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Cristovam Buarque: Orgulho de Brasília

Não é possível ter orgulho de ser brasiliense sem orgulho de ser brasileiro. Hoje, se olharmos para o passado, temos muitas razões para nos orgulharmos de sermos brasileiros. Conseguimos uma nação integrada institucional e fisicamente, um mesmo país com redes de comunicações e transportes, mas não fizemos a integração social. Somos um país dividido por “mediterrâneos invisíveis” nos separando em uma sociedade embrutecida, com elevado grau de violência caracterizando uma guerra civil. Conseguimos fazer um país democrático na política, com uma Constituição respeitada, instituições funcionando, mas, dos últimos quatro presidentes eleitos, fizemos o impeachment de dois. Atravessamos, com perplexidade, uma instabilidade e uma divisão sectarizada que impedem o diálogo — uma política emburrecida. Conseguimos fazer do Brasil um país reconhecido como uma das nações mais ricas do planeta, mas temos uma das menores rendas per capita, nossa produtividade é baixa, a capacidade de inovar ainda pior, nossa economia continua baseada em bens tradicionais.

Ao olhar a história, podemos nos orgulhar; ao olhar ao redor, temos razões para nos envergonhar e, ao olhar para o futuro, certamente tomamos um susto: não conquistamos a coesão social e não temos a definição de um rumo comum. Nesse momento, não vemos ideias e gestos que nos demonstrem possibilidade de coesão, ainda menos de rumo. Estamos divididos em corporações e grupos sem um sentimento comum de nacionalidade e não parece haver no horizonte sinais de propostas e de lideranças aglutinadoras e orientadoras. Esgotamos o modelo baseado em uma frágil democracia corporativizada, no crescimento com uma economia tradicional, usando ligeiras transferências de renda, buscando frágil estabilidade monetária com o vício de expansão de gastos públicos. Esse modelo se esgotou, mas não estamos sendo capazes de formular outro que aglutine o presente e oriente o futuro.

Com suas finanças dependentes de recursos federais, com nossa infraestrutura e economia vinculadas aos serviços públicos, Brasília, como o Brasil, precisa encontrar uma mensagem aglutinadora e orientadora. Realizamos muito, ao nos transformarmos de cerrado em uma imensa metrópole. Mas nossa cidade não terá futuro pleno se não for capaz de encontrar uma vocação “mais do que capital”.

Nossos jovens precisarão cada vez mais de empregos fora do serviço público, nossa economia já demanda a produção de bens e serviços independentemente do funcionamento da capital federal. Brasília pode se aproveitar da mutação que está ocorrendo no mundo, saindo da indústria metalmecânica, para indústrias de alta tecnologia. Temos universidades — a UnB foi pioneira, com o Centro de Desenvolvimento Tecnológico — para servir de base a indústrias nascentes, as startups. Temos espaço, inclusive terras públicas que hoje são vendidas para cobrir gastos em vez de investir, financiando criminosamente a construção de absurdos elefantes brancos — como o Estádio Mané Garrincha, para a Copa, no lugar de aplicar na construção de uma base econômica sólida. Nova orientação para o futuro é possível, falta aglutinação política de nossos líderes.

Para nos orgulharmos plenamente de Brasília, é preciso romper com a maneira de fazermos política: temos usado dinheiro federal e renda de terrenos para financiar benesses definidas por políticos em busca de votos nas próximas eleições, no lugar de primar por servir ao público no presente e no futuro. Brasília precisa de radical reorientação em sua política: sair das amarras em siglas partidárias, que ficaram obsoletas e corrompidas, nenhuma apresenta pureza ética, nem identidade de propósitos, nenhuma oferece rumo para o futuro que queremos. É preciso fazer uma aliança das pessoas que, além de sérias, colocam os interesses de nossa cidade acima dos seus interesses eleitorais e de seu partido. E os propósitos de futuro na frente de preconceitos do passado.

Essa aliança para o futuro é necessária e possível. Temos as pessoas, temos o desafio: precisamos romper preconceitos, no lugar de romper princípios, como temos visto recentemente. Precisamos fazer alianças, inclusive com adversários do passado, por patriotismo, para construir o futuro, para aglutinar e reorientar Brasília, não por oportunismo para ganhar eleição. Precisamos de uma aliança para construirmos o futuro, um novo projeto, não para mantermos o passado. (Correio Braziliense – 04/07/2017)

Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)

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