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José Roberto de Toledo: Procura-se disruptivo

É insano o caminho para Luciano Huck viabilizar sua candidatura a presidente. Os primeiros eleitores que ele ainda precisa conquistar são os mais próximos: a mulher, o irmão, o patrão. A Globo lhe deu até o fim de dezembro. Se nem ele nem Angélica aparecerem na grade de programação da emissora para 2018 é porque Huck estará filiado ao PPS e pronto para se lançar em campanha. É salto sem volta. Dará adeus ao Caldeirão, mas não só ele fará sacrifícios.

Com 30 anos de carreira e sucesso como apresentadora de TV, Angélica terá que ser convencida pelo marido a abandonar seu Estrelas e a nova atração que deveria estrear em 2018. Em troca, estrelaria algum programa herdado de Marcela Temer. Na melhor das hipóteses. Se Huck vender o plano à esposa terá dado sinal de que é capaz de negociar com o Congresso sem perder a carteira.

Como animador de auditório, não falta popularidade a Huck. Mas para chegar aos 12% de intenção de voto como candidato a presidente – taxa que políticos interessados na sua candidatura andam ventilando – é preciso que nem Lula nem Bolsonaro apareçam no cartão das pesquisas. Com ambos no páreo, o apresentador fica, hoje, junto dos outros índios da tribo do dígito solitário. Se equipara a Alckmin.

Não é fácil virar cacique. Para emplumar seu cocar na disputa presidencial, Huck precisará de um compromisso mais sério por parte de amigos financiadores do que o protocolar tapinha nas costas e incentivos do tipo “vai indo que eu já vou”. Sua campanha a presidente por um partido tão pequeno quanto o PPS dependerá de muitas doações de pessoas físicas endinheiradas – mesmo se o candidato recorrer ao próprio bolso para se financiar.

Segundo cálculos do repórter Daniel Bramatti, PT e PSDB terão direito a sete vezes mais recursos do novo fundo eleitoral do que o PPS – porque tiveram muito mais votos e elegeram muito mais deputados na eleição passada.

A diferença é de mais de R$ 220 milhões para os tucanos, e mais de R$ 230 milhões para os petistas. Somando-se Fundo Partidário e fundo eleitoral, o PPS não deverá ter R$ 60 milhões para 2018. E esse dinheiro ainda terá que ser dividido com candidatos a governador, ao Senado e à Câmara. Sem eleger bancada própria de deputados federais e senadores, qualquer presidente vira refém do Congresso.

Além de políticos, Huck cercou-se de PhDs idealistas, financistas e marqueteiros para ajudá-lo a formular um programa de governo e uma estratégia de campanha. Nada disso, porém, substitui o apoio doméstico e patronal.

Na mesma semana em que Huck ouviu da Globo que seu deadline para decidir se fica ou se sai candidato é dezembro, caciques do PSB ouviram de Joaquim Barbosa que ele lhes dará resposta em janeiro. A coincidência de datas animará as especulações eleitorais de fim de ano. E se Huck pular de volta no Caldeirão? Barbosa ficará mais inclinado a dizer sim à proposta de disputar a eleição?

Segundo o repórter Raymundo Costa, o algoz de mensaleiros voltou a cogitar ser candidato à sucessão de Temer. Poréns que valem para Huck valem para Barbosa: falta de tempo de propaganda e recursos partidários escassos. Mas nem todos os poréns.

Como candidato togado, o ex-presidente do Supremo seria tão disruptivo quanto Huck. As pesquisas de potencial de voto mostram que ele pode se apresentar como anti- Lula e anti-Bolsonaro e tentar ocupar o vazio do centro. E isso sem ser automaticamente rotulado de “candidato da Globo”.

Se não termina em 7 de abril, a temporada de candidaturas-balão estará bem mais pobre após essa data- limite de filiação e desincompatibilização. Até lá, porém, o balonismo eleitoral será esporte nacional. (O Estado de S. Paulo – 16/11/2017)

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