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Luiz Carlos Mendonça de Barros: O BC e a recuperação cíclica

A recuperação cíclica iniciada em junho de 2016 está perdendo o fôlego nestes primeiros meses do ano. Os dados já disponíveis mostram isto de maneira clara e cristalina. O que mais me assusta é a piora do mercado de trabalho depois de vários meses de recuperação. Em uma economia em que o consumo das famílias representa quase 70% do PIB, a confiança do consumidor na recuperação e o crescimento do emprego são pedras básicas para a manutenção da recuperação cíclica.

Trata-se de uma armadilha ainda mais perigosa depois da recessão que reduziu em 9% o PIB e criou um hiato negativo da mesma ordem no tecido econômico produtivo. Nesta situação, o investimento se reduz de forma dramática em função do excesso de capacidade produtiva que se instala na economia. Para completar o quadro de falta de demanda agregada que estamos vivendo o governo federal vem reduzindo de forma expressiva seus gastos discricionários de consumo e investimento.

Este cenário é comum nas economias de mercado no momento seguinte ao estouro de uma bolha de consumo, como aconteceu nos Estados Unidos e na Europa Unida entre 2008 e 2012. Os indicadores deste período mostram um quadro muito semelhante ao do Brasil pós-governo Dilma Rousseff, com uma expressiva queda no PIB abrindo um hiato de produto e um déficit fiscal parecidos com o nosso. A grande diferença entre estes dois cenários é que no Brasil não tivemos uma crise bancária como a ocorrida nos dois blocos mais influentes do primeiro mundo.

Esta diferença é muito importante quando avaliamos as ações do Copom no período pós impeachment, pois o grau de liberdade da ação da política monetária no Brasil foi maior do que a que se apresentou ao Fed e ao BCE no período de recuperação. Mesmo assim no caso brasileiro prevaleceu um conservadorismo exagerado na condução da política monetária e que está comprometendo a recuperação econômica iniciada em junho de 2016.

Esta questão foi levantada por mim em maio do ano passado em um debate patrocinado pelo Valor por ocasião de seu aniversário de fundação. O Copom já havia iniciado a redução dos juros Selic, mas seguia uma trajetória ultraconservadora de reduções de 50 pontos a cada reunião. Nesta ocasião fiz os seguintes comentários:

“O que estamos vivendo hoje é – em termos macroeconômicos e mesmo microeconômicos –  diferente. E é por isto que fico p…. da vida com o Banco Central, que tem uma política como se nós não estivéssemos vivendo uma dinâmica diferente de uma bolha de consumo que estourou! Com este negócio de 50 pontos, 50 pontos, 50 pontos… agora, claramente com os ajustes que foram feitos e com uma nova política econômica, a queda de 9% do PIB e 11% na absorção interna estamos vivendo a mesma coisa que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa na virada da última década”.

“Esta dimensão da queda de demanda interna gera um metabolismo econômico diferente. Tanto é verdade que o Fed e o BCE – este sob o comando de Mario Draghi – foram por este caminho (redução drástica e imediata dos juros) e hoje você tem um sucesso extraordinário de uma política monetária que sempre foi catalogada pelos conservadores como irresponsável”.

“E nós estamos aqui hoje com a maioria dos analistas considerando como se estivéssemos um período de contração de demanda absolutamente normal como em outras ocasiões no passado. Só que isto tem um outro problema mais grave. Nós deveríamos estar ajudando – com a queda mais agressiva dos juros – o governo Temer a se fortalecer para enfrentar não só as reformas como a eleição de 2018. E a atuação do Banco Central esta fazendo justamente o contrário. Em um momento em que precisaríamos ter realmente estímulos na economia para que a opinião pública começasse a sentir ventos melhores, nós estamos empurrando isto para a frente”.

No debate que se seguiu, reforcei estes dois pontos de minha divergência com os outros participantes. Ressaltei o espaço que havia para uma redução bem maior e, principalmente, mais rápida dos juros Selic em função da dimensão do hiato do produto que existia na economia e da necessidade política de uma recuperação mais rápida do emprego para enfrentar as eleições de 2018. Minhas angústias de então se provaram reais neste mês de abril com a desaceleração da recuperação da economia e o quadro político eleitoral que temos hoje.

Embora a taxa Selic de hoje – com mais uma redução na próxima reunião do Copom – seja correta, sua trajetória ao longo do tempo foi claramente equivocada. Lenta demais para o quadro macroeconômico que vivíamos. E confirma os problemas que levantei no debate do Valor à vista de todos. Com a lentidão da recuperação, mais de 60% da população vive uma realidade econômica e social semelhante à dos piores momentos do último ano do governo Dilma. Para eles não existe nenhuma diferença visível entre o governo Temer de hoje e os piores momentos do governo Dilma. Portanto o discurso da centro-direita – de que recuperamos a responsabilidade na condução da economia – cai totalmente no vazio nos segmentos de menor renda da população.

E aumenta o risco de uma nova aventura da esquerda no Brasil. (Valor Econômico – 16/04/2018)

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é presidente do Conselho da Foton Brasil. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

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