha, em “O Mecanismo” e buscar execrá-lo pessoalmente, revela-se ao mesmo tempo stalinista e adepto da Santa Inquisição.

Uma das maiores conquistas da civilização é a liberdade do indivíduo frente ao Estado, ao governo, às Igrejas, às religiões, aos partidos e a toda sorte de instituições.

No plano da cultura e das artes, o artista, o intelectual tem de guiar-se única e exclusivamente por sua consciência, seus anseios e seus talentos.

Suas obras não podem ser dirigidas nesta ou naquela direção. Não podem ser promovidas ou boicotadas devido ao que seus autores expressam ou deixam de expressar.

Agi assim, quando ministro da Cultura do governo Temer.

Incentivos governamentais não podiam seguir quaisquer ditames que não fossem as exigências técnicas e de capacitação dos que as pleiteavam.

Enfrentei resistências, tenho de confessar, à montante e à jusante. Ser radicalmente democrata e republicano exige, no território das artes e da cultura o irrestrito respeito à liberdade individual de criação.

É desnecessário dizer que, se houver infrações à legislação do Estado Democrático de Direito, à posteriori existem as leis e tribunais, para que direitos de eventuais prejudicados possam ser defendidos, se for o caso.

O totalitarismo não é privativo da esquerda lulopetista.

Veja-se o caso de exposições artísticas, contra as quais setores da sociedade que se proclamam arautos das virtudes se rebelam, para que sejam fechadas em todo ou em parte.

Ambos os extremos, à esquerda e à direita, se encontram não só na rejeição à democracia e à república, mas também na censura e punição a tudo que lhes questiona e escapa a seus cânones.

O totalitarismo é necessariamente avesso à diversidade, sobretudo de pensamento. (Diário do Poder – 12/05/18)

Roberto Freire é presidente do PPS 

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