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Luiz Carlos Mendonça de Barros: O que esperar do futuro

Neste momento tão conturbado que vivemos creio ser minha obrigação como colunista do Valor expandir um pouco o escopo das reflexões. Pensar hoje a economia brasileira fora do contexto da política é limitar muito a contribuição que sinto posso dar ao leitor neste período de angústia e incertezas sobre nosso futuro. Estamos vivendo um daqueles momentos da história de uma sociedade em que o futuro se impõe sobre o presente e o passado e que algo novo terá que ser construído pelo esforço de todos. A operação Lava-Jato já destruiu, com o que foi revelado até agora, as bases de um sistema político iniciado com a redemocratização e que certamente não existirá mais após as eleições de 2018.

Faço esta observação a partir de fatos concretos que vão mudar profundamente o funcionamento de nosso sistema de representação popular. O sistema de financiamento das campanhas eleitorais, ancorado principalmente no financiamento por parte de empresas privadas, vai desaparecer do cenário político. Os custos terríveis que estão sofrendo as empresas que usaram este mecanismo como estratégia para crescimento de seus negócios mostrou os riscos reais de tal sistema. Como corolário direto deste fato, as campanhas eleitorais terão um corte brutal em seus orçamentos, o que vai levar partidos e candidatos a rever profundamente sua forma de ser e de agir.

Da mesma forma os recursos captados pela classe política via o banco de negócios criado pela aprovação de leis e regulamentos no Congresso vai – se não desaparecer – sofrer uma drástica redução. Desaparecer por completo é uma ilusão dada a natureza humana e dos sistemas políticos.

Estas mudanças trazem, entretanto, questões importantes para serem enfrentadas. A primeira delas é sobre como se dará a construção de um novo soft para o funcionamento do sistema político brasileiro nas próximas décadas. O tal presidencialismo de coalizão é filho bastardo deste sistema simbiótico entre política e interesses privados, desenvolvido principalmente no período hegemônico do PT. Associada a esta questão está a de como será a pinguela – para usar uma expressão muito feliz de FHC – que permitirá a sociedade brasileira chegar a 2018.

Estamos ainda no momento de desconstrução do sistema que vigorou até hoje, com o ministério público engajado em uma cruzada santa contra a corrupção de políticos e partidos. Mas isto precisa ser seguido necessariamente – e com urgência – pela fase de reconstrução das bases operacionais do sistema político. E neste sentido os movimentos são ainda muito lentos e frágeis, até pela falta de lideranças capazes de levar adiante este debate com a sociedade. Se isto não acontecer em tempo para as eleições de 2018 podemos mergulhar em um vazio muito perigoso.

Felizmente até agora toda a incerteza tem sido administrada no campo da democracia, sem uma guinada autoritária ou populista. Mas os riscos que isto ocorra serão crescentes se não passarmos a olhar, como sociedade, para esta fase rapidamente.

Finalmente gostaria de trazer ao leitor algumas observações sobre experiências históricas com situações semelhantes à que estamos hoje vivendo no Brasil. Em primeiro lugar temo a associação feita com frequência pelos procuradores sobre o que aconteceu na Itália – mani puliti- de algumas décadas atrás. E por que tenho este medo? Porque na Itália o sistema não se reformou e o país continua até hoje instável e com reduzida operacionalidade política. O aparecimento recente de uma alternativa populista e sem futuro é prova disto.

Outra experiência muito rica aconteceu na França em 1958 quando o soft político, que vigorou desde o fim da segunda guerra mundial, se esgotou e entrou em crise grave com a sublevação dos franceses da Argélia sob a liderança de parcela importante das forças armadas. Mas no caso francês existia uma liderança autoritária forte e de grande apelo popular – o general De Gaulle – e o sistema político transformou-se dentro das regras democráticas e superou o abismo institucional que se apresentava à sociedade.

Como não temos no Brasil de hoje nenhuma ameaça à democracia, ou nenhum elemento externo que a desafie, podemos acreditar, com boa dose de esperança, que o choque anafilático, que será causado no sistema político pelo corte abrupto de recursos privados, possa criar condições de uma reforma por dentro do próprio sistema existente. Ajuda muito neste sentido o diagnóstico já previsto sobre mudanças a serem implementadas como a cláusula de barreira, o fim das coligações eleitorais e, principalmente, a criação do sistema distrital nas eleições legislativas. Mas a falta de lideranças que operem estas mudanças e consigam mobilizar a opinião pública nesta verdadeira cruzada de construção de um futuro melhor me assusta muito.

Felizmente o bom senso que tem prevalecido na sociedade em relação a tudo que tem sido revelado pela mídia em sua cruzada perigosa me faz ter esperança que vamos superar – como sempre acontece – os momentos difíceis que estamos vivendo. (Valor Econômico – 19/06/2017)

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é presidente do Conselho da Foton Brasil. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

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