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Bruno Soller: O voto da saudade

Sempre que sai uma pesquisa quantitativa na mídia brasileira um ponto de interrogação toma conta dos leitores de jornal de classes A e B, das grandes cidades: Será que o Lula vai conseguir de novo, mesmo com tudo o que aconteceu? Essa pergunta paira e debates surgem sobre o porquê do ex-presidente condenado aparecer ainda em primeiro lugar em todas as pesquisas realizadas.

Uns entendidos dizem recall – ou seja, o nome vem logo a cabeça por ser muito conhecido, outros preferem criticar a pré-escolha popular e condenar os brasileiros ao analfabetismo político. Alguns partem para a análise sociológica de que o brasileiro mais pobre não gosta de trabalhar e como o Lula lhes ofereceu o Bolsa Família, aí está a explicação do fenômeno eleitoral. Outros trazem questões sobrenaturais, de que Lula é visto como um santo para parte do eleitorado sertanejo nordestino. Outra parte crítica a cegueira da esquerda, que tem uma visão dogmática e que passa por cima de qualquer coisa para chegar ao poder. Bom, todas as análises têm suas parcelas de verdade e seus muitos pontos de preconceito.

Quando aprofundamos a análise qualitativamente, é nítido que o voto de Lula se divide quase que igualitariamente entre dois pontos: o voto ideológico e o voto do serviço. O voto ideológico tem uma componente de crença. Há pelo menos 15% do eleitorado brasileiro que se identifica com o Partido dos Trabalhadores e, principalmente, com sua figura maior, o ex-presidente Lula. Por convicção esse nicho eleitoral escolherá Lula haja o que houver. Entendem que o ex-presidente iniciou um processo revolucionário no país, de atenção prioritária aos mais carentes e que foi responsável por uma fase de inclusão social, que se assemelha aos preceitos do socialismo, da ascensão das classes menos abastadas.

Para este eleitor, tudo que for contra o Lula é uma tentativa das elites de acabarem com a reputação do ex-presidente com o intuito prioritário de não perderem suas benesses para as classes populares. Dizem que os ricos não gostam dos pobres e que Lula foi o único presidente que olhou para essa população marginalizada. Alguém pode estar pensando que isto é uma bobagem, mas há uma parcela significativa de brasileiros que acredita, de fato, que o ex-presidente representa a superação das desigualdades. Este eleitor é praticamente imutável. Ele vai com Lula ou com o PT para qualquer lado ou direção. É uma questão maior do que uma escolha, é uma crença num modelo político e que, democraticamente, deve ser respeitada.

No entanto, este eleitor, apenas, não é capaz de fazer de Lula um candidato competitivo como ele é. Ele ajuda a formatar teses, a disseminar conteúdos pela internet, a pautar debates e tem uma função replicadora importante, que acaba por amenizar às vezes a crítica e por vezes aumentar a aceitação ao chamado “lulopetismo”. Têm uma sintonia com o partido e conseguem replicar conteúdos de forma orgânica. Em grande parte, este eleitor conseguiu aumentar a rejeição à figura do atual presidente Temer.

A rejeição a Temer foi um passo importante para trazer de volta o PT para o jogo. Muitos devem estar pensando, mas como se Temer foi eleito justamente na chapa com o PT? A escolha de Temer como inimigo fez com que parte da associação acabasse. Poucos são os entrevistados, hoje em dia, que relacionam Temer com o PT. São como água e vinho, não se misturam. Há uma ojeriza por parte dos eleitores de Lula a Temer. São absolutamente opostos, para quem escolhe Lula como candidato preferido.

Essa organicidade, faz com que as obras de Lula não sejam esquecidas. Esse talvez é o ponto principal da relação entre os tipos de eleitores lulistas. A constância na informação acende a lembrança do eleitor mais humilde que foi beneficiado no período de Lula. Essa simples relação provoca a duplicação de votos no ex-presidente. Se 15% são votantes ideológicos, os outros 15% são votantes do saudosismo dos serviços.

Lula entregou para estes eleitores e eles são gratos por isso. Esse é um grande ativo, que nesta disputa, nacionalmente, só Lula possui. As pessoas lembram do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do PAC, do Fome Zero, do Luz para Todos, do ProUni, e, principal, do crescimento econômico da Era Lula. O aumento real do salário mínimo e a geração de empregos e o aumento do poder de compra das famílias são marcas desse período. Nisso, agarram-se alguns eleitores, que tem saudade dessa época.

A possibilidade de comer carne vermelha nos finais de semana, o churrasco em família regado a cerveja, a linha branca, a motocicleta e o carro são itens que vêm na memória dos eleitores e que relacionam felicidade ao ex-presidente. A questão da corrupção passa ao largo desse eleitor. Na cabeça dele, todos são corruptos, portanto, não há porquê apenas condenar aquele que mais fez por eles. O discurso ideológico chega nesse eleitor, mas sob um outro espectro: “Só pegam o Lula, porque ele é igual a gente. Os ricos não vão pra cadeia, só os pobres”.

É verdade que parte desse eleitorado se esvaiu. Há 8 anos esse eleitorado era quase todo lulista. As classes C2, D/E, do Norte e Nordeste, ainda se mantém bastante fiel ao ex-presidente. Sua perda mais relevante está na classe C1. A chamada média-média, que está presente nas periferias das grandes capitais e no centro das cidades médias do interior brasileiro e representa 20,8% da população nacional. É nítido o constrangimento desse público para declarar o voto em Lula. As denúncias de corrupção e a mal sucedida escolha por Dilma Rousseff fizeram esse público refutar, mas não a negar o ex-presidente.

Há um desconforto em escolher, logo como primeira opção Lula. Surge um misto de traição e de perda de credibilidade. Mas, persiste a lembrança das vacas gordas. Surge a indagação inconsciente se com a volta dele, a vida volta a ser como era. Se não vale a pena dar mais essa chance, principalmente quando se analisa as outras opções e elas pouco empolgam.

Em pesquisa recente, alguns números chamam a atenção para como Lula é visto – para 19%, em primeiro lugar, Lula é o melhor para cuidar da economia, para 50% é o maior defensor dos pobres, e para 43% é quem mais representa o passado. Lula, hoje, atinge 30% de intenção de votos. Há mais 15% que dizem poder votar nele. Seu grande desafio, em se confirmando candidato, é como conquistar esses 6% faltantes que poderiam fazê-lo novamente presidente da República. Cabe ressaltar que ao mesmo tempo que sua votação é sólida, sua rejeição também o é.

O produto Lula está na prateleira e todo mundo conhece. 45%, quase metade diz que não compraria de modo algum, existem 30% que dizem comprar com absoluta certeza e há uma margem de 25% que é definitiva em relação às pretensões de Lula. Nessa margem, candidaturas que dialoguem com o eleitorado perdido, a classe C1, serão decisivas para o pleito. Se conseguirem confirmar o êxodo de Lula, poderão garantir a derrota do ex-presidente, se falharem em sua comunicação, poderão dar àqueles saudosistas o sabor de ter novamente o ex-metalúrgico como presidente.

Bruno Soller é sócio da Travessia Estratégia, consultor político e especialista em pesquisas

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