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Cida Damasco: Depois da dispersão

Uma leve passada pelas redes sociais nos últimos dias é suficiente para se identificar um estridente bloco de críticos do carnaval. O mote é sempre o mesmo: se todo mundo que ocupa as ruas para brincar fizesse o mesmo para reivindicar seus direitos, o Brasil estaria muito melhor. Por esse raciocínio, os brasileiros não teriam direito de se jogar no carnaval porque a corrupção continua viva, porque os políticos só cuidam de seus próprios interesses, porque o Judiciário não se preocupa mais em esconder seus desvios de comportamento e assim por diante. É mais ou menos igual ao que se diz do futebol, ou seja, que teria o poder de encobrir o que realmente importa.

Polêmicas de internet à parte, o fato é que foi sempre assim e será sempre assim, com o carnaval e com o futebol, independentemente dos momentos que o País atravessa, dos altos e baixos na economia, da estabilidade e dos solavancos na política. Mais ainda nesses tempos em que os ânimos inflamados das manifestações antes do impeachment de Dilma cederam lugar a uma combinação de exaustão e indiferença das ruas em relação aos desmandos na política. Ninguém tem ilusões de que é possível “esquecer” os problemas. É só uma pausa. Mais dois dias de festa e a realidade se impõe. “Quarta-feira sempre baixa o pano”, como diz a velha canção de Chico Buarque. O que não falta é obstáculo a ser derrubado, dúvida a ser desfeita e decisão a ser tomada neste ano que, contrariando a tradição, “começou” bem antes do carnaval, como continuidade de um longo período de incertezas, que vem se arrastando desde as eleições de 2014.

Política e economia se enroscam, numa campanha presidencial que domina o cenário há bom tempo, antes mesmo de se desenhar o painel completo das candidaturas. Duas grandes definições são esperadas para logo depois da quarta-feira. Na economia, a questão central continua sendo o “vota-não vota” da reforma da Previdência. Sim, ainda a Previdência. Se vocês acham que essa é a enésima vez que o governo e seus líderes no Congresso negociam concessões na reforma e marcam uma data para a votação, fiquem certos de que não se trata de mera impressão. E tudo indica que essas idas e vindas ainda poderão se estender. Caso a nova proposta – quando se fala em nova proposta, leia-se mais encolhida – não for votada até o fim do mês, o governo e sua base parlamentar podem simplesmente desistir dela ou camuflar essa desistência com a fixação de um novo prazo.

Já se fala abertamente em novembro, o que, na prática, significa deixar a reforma da Previdência para o próximo governo. Na política estão previstos para logo depois do carnaval novos lances na montagem das candidaturas à presidência da República. A ser confirmado que o nome de Lula é mesmo “irregistrável”, como indicou o ministro Luiz Fux, o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o foco se desloca para o “vai-não vai” da candidatura do outsider Luciano Huck, apadrinhado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Huck estaria “considerando se candidatar”, segundo FHC, e, pressionado pela rede Globo e pelos políticos que o cortejam, prometeu uma resposta para logo depois do carnaval. Se Huck entrar na disputa, não se sabe se vai só com o PPS, de onde partiu o convite, ou em parceria com o DEM – embora líderes do partido digam que, diante da hesitação de Huck, o DEM já teria se decidido por apresentar um candidato próprio, no caso o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

No meio de toda essa movimentação, ainda permanecem dúvidas sobre o potencial de votos que Huck pode atrair, tanto de simpatizantes lulistas como de liberais que já começam a ver com “simpatia, quase amor” o outro outsider, Jair Bolsonaro. Mas dá para imaginar o potencial de estragos que ele fará no campo do centro, mais especificamente na candidatura ainda bamba de Geraldo Alckmin. Por mais que FHC insista que é um homem de partido, seu candidato é Geraldo Alckmin, e ele e Huck são apenas “bons amigos”. Temer garantiu que, na tranquilidade da restinga da Marambaia, continuaria pensando na reforma da Previdência. Huck mantém silêncio, mas seus interlocutores dizem que ele continua se aconselhando com apoiadores para tomar sua decisão. Pelo menos nos camarotes por aí afora, não se fala de outra coisa. (O Estado de S. Paulo – 12/02/2018)

Cida Damasco é jornalista

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