PARTIDO POPULAR SOCIALISTA

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Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (07/12/2017)

MANCHETES

O Globo

Decisão de Trump sobre Jerusalém isola os EUA
Governo diz já ter apoio para votar Previdência
Novo sistema de governo em debate
Os menores juros da História: 7%
Autoridades cobram recursos para segurança

O Estado de S. Paulo

Temer acena com mais verba para reforma da Previdência avançar
Juros caem para 7%, menor índice da história
Supremo deve votar hoje se PF pode negociar delações
Governador de Minas vira réu por corrupção e fica no cargo

Folha de S. Paulo

Taxa de juros cai a 7% e atinge mínima histórica
Governador de Minas se torna réu, mas não é tirado do cargo
PF leva reitor da UFMG para depor em investigação

EDITORIAIS

O Globo

Há urgência para a Base Curricular

A construção de uma política educacional que retire o ensino público básico de uma crise de qualidade preocupante não é tarefa simples nem de curto prazo. Uma característica positiva do caso brasileiro é que tem havido continuidade entre governos de tendências políticas diversas, como os do PSDB e do PT.

Felizmente, o trabalho do ministro tucano Paulo Renato Souza, na montagem de testes e exames para monitorar o rendimento dos alunos, teve sequência com o ministro petista Fernando Haddad, na expansão do fundo do ensino fundamental para todo o básico (Fundeb) e no aprofundamento de mecanismos de aferição da qualidade das escolas, para citar alguns pontos importantes.

À universalização da matrícula no ensino fundamental somaram-se avanços, ainda não suficientes, no ensino básico como um todo, mas persistem gargalos no ensino médio. O Brasil continua nas piores colocações em exames internacionais (Pisa) para adolescentes, porém existem melhorias localizadas e, o que é mais importante, uma direção a seguir.

Para se continuar a perseguir a meta de atingir em 2030 a média de notas verificadas nos países ricos, congregados na OCDE (órgão para cooperação e desenvolvimento econômico), é crucial que seja logo aprovada, no Conselho Nacional de Educação (CNE), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), chamada de forma simplificada, e mesmo pouco exata, de “currículo único”.

É um erro não haver uma indicação clara do que não pode faltar nas aulas em todo o país, série a série. Esta peça básica do trabalho pedagógico foi prevista na Constituição de 88, mas nunca executada, por resistência nos mundos acadêmico e sindical ligados à educação, mesmo que haja em países com educação avançada.

O argumento é que este currículo tiraria a liberdade do professor de ensinar. Um equívoco. Além de não se poder ir contra a necessidade de o aluno obter informações mínimas sobre matérias essenciais para ele exercer qualquer ofício — e o ensino delas precisa ser uniforme em todo o país —, não é verdade que o currículo básico engesse as escolas. Tanto que ele prevê, por exemplo, carga horária para o ensino de conteúdos regionais.

Preocupa que a Base Curricular enfrente tantos percalços para ter a aprovação final no CNE. A sua montagem foi um longo e exaustivo trabalho de consulta, de ordenamento e de debates de sugestões iniciado em 2015, quando o Ministério da Educação (MEC) anunciou, enfim, a montagem da BNCC. Há muitos interesses em torno da educação, e por isso os processos decisórios costumam ser lentos.

O assunto já estava na pauta do Conselho, quando se noticiou que há dois projetos, um na Câmara, outro no Senado, para que a BNCC seja discutida e aprovada no Congresso. Ora, não se trata de função do Legislativo, mas de fóruns técnicos.

Instâncias políticas não podem interferir nesse e em outros assuntos educacionais muito específicos que requerem formação profissional. Parte do atraso no ensino público básico se deve a este tipo de ingerência nas escolas por parte de governadores e prefeitos. Será um retrocesso permitir mais esta invasão de área.

O Globo

Trump isola ainda mais os EUA no Oriente Médio

A decisão de Donald Trump de reconhecer ontem Jerusalém como a capital de Israel cumpre uma promessa de campanha, mas também muda a direção de décadas de diplomacia americana. Ela também isola os EUA numa das questões diplomáticas mais cruciais da atualidade, ao ignorar o alerta de uma potencial onda de conflitos feito por vários países, inclusive de aliados como o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, da Arábia Saudita, que avisou a Trump sobre o perigo da iniciativa.

A lista de países que manifestaram preocupação é longa e inclui aliados europeus, como Alemanha e França; os presidentes chinês, Xi Jinping, e russo, Vladimir Putin; e o Papa Francisco. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, por sua vez, ameaçou romper laços diplomáticos com Israel.

Trump não deu ouvidos. No discurso, em que aproveitou para comunicar o início do processo de transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, ele disse que é hora de “abrir corações e mentes” e repensar o Oriente Médio. Jerusalém foi ocupada por Israel após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e não possui embaixadas, pois é considerada território internacional, sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos.

A parte velha abriga o Muro das Lamentações, a Basílica do Santo Sepulcro e a Esplanada das Mesquitas. A cidade foi deixada sem sediar representações diplomáticas e está no centro do tortuoso processo de negociação de paz do Oriente Médio. Não à toa, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, disse que a iniciativa de Trump porá fim às conversações.

Além das potenciais reações governamentais e intifadas, o anúncio de Trump também ocorre num momento de intensos abalos tectônicos no xadrez político da região. A ascensão do príncipe herdeiro do reino saudita, de orientação sunita, Mohammad bin Salman (MbS), de 32 anos, é um dos polos sísmicos. Desde que foi apontado pelo rei Salman como sucessor, ele fez um expurgo, determinando a prisão de mais de 200 figuras importantes da economia e da política do país, inclusive vários príncipes e políticos.

Também flexibilizou a vida civil, ampliando direitos das mulheres, e iniciou um processo de diversificação e modernização da economia, em que é conspícua a influência de Jared Kushner, genro de Trump. Externamente, porém, MbS aproximou-se de Israel e aliou-se a Trump na luta contra os xiitas do Irã e da milícia libanesa Hezbollah, restituindo o quadro de instabilidade, após a delicada trégua alcançada na gestão de Barack Obama, que freou o programa nuclear iraniano.

A guerra surda entre sunitas e xiitas também emerge no Iêmen, cuja fronteira foi bloqueada pela Arábia Saudita, gerando uma crise humanitária, denunciada pela ONU. MbS também interferiu na política do Líbano, retendo em Riad o premier Saad Hariri, para pressioná-lo a agir contra o Hezbollah. É em meio a este complexo quadro que Trump anuncia uma medida histórica, com alto potencial incendiário no Oriente Médio, além de aprofundar o isolamento do país.

O Estado de S. Paulo

O peso da habitação social nas incorporações

Entre 2008 e agosto de 2017, o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) respondeu por 4,9 milhões (77,8%) de 6,3 milhões de unidades produzidas no País, segundo a Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe- USP). Os números mostram a importância das unidades de baixo custo para a área da construção, em contraste com a participação das unidades destinadas aos vários estratos da classe média.

A incorporação de unidades de médio e de alto padrões respondeu, no período, por 20,7% da produção (1,3 milhão de moradias) e as edificações comerciais, por 1,3% (pouco mais de 80 mil unidades). O déficit habitacional é mais elevado nas faixas de menor renda, o que justifica a expansão dos investimentos nesse segmento, que depende dos financiamentos com recursos públicos ou do FGTS.

Há, no entanto, um desbalanceamento do mercado: é mais difícil a situação das companhias que não atuam nesse segmento. O trabalho da Fipe mostrou a importância da incorporação para a economia brasileira, com ênfase na geração de empregos e na arrecadação de tributos. Patrocinado pela associação dos incorporadores (Abrainc), que reúne as principais empresas do ramo no País, o estudo mostra que 286,9 milhões de metros quadrados (m²) foram construídos entre 2010 e 2017.

As atividades relacionadas à incorporação geraram, em média, 1,9 milhão de empregos por ano – o auge ocorreu em 2014 (2,5 milhões de vagas) e o mínimo (1,3 milhão), em 2017. Em razão da extensa cadeia de valor da incorporação – que começa na promoção e construção de edifícios e termina na demanda de acabamento e decoração, eletrodomésticos e serviços básicos –, a geração de empregos ocorre em vários segmentos, como indústria de transformação, comércio varejista e atacadista e construção propriamente dita.

A receita de tributos foi em média de R$ 19,7 bilhões anuais, dos quais R$ 8,2 bilhões na esfera federal, R$ 6,6 bilhões na estadual e R$ 5,7 bilhões na municipal. Nos últimos anos, o segmento de incorporação viveu duas grandes crises, a primeira entre 2008 e 2010 e a segunda entre 2014 e 2016. A partir do pior momento, em novembro de 2016, houve lenta retomada, que se torna mais clara com o avanço de lançamentos e vendas. Os preços caíram a partir de junho de 2014 e não dão sinais de recuperação real.

O Estado de S. Paulo

Luz no Congresso

A estratégia anunciada pelo Palácio do Planalto para a aprovação da reforma da Previdência pode representar um passo importante para o funcionamento do próprio Congresso. Em vez de negociar com os parlamentares individualmente, o governo trabalha para que os partidos da base aliada fechem questão em favor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287/2016, como já fez o PMDB. Diante da trajetória percorrida pelo Congresso a partir da chegada do PT ao governo federal – é notório o estrago feito pelo mensalão –, deve-se reconhecer que a medida, que resgata a relevância ideológica de cada legenda, é uma importante e significativa novidade.

A negociação com os partidos, e não com cada congressista individualmente, pode ser extremamente útil para o avanço da reforma da Previdência, que estava empacada desde maio, quando houve o vazamento da delação do sr. Joesley Batista. Se outros partidos fecharem questão em torno da PEC 287/2016, em tese os parlamentares ficarão mais protegidos do risco de uma suposta retaliação eleitoral ao apoio a uma alteração legislativa considerada impopular. A medida contribuiria, portanto, para que os parlamentares atendam ao interesse público, dando sua aprovação à reforma da Previdência.

Foi o que se viu nos últimos dias. Bastou o governo federal anunciar que trabalharia junto aos partidos para que o ânimo de muitos políticos e analistas se modificasse, reconhecendo a viabilidade da aprovação da PEC 287/2016 ainda em 2017.

Deve-se notar que a atuação homogênea de cada legenda teria efeitos muito além da própria reforma da Previdência. Ela resgataria uma dimensão da política que vinha se perdendo há um bom tempo: o papel dos partidos na democracia representativa. E, se o fenômeno do desgaste das legendas já vinha de longa data, ele se intensificou enormemente nos últimos anos, com os muitos escândalos envolvendo lideranças partidárias.

Quer tenham sido corroborados ou não com as devidas provas, o fato é que os escândalos revelados ao longo dos anos da Lava Jato fizeram com que, para muitos brasileiros, partido político se tornasse sinônimo de organização criminosa. Diante desse diagnóstico simplista, a solução que alguns pleiteiam é a extinção, o quanto antes, de todas as legendas. Elas seriam apenas antros de corrupção.

Logicamente, tal visão contrasta com o sistema proposto pela Constituição de 1988, que coloca os partidos políticos entre as instituições fundamentais para a organização do Estado, estabelecendo que a filiação partidária é condição imprescindível para o exercício de mandatos eletivos. Longe de ser um requisito burocrático, tal condição manifesta a convicção de que a esfera partidária é etapa obrigatória para o debate, o aprimoramento, a difusão e a aplicação efetiva das ideias e propostas que circulam fecundamente numa sociedade.

Justamente por isso, é extremamente esperançosa a possibilidade de que, diante de questões fundamentais do Estado, como é o caso da reforma da Previdência – que definirá, entre outros pontos, o fôlego da recuperação econômica do País, a capacidade de investimento social do Estado e a igualdade entre o regime previdenciário dos funcionários públicos e o dos trabalhadores da iniciativa privada –, as legendas consigam se posicionar de forma clara e inequívoca.

Durante as discussões sobre a reforma política no Congresso, muito se criticou o chamado distritão, sistema em que seriam eleitos para a Câmara dos Deputados apenas os candidatos mais votados por Estado, transformado em distrito. Com razão, apontouse que tal sistema enfraquece a democracia representativa, uma vez que os eleitos não representariam nada senão eles mesmos.

Ora, é isso o que ocorre quando a negociação de um projeto importante, como é a PEC 287/2016, não é feita pelos partidos, e sim pelos parlamentares individualmente. Quando as legendas terão algo a dizer se elas nada dizem sobre uma reforma como a da Previdência?

Não se conhece experiência de democracia forte sem partidos fortes. É urgente, portanto, resgatar a relevância dos partidos na vida parlamentar. Nesse sentido, já é um bom começo que cada legenda da base aliada seja instada a assumir uma posição clara sobre a reforma da Previdência.

O Estado de S. Paulo

A difícil arte de governar

Prestes a completar um ano, a gestão de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo é avaliada como ruim ou péssima por 39% dos paulistanos, segundo pesquisa do Datafolha. No início do ano, o porcentual de reprovação do governo municipal era de 13%. A enquete também revelou outro número preocupante para a imagem do prefeito: 70% consideram que ele fez menos do que era esperado. Como se vê, há uma significativa frustração com aquele que foi eleito prometendo gestão eficiente e modernização da administração da capital.

João Doria foi eleito em primeiro turno com a bandeira de gestor. E é como gestor que vem sendo reprovado pelos paulistanos. Os desleixos nos serviços de zeladoria – parques e praças malcuidados, lixo nas calçadas, buracos nas ruas, semáforos enguiçados, entre outros problemas – geram insatisfação nos moradores da capital. Por mais que tenha sido instalado o “maior corredor verde do mundo” na Avenida 23 de Maio, o slogan Cidade Linda está longe de ser realidade.

O Estado revelou que a Prefeitura de São Paulo gastou em 2017 apenas 56% dos R$ 147 milhões previstos no orçamento para os serviços rotineiros de manutenção do sistema de drenagem: limpeza de bueiros, bocas de lobo, córregos e piscinões. É um número preocupante, tendo em vista os recorrentes estragos causados pelas chuvas na capital. Uma gestão profissional, no setor público e no privado, deve estar pautada por rigorosa avaliação de riscos.

O descontentamento com a gestão de João Doria também se deve à mobilização feita pelo prefeito ao longo de vários meses para lançar o seu nome como possível candidato à Presidência da República em 2018. Além de viagens ao exterior, sua agenda esteve repleta de eventos pelo Brasil afora. Não era muito animador ver a cidade descuidada e, ao mesmo tempo, constatar que o prefeito, com menos de um ano na administração municipal, estava com os olhos voltados para Brasília. Para piorar, tudo isso vinha de alguém que dizia não ser político, mas um diligente trabalhador.

Ao ser questionado, João Doria dizia que as viagens não diminuíam a eficiência de sua gestão. “Não há nenhum impedimento para que o prefeito da cidade de São Paulo viaje, além do que, com a tecnologia você pode ligar, cobrando a todos e estar presente”, disse em agosto o prefeito João Doria, em Palmas (TO). Seja como for, o prefeito parece ter-se dado conta de que sua estratégia não levaria a bom porto. Com realismo, admitiu que a candidatura a presidente da República dependia de variáveis que ele não controla e anunciou recuo em seus planos para o Palácio do Planalto.

Certamente, a má nota do primeiro ano de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo não é uma avaliação irreversível. Esta pode ser uma excelente ocasião de aprendizado, se levar às necessárias correções na gestão municipal. Tem, assim, o prefeito uma oportunidade muito boa para demonstrar suas qualidades de gestor.

Talvez seja essa a maior discrepância notada pelos paulistanos. João Doria obteve notório sucesso em sua carreira como empresário. Mas ainda não se viu esse mesmo sucesso refletido na administração da capital. Os sinais são ainda contraditórios. Houve notícias significativas, como o fim da fila de espera por exames. Por meio do programa Corujão da Saúde, em 83 dias foram realizados 342 mil procedimentos.

Administrar a cidade é, no entanto, bem mais complexo do que produzir alguns resultados momentâneos, slogans chamativos ou demissões ruidosas. Em novembro, João Doria demitiu Paulo Cahim do cargo de prefeito regional de Casa Verde/Cachoeirinha. Segundo nota da Prefeitura, Cahim foi exonerado “por ter demonstrado inconformismo diante das dificuldades, em lugar de empenho e criatividade na superação de desafios, como exige a atual administração municipal de seus colaboradores”. Pois bem, empenho e criatividade são o que exigem os paulistanos de seu prefeito. Até 2020.

O Estado de S. Paulo

Trégua para a baixa renda

A inflação deu trégua às famílias de baixa renda, em geral as mais prejudicadas pela alta de preços. Levar a comida à mesa ficou mais fácil neste ano, porque a boa oferta de alimentos derrubou o custo da alimentação. O orçamento continuou apertado, como sempre, mas com alguma folga para outras despesas – para a compra de um novo aparelho eletrônico, por exemplo, ou para a troca de um móvel. O custo da cesta básica de alimentos diminuiu nos últimos 12 meses nas 21 capitais cobertas pela pesquisa mensal do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), segundo relatório divulgado na quarta-feira passada. A maior queda, de 14,43%, foi registrada em Campo Grande. A menor, de 5,30%, em Porto Alegre. Em São Paulo, a baixa foi estimada em 6,03%.

O custo da alimentação foi o freio principal dos índices de preços ao consumidor, neste ano, de acordo com as principais instituições de pesquisas. Mas outros grupos de preços também evoluíram moderadamente, contribuindo para desafogar os consumidores. Quanto menor a inflação, mais duradouro é o poder de compra da renda familiar, proveniente do trabalho assalariado, da atividade por conta própria ou de outra forma de sustento.

O desafogo das famílias de baixa renda é mostrado, por exemplo, nos levantamentos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em novembro, a versão mais ampla do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Br) aumentou 0,36%. Em 12 meses, a alta chegou a 3,35%, número bem satisfatório pelos padrões observados há muitos anos no Brasil. Esse indicador é baseado nos gastos de famílias com renda mensal entre 1 e 33 salários mínimos. As condições foram bem melhores para as famílias de renda entre 1 e 2,5 salários mínimos. Seu índice de preços aumentou 0,21% em novembro e 2,29% em 12 meses.

As medidas oficiais de inflação, produzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também têm mostrado pressões menores sobre o custo de vida de todos os grupos, mas especialmente dos grupos de condições econômicas mais modestas.

Usado como referência para políticas de governo, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,42% em outubro, 2,21% no ano e 2,54% em 12 meses. Foi uma evolução excepcionalmente boa. Se o resultado final de 2017 for inferior a 3%, a inflação ficará abaixo do piso de variação previsto para o IPCA, porque a meta é 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Esse indicador tem como base o orçamento de famílias com ganho mensal de 1 a 40 salários mínimos.

Para acompanhar a situação das famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos, o IBGE produz o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), muito usado como referência para reajustes salariais. Esse indicador aumentou 0,37% em outubro, 1,62% no ano e 1,83% em 12 meses. Como a pesquisa da FGV, a do IBGE deixa clara a desinflação beneficiando as famílias de rendimento menor.

Não muito usada no Brasil, a palavra desinflação descreve de modo apropriado a evolução dos preços desde meados de 2016. Durante quatro meses, entre novembro de 2015 e fevereiro de 2016, as taxas do IPCA acumuladas em 12 meses superaram 10%: 10,48% em novembro, 10,67% em dezembro, 10,71% em janeiro e 10,36% em fevereiro. O declínio tornou-se visível em março e prosseguiu até 6,36% em dezembro. Em outubro, diretores do Banco Central (BC) começaram a cortar os juros, apostando na trajetória declinante da inflação.

O custo da alimentação dificilmente evoluirá, em 2018, de forma tão favorável quanto em 2017. Mas a inflação poderá continuar tolerável, se o programa de ajustes e reformas for mantido e se as tensões políticas forem moderadas. Nesse caso, todos os consumidores ganharão e os de renda menor ainda serão consideravelmente beneficiados, mesmo com indicadores pouco menos favoráveis que os atuais. Se esse quadro se materializar, o consumo continuará em alta, favorecendo a produção industrial e o emprego. Isso dependerá em boa parte das decisões políticas tomadas agora.

Folha de S. Paulo

Menor da história

Em outubro de 2012, no governo Dilma Rousseff (PT), a taxa de juros do Banco Central, a Selic, atingia o que atê então era o menor patamar de sua história. Elevada à condição de bandeira política do Palácio do Planalto, a marca de 7,25% anuais se manteve, porém, por meros seis meses; a trajetória de alta então iniciada levou a taxa a 14,25% em 2015.
Nesta quarta-feira (6), atingiu-se um novo piso, de 7%, notável para um país onde os juros há décadas destoam dos padrões globais -recorde-se que o mundo desenvolvido ainda vive a era de dinheiro a custo próximo de zero.

De todo modo, abre-se nova chance, que não se pode desperdiçar, de consolidar um ambiente econômico mais saudável. A situação atual difere substancialmente da verificada há cinco anos. Naquela época, a inflação superava a meta de 4,5% e iniciava uma trajetória de alta, impulsionada pela expansão dos gastos do governo e do crédito concedido pelos bancos federais. Hoje, em que pese o estado ainda precário da economia e, mais ainda, do Orçamento, o quadro ê outro. O crescimento das despesas federais está bloqueado pelo teto inserido na Constituição. Embora o cumprimento desse dispositivo vá depender, mais à frente, da reforma da Previdência, não há risco imediato de descontrole.

Também o crédito estatal mudou de direção. No exemplo mais eloquente, o BNDES está reduzindo desembolsos e subsídios; a expansão dos financiamentos depende da demanda das empresas, não mais do voluntarismo do governo. A situação do setor privado colabora, igualmente, para juros mais baixos — que precisam chegar ainda ao sistema bancário, onde os percentuais continuam absurdos para empresas e famílias.

Há grande ociosidade nas fábricas e no mercado de trabalho. A queda rápida da inflação neste ano, em que o IPCA deve fechar em 3%, pode dar frutos duradouros. Se houve ajuda momentânea da queda dos preços dos alimentos, em razão da safra recorde, também se viram melhoras em itens menos voláteis, como os serviços. Tudo isso significa menos pressão sobre os dissídios salariais e a correção de contratos em 2018.

Por isso, o Banco Central manteve a porta aberta para um novo corte da Selic adiante, com a ressalva de que os riscos ainda são elevados. A reconstrução das contas públicas mal começou e depende de uma ampla agenda de reformas. Frustrações nessa área teriam o potencial de reverter os ganhos recentes e tornar o país mais vulnerável à incerteza política. Os próximos meses, incluindo o período eleitoral, serão decisivos.

Folha de S. Paulo

Desacelere, prefeito

O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), conquistou o mandato apresentando-se como administrador moderno, eficiente, técnico —diferente dos políticos tradicionais. Como sói acontecer, havia mais esforço de marketing nessa imagem do que o reflexo das reais disposições do candidato. Em mais de uma ocasião, o tucano simplesmente preferiu deixar de lado a racionalidade administrativa, a observação de dados, a análise de custos e benefícios. Tal comportamento fica patente, em particular, na novela do tráfego nas marginais Tietê e Pinheiros.

Neste caso, os pecados do prefeito datam de antes da posse. Ele dedicou parte da campanha a apregoar que reverteria a queda dos limites de velocidade capitaneada pelo então prefeito Femando Had-dad (PT). Fê-lo contra as melhores evidências disponíveis. A literatura mais consensual aponta relação nítida entre maior velocidade dos veículos e mais mortes no trânsito. Um dos modos mais óbvios e baratos de salvar vidas, pois, ê reduzir as máximas permitidas nas vias. Foi o que se fez em São Paulo, com sucesso, a partir de julho de 2015.

No ano passado, o total de óbitos em acidentes caiu 15,1% — de 1.119 para 950. É difícil precisar o quanto essa baixa se deve à medida, mas parece lógico que houve uma contribuição importante. Entretanto Doria, atento às pesquisas que apontavam a impopularidade dos limites entre os motoristas paulistanos, prometeu ampliá-los —felizmente, apenas nas marginais e não na cidade inteira.

Aqui, seguiu-se o manual do populista, não o do bom gestor.

Surgem agora os primeiros números que permitem avaliar os resultados da política da prefeitura. Como mostrou reportagem desta Folha, a quantidade de mortes nas marginais cresceu. Em 2016, foram 26; neste ano, atê outubro, 27. Não se pode afirmar com segurança que o aumento da velocidade tenha sido determinante no caso. As cifras, escassas, não permitem maiores análises estatísticas.

Assusta, contudo, a ligeireza com que Doria descartou a necessidade de estudos que lancem luzes sobre a questão. “Não ê preciso nem estudar. Basta analisar as informações para ter essa certeza”, declarou, com o argumento de que os acidentes fatais foram motivados por imprudência ou pelo uso de álcool. Numa gestão moderna e racional, o prefeito seria o primeiro a exigir que todas as políticas públicas estivessem amparadas em boa ciência e sob contínua avaliação. Não chegamos lá ainda.

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