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Eliseu Neto: O não discurso de ódio

Subo à tribuna [da Câmara dos Deputados] para refletir um pouco essa questão da força de ódio, mas me vi obrigado primeiro a pensar. Seria ele realmente um discurso? Se vou pela minha formação de psicanalista e penso em discurso como aquilo que relaciona as pessoas e move o mundo, entendo o discurso de ódio como contrário deste. Ele cala, silencia, emburrece e inopera a nossa capacidade de refletir e pensar. Quando alguém decreta que bandido bom é bandido morto, ele afirma que não quer saber se o tal bandido teve acesso a julgamento justo, que tipo de vida teve, como estava seu estado mental, social, ele apenas o mata e se fecha na dialética.

Quando um fundamentalista afirma que parada LGBT é só festa, ele iguala todos os sujeitos ali, desde o militante mais aguerrido, que mesmo sem recursos financeiros dá seu tempo e suor para uma causa. Até alguém que entende que dar beijos em público é sim um ato político. O ódio pode vir nos detalhes da palavra, como falar de negros e negras usando arrobas, gritar homossexualismo apontando para um passado de opressão via saúde mental, chamar jovens pobres de mini bandidos, apontando para um não futuro e total falta de perspectiva social ou reabilitação, ou usar da clássica misoginia contra as mulheres, com ofensas que não usarei dentro desta casa.

Eu vou confessar que vi a internet nascer, lembro das expectativas, do fenômeno que era mandar um e-mail ou enviar uma foto. E ela revolucionou o mundo, atingiu a maneira de funcionar da música e dos shows, dos filmes, acabou com as locadoras, está revolucionando o transporte, influenciando cada vez mais a política e fez uma tremenda mudança no conhecimento. Cresci buscando informações na [enciclopédia] Barsa, ouvindo Jornal Nacional e conhecendo a músicas de Chico e Tom pelo rádio; hoje em dia nem faço ideia de como ouvir um rádio se não for dentro de um Uber. O acumulo de conhecimento que era extremamente valorizado deu lugar para a gestão do mesmo, detectar o bom conhecimento e fazer uso dele se equipara a deter o conhecimento, pois se eu não sei, posso googlar e achar.

Mas Umberto Eco foi preciso ao dizer que as redes sociais deram voz aos imbecis. Eu entendo imbecil não como aquele que ignora, pois ninguém sabe tudo, mas aquele que ignora ignorar, que sente-se dono de tamanho conhecimento, inteligência que não precisa ler, estudar, aprender ou ouvir. Pode tranquilamente sentar em frente ao seu computador e gritar sobre a invasão da Venezuela ao Brasil, ou que um deputado quer mudar a bíblia, ou fazer tremenda confusão entre cotas sociais e raciais apenas para afirmar que coitado daquele que não é negro, índio, LGBT ou mulher. Este pobre homem, rico, branco, cisgênero de classe média está sempre pronto para afirmar, nunca o vejo querendo aprender, ouvir ou dialogar. E pior, como nos disse o mestre Paulo Freire, sem a educação libertadora, ele ainda acha aliados entre os oprimidos, para repetirem esse ódio, creio que numa tentativa de sair da posição de oprimido para opressor.

Segregar é separar, é me colocar de um lado e o “odiado” do outro lado, é o que vimos nos campos de concentração que foram os precursores do que se vê hoje nos grupos, separados, isolados, impostos ou voluntários. É o horror. Isola-se o louco, o débil, a criança, o pobre, o negro, o judeu, o deficiente, o velho, a mulher, o muçulmano, o Pai de Santo e tudo o que é diferente na busca da tal igualdade de gozos, pensamentos e prazeres. Dentro dos próprios grupos que segregam os que estão fora, formam-se subgrupos e estes provocam novas separações, processo que denuncia o insuportável de se fazer o laço social com o diferente.

Isso que aqui chamamos de ódio, sempre existiu, a fraternidade tão propagada, não é natural do ser humano, mas a tecnologia veio organiza-la. O fenômeno de cauda longa, de nichos, visto nas comunicações, trouxe algo para as narrativas, a tal pós-verdade. E as redes trazem uma grande novidade, a possibilidade de o sujeito poder escolher a verdade que deseja. Ele escolhe os blogs que pensam como ele, no Facebook se cerca dos amigos que pensam igual, segue youtubers e páginas que mantem esse mantra e nisso perdemos cada vez mais verdadeiro discurso, A capacidade de debater, discordar, elaborar e refletir.

Nessa época da lacração, do textão, do meme, no qual vejo parlamentares muitos mais preocupados em eloquentes falas, viradas para a TV câmara e depois em suas redes, do que em realmente convencer e chegar ao consenso com seus pares, o discurso de ódio se tornou eleitoral.

Dele nasce a falácia da ideologia de gênero, jamais escrita, nunca presente na base nacional curricular, mas que tem movimentado o Brasil. O não discurso está fechando museus, arrestando coercitivamente um curador cultural. Filho desse desejo de interditar o debate, brota a Escola Sem Partido, que na verdade é de partido único, nela a ditadura vira regime militar, socialismo e ditadura comunistas viram a mesma coisa e para meu espanto o nacionalismo nazista, virou esquerda. Grupelhos que movimentam as redes, com versões de fatos, sem embasamento se tornam lideranças, seja o terror censor de corpos do Movimento Brasil Livre, que de livre nada tem, visto que fecha museus e quer mandar no corpo das mulheres, até a mídia ninja, que se tornou um braço de defesa e mobilização de massa de um único pensamento partidário.

O discurso de ódio destrói, é corrosivo, está dividindo este País entre coxinhas, petralhas e isentões, está matando as transexuais, levando os gays ao suicídio, mata 33mil jovens negros ao ano, gritando que as drogas devem ser entendidas como crime e não como questão de saúde e mental.

Humor é a origem do discurso de ódio, foi assim no holocausto, segue assim em quem reclama do mimimi. Quem realmente está disposto a ouvir o negro que não quer ouvir piadas sobre seu cabelo, ou o gay que já cansou de ser estereotipado? Repito, o ódio é o não discurso, e o passo seguinte ao não discurso é a passagem ao ato, é a violência, é o ataque, são os linchamentos de moral, é a morte, é o fim do conhecimento, visto que este surge da dialética que o “não discurso de ódio” renega.

Com tristeza vejo que este terror existe aqui, na casa máxima do Parlamento, se repete nas redes, chega na educação e na cultura e vem dilacerando o Brasil. Precisamos recuperar que aquele que diverge de mim, não é meu inimigo, pode na verdade ser meu professor. É o diverso, o discordante, que pode abrir minha mente, ampliar meus horizontes, mudar meu ponto de vista. Mas aí voltamos ao terreno do sensato, do parlamento, da dialética, do mundo que gira e melhora. Saímos do campo das certezas que devem ser defendidas com sangue, para o mundo da boa incerteza, que histericamente gira o mundo e nos faz evoluir.

Em nome do Partido Popular Socialista, queremos lutar para que esta Casa, as redes, o Brasil, recupere sua capacidade de dialogar e entender que a diferença é boa, se formos democratas, republicanos, honestos e principalmente humildes”

Eliseu Neto é psicanalista, coordenador nacional do PPS Diversidade

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